domingo, 9 de fevereiro de 2014

SEMENTES PARA PLANTAR

Um grande rei, pai de três filhos, precisava escolher entre um deles o seu sucessor. A decisão era muito difícil pois os três eram muito inteligentes e corajosos.

Além disso, eles eram trigêmeos e o rei não sabia como realizar a sua escolha. Por isso, procurou conselhos com um sábio do reino, que lhe deu uma idéia.

O soberano foi para casa e chamou os três filhos. Informou-lhes que necessitaria partir para uma viagem muito prolongada, mas que desejava deixar com cada um deles algo muito precioso.

Tomou de três pacotes com sementes e deu um para cada um dos filhos, com a recomendação de que eles deveriam devolvê-las, quando ele retornasse, dentro de um ou talvez, dois anos. Frisou que, aquele que melhor cuidasse das sementes, seria o seu sucessor.

O primeiro filho, tão logo o pai partiu, começou a pensar o que deveria fazer com aquelas sementes. Finalmente, resolveu trancá-las em um cofre, raciocinando que, quando o pai voltasse, ele devolveria as sementes como as havia recebido.

O segundo filho, observando o que fizera o irmão, pensou que se ele trancasse as sementes, elas morreriam. E sementes mortas, não são mais sementes.

Por isso, foi ao mercado, vendeu as sementes e guardou o dinheiro. Assim, quando o pai voltasse, ele retornaria ao mercado e compraria sementes novas, até melhores do que as que o pai lhe houvera deixado.

O terceiro filho foi ao jardim. Olhou a imensidão da terra que circundava todo o grande palácio, e resolveu atirar as sementes por todos os lugares.

Quando o pai regressou da sua viagem, três anos depois, o primeiro filho correu ao cofre, abriu e descobriu, desolado, que as sementes estavam secas, mortas.

Triste, o pai olhou aquele pacote e disse ao filho: "são estas as sementes que dei a você? Elas tinham a possibilidade de desabrochar, de se transformar em flores e exalar um delicioso perfume. No entanto, agora, de nada valem. Estão mortas."

O segundo filho foi até o mercado, comprou sementes novas e, orgulhoso, foi entregá-las ao pai, que elogiou a idéia do rapaz, mas lhe disse que, de verdade, ele não fizera nada de especial.

O terceiro filho apresentou-se ao pai e lhe disse não possuir mais as sementes. Entretanto, convidou o rei para ir até o jardim, e lhe mostrou centenas de plantas crescendo, flores desabrochando por todos os lados, numa profusão de cores e de perfumes interminável.

O rei o abraçou, feliz, dizendo-lhe: "esta é a maneira correta de proceder com as riquezas. Você é digno de ser meu sucessor."

Todos os talentos que possuímos são como as flores. Não podem ser guardados em cofres, porque morrem, secam. Dinheiro, beleza, poder, precisam ser semeados para florescer. O que equivale a dizer, usados para gerar mais riquezas, mais beleza e proteção a todos.

O amor, para dar frutos e espalhar perfumes, que a muitos beneficiem, necessita ser semeado no coração das outras pessoas.

Todos nós temos a capacidade de transformar o deserto em que o mundo está se tornando num imenso oásis de paz, amor e beleza.

Um lugar onde o sol, as estrelas, o vento e o mar sejam realmente para todos.



Roberto Shinyashiki, do livro "A revolução dos campeões".



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CORAÇÕES RENOVADOS

Três dias haviam corrido sobre a libertação de Júlio.
De novo, ao lado de Zulmira, nas primeiras ho­ras da noite, reparávamos-lhe a profunda exaustão...
O enfraquecimento progressivo impusera-lhe perigosa situação orgânica.
O próprio Clarêncio, depois de auscultá-la, ano­tou, apreensivo:
— Nossa irmã reclama socorro mais seguro. O esgotamento é quase completo.
A enferma recebia-lhe a assistência magnética, quando Mário, Antonina e Haroldo deram entrada em sala próxima.
Deixamos nosso instrutor com a doente e de-mandamos a peça em que se efetuaria o encontro familiar.
O ferroviário e a filha faziam as honras da casa.
Amaro, acolhedor, dava mostras de grande alí­vio. O sorriso, embora triste, era largo e espon­tâneo, demonstrando o contentamento interior de quem via terminar velha e desagradável desavença.
Mário, porém, surgia constrangido e desajei­tado, enquanto Antonina irradiava simpatia e bon­dade, cativando, de improviso, a amizade dos an­fitriões.
O enfermeiro apresentou a jovem senhora e o filhinho por amigos particulares e depois, eviden­temente instruído pela companheira, iniciou a pa­lestra, comentando a penosa impressão que lhe causara o falecimento do pequenino e pedia escu­sas por não haver reaparecido, como reconhecia de seu dever.
A ocorrência desnorteara-o.
Caíra de cama, impressionado com o aconte­cimento que lhe não cabia esperar.
Falava realmente comovido, porque, lembrando os derradeiros minutos da criança, represavam-se-lhe os olhos de lágrimas que não chegavam a cair. Aquela emotividade manifesta, aliada à humil­dade sincera que Silva deixava transparecer, to­cava o coração de Amaro, que se descerrou mais amplamente.
— Percebi — disse o dono da casa — a dor que o envolveu no momento justo em que nosso anjinho era arrebatado pela morte. Sua aflição me comoveu muito, não só pelo devotamento do pro­fissional que nos assistia, mas também pela afe­tividade pura do amigo que, há tanto tempo, se distanciara de nossos olhos.
A generosidade do ex-rival, por sua vez, in­fluenciava o enfermeiro de modo decisivo.
As vibrações de afabilidade e carinho que se desprendiam do apontamento afetuoso modificavam-lhe o íntimo.
Mário passou a sentir balsamizante desafogo.
E, enquanto Evelina se afastava para atender à madrasta doente, reportou-se à tortura moral que o assaltara, assim que viu Júlio inerte, deten­do-se na breve descrição do complexo de culpa que o acometera. Teria seguido com segurança a indicação do especialista? Enganar-se-ia, porventura, na dosagem da medicação?
Na ligeira pausa que surgiu, natural, Amaro tornou à palavra, acrescentando, bondoso:
— Não havia motivo para tamanha preocupa­ção. Desde a primeira visita médica, compreendi que o nosso filhinho estava condenado. O soro foi o último recurso.
E, com dolorida resignação, acentuou:
— Não é a primeira vez que atravesso uma provação dessa ordem. Há tempos, sofri a perda do caçula de meu primeiro matrimônio, estranhamente afogado numa de nossas raras excursões até à praia. Confesso que só me faltou enlouquecer. Entretanto, apeguei-me à religião para não soço­brar e hoje compreendo que somente nos compete acatar os desígnios de Deus. Não passamos de criaturas necessitadas de socorro divino, a cada instante de nossa experiência humana.
— Sem dúvida — interferiu Antonina, otimis­ta —, sem apoio espiritual, não avançaríamos um passo no terreno da verdadeira harmonia íntima. A morte do corpo nem sempre é o pior que nos possa acontecer. Quantas vezes os pais são cons­trangidos a acompanhar a morte moral dos filhos, no crime ou na viciação que não conseguem inter­romper? Também perdi um dos rebentos que Deus me confiou, mas procurei acomodar-me à saudade sem revolta, porque a Sabedoria do Senhor não deve ser menosprezada.
— Que prazer ouvi-la! — disse o ferroviário, com discreta satisfação — após afeiçoar-me, com mais empenho, ao Catolicismo, na leitura de Santo Agostinho, observo que abençoada renovação se fêz em mim.
E fitando a interlocutora, com mais atenção, aduziu:
— A senhora é também católica?
Antonina sorriu, delicada, e informou:
— Não, senhor Amaro, em matéria de fé, acei­to a interpretação evangélica do Espiritismo, en­tretanto, isso não impede que estejamos procurando o mesmo Mestre.
— Ah! sim, Jesus é o nosso porto — acentuou o anfitrião, liberal —, não entendo a religião por elemento separatista. A senhora, na condição de espírita, e eu, na posição de católico, possuímos uma só linguagem na fé que nos identifica. Creio que a Providência Divina, como o Sol, brilha para todos.
— É muita alegria sentir-lhe a nobreza d'alma — comentou Antonina, entusiástica —; na essência, desejamos ser cristãos sinceros e a sua ge­nerosidade me permite entrever a beleza do Cristo nas vidas nobres.
Amaro não conseguiu responder.
Um táxi parou à porta e, de imediato, o mé­dico da família entrou para a inspeção.
Depois das saudações usuais, passou ao quarto da enferma e, porque o dono da casa se propusesse segui-lo, recomendou-lhe permanecesse na sala com as visitas, de vez que tencionava submeter a doen­te a meticuloso exame, pretendendo ouvi-la a sós.
Evelina veio ter conosco e, acompanhando o facultativo com o nosso olhar. vimo-lo carinhosa­mente recebido por Clarêncio e Odila, que se nos mostraram à porta.
A conversação passou a desdobrar-se em torno de Zulmira.
O chefe da família, preocupado, discorria so­bre a esposa acamada, encarecendo a delicadeza da situação.
Zulmira, que adoecera com a enfermidade do fi­lhinho, desde a morte dele, não mais se alimentara.
Não obstante todos os conselhos médicos e todos os apelos afetivos, demonstrava-se alheia, no mais amplo desinteresse pela vida.
Enfraquecia, de modo alarmante.
Como se quisesse dar notícias de seu círculo particular ao atento enfermeiro, relacionou os desajustes psíquicos da companheira, antes da vinda do filhinho que a morte lhes arrebatara ao con­vívio.
Zulmira, com a maternidade triunfante, como que se renovara.
Revelara-se mais alegre, mais viva.
Readquirira a saúde plena.
Com a desencarnação da criança, nova crise de contratempos invadira-lhe a casa.
A moléstia asilara-se, ali, de novo, entre as quatro paredes.
Mário, a permutar significativos olhares com Antonina, de quando em quando se situava entre a perplexidade e o desencanto.
A confissão de Amaro constituía um testemu­nho de humildade pura.
Em muitas ocasiões, fantasiara-o, na própria imaginação, qual se fora um poço de orgulho e arrogância e, por muitas vezes, surpreendera-se em acalorados solilóquios, rixando com ele em pensa­mento.
Agora, reparava que o antagonista era um homem comum, tanto quanto ele necessitado de paz e compreensão.
O entendimento prosseguia mais afetuoso, quando o clínico tornou à sala.
De semblante torturado, dirigiu-se ao ferroviário, notificando:
— Amaro, a providência é quase impossível quando a previdência não funciona. A posição de Zulmira piorou muitíssimo nas últimas horas. O soro aplicado desde ontem não trouxe o resultado preciso. O abatimento é enorme. Creio indispen­sável uma transfusão de sangue ainda esta noite. para que não sejamos amanhã surpreendidos por obstáculos insuperáveis.
Amaro empalideceu.
Antonina voltou-se em silêncio para Silva, como a dizer-lhe, de coração para coração: — Não he­site. É a sua hora de ajudar. Aproveite a opor­tunidade.
Mário, acanhado, levantou-se maquinalmente e, antes que Amaro fizesse qualquer referência ao assunto, apresentou-se ao médico, explicando:
— Doutor, se a minha cooperação for aceita, sentirei prazer nisso. Sou doador de sangue no hospital em que trabalho. Um telefonema seu ao pediatra amigo, a quem o senhor recorreu no caso de Júlio, pode confirmar as minhas palavras.
E, erguendo os olhos para o ex-rival, disse, em voz quase suplicante:
— Amaro, permita-me! quero auxiliar a doen­te de algum modo!... Afinal de contas, somos todos, agora, bons irmãos.
O chefe da casa, comovido, abraçou-o reco­nhecidamente.
— Obrigado, Silva!
Nada mais conseguiu dizer.
De olhos angustiados, dirigiu-se para o apo­sento da mulher, envolvendo-a em manifestações de carinho.
Antonina, colocando Haroldo junto a uma pilha de revistas velhas, pôs-se à disposição de Evelina para qualquer atividade caseira, enquanto Mário e o médico partiam, velozes, em busca do material necessário.
Transcorrida uma hora, a cãmara da enferma se iluminava mais intensamente para o serviço a fazer.
Zulmira, admirada, reconheceu Mário, todavia era enorme a prostração para que pudesse demons­trar interesse ou desprazer. Apresentada a Anto­nina, limitou-se a endereçar-lhe alguns monossíla­bos, com um breve sorriso de reconhecimento.
Assumindo a direção da enfermagem, a jovem viúva parecia uma figura providencial.
Amparou a doente com carinho, auxíliou o clínico nas tarefas do momento e, cativando a gratidão dos novos amigos, colaborou com Evelina para que todas as medidas alusivas à higiene se efe­tuassem harmoniosas.
Realizada a transfusão, a enferma entrou na reação característica, contudo, Silva, fosse porque estivesse de si mesmo enfraquecido ou porque a quantidade de sangue tivesse sido demasiada, pas­sou a acusar profundo abatimento.
Em seus olhos, porém, brilhava uma luz di­ferente.
Afigurava-se-lhe haver perdido as inquietações que o martirizavam. Adquirira a noção de que se reabilitara, perante a própria consciência. Trou­xera aos ex-adversários o próprio coração em for­ma de visita fraterna. E as suas próprias forças insufladas no campo orgânico da mulher que lhe fora a bem-amada, como que lhe favoreciam a au­sência dos velhos pensamentos de mágoa que, por tanto tempo, lhe haviam flagelado a vida íntima.
Registrando-lhe a queda de energias, o médico ministrou-lhe, de imediato, os recursos aconselhá­veis, permanecendo Mário, desse modo, cômodamen­te instalado em larga poltrona, junto dos amigos.
Despediu-se o facultativo, mais animado.
Antonina, sem afetação, ajudou no preparo do café, que foi saboreado por todos, enquanto a con­versação era reatada com alegria.
Foi então que a viúva se ofereceu para voltar. Era industriária e, na posição de mãe, res­ponsabilizava-se por três crianças, entretanto, po­deria dispor de dois dias.
Amaro salientou a dificuldade para encontrar uma enfermeira ou governanta para horas difíceis e aceitou a gentileza.
Antonina, contente, prometeu regressar, tra­zendo Lisbela, na manhã seguinte. Estava convencida de que a menina conseguiria entreter Zulmira, com as suas infantilidades, mitigando-lhe o coração saudoso de mãe.
Evelina abraçou-a, encantada. Simpatizara-se com Antonina, como se fossem duas irmãs.
Algo reanimado e positivamente feliz, Mário dispôs-se à retirada e um táxi foi trazido.
Num ambiente de construtiva cordialidade, de­senvolveu-se a reconfortante despedida.
E Silva, fitando a companheira de excursão com reconhecimento e carinho, sentiu-se reconciliado consigo mesmo, irradiando a alegria silenciosa de quem retorna à felicidade.


Do livro "ENTRE A TERRA E O CÉU", pelo espírito André Luiz - psicografia de Chico Xavier.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

REERGUIMENTO MORAL

Consoante o programa traçado, regressamos, no dia imediato, estagiando primeiramente no lar de Zulmira, cuja posição orgânica era mais aflitiva.
A pobre senhora mostrava-se mais pálida, mais abatida.
O médico cercara-a de drogas valiosas, entre­tanto, a infortunada criatura demorava-se em pro­funda exaustão.
Amaro e Evelina desvelavam-se, preocupados, todavia, a torturada mãezinha deixava-se morrer.
Diante da nossa apreensão manifesta, o Mi­nistro apenas afirmou:
—. Aguardemos. Numa equipe, quase sempre a melhora de um companheiro pode auxiliar a me­lhora de outro. A recuperação de Silva, ao que me parece, influenciará nossa amiga, na defesa contra a morte.
Não se delongou por muito tempo na inter­venção magnética.
Sem detença, procuramos o domicilio do en­fermeiro, encontrando-o superexcitado quanto na véspera, mas abnegadamente assistido pelas freiras que persistiam, dedicadas, na oração.
As religiosas desencarnadas acolheram-nos com carinho, comunicando que o doente prosseguia em desespero.
Clarêncio, contudo, assegurou-lhes otimista que Mário passaria conosco e, após entreter-se, vol­taria melhor.
Em seguida, abeirou-se do enfermo e, tocan­do-lhe a fronte com a destra, orou sem alarde.
Qual se recebesse preciosa transfusão de for­ças fluídicas, Silva aquietou-se como por encanto.
Revelou-se mais calmo, não obstante entris­tecido.
A expressão facial que lhe denunciava a su­blevação interior transformou-se-lhe no semblante em dolorosa serenidade.
Nosso orientador desenvolveu alguns passes de auxílio e notificou:
— Silva experimenta enorme necessidade de ouvir a palavra de Antonina, contudo, está hesitante. Afirma-se íntimamente envergonhado. Crê-se responsável pela morte da criança e teme o contacto com a nobreza espiritual de nossa irmã, apesar de sentir-se arrastado para ela - Buscaremos, porém, auxiliar-lhes a reaproximação.
Acariciou a fronte do moço atormentado e acentuou:
— O desabafo descarregar-lhe-á a atmosfera mental, favorecendo-lhe o alívio e a recepção de elementos renovadores.
Em seguida, o instrutor abraçou-o, envolven­do-o em amorosa solicitude - Aquele amplexo afe­tuoso e longo figurou-se-nos um apelo às energias recônditas do rapaz que, de imediato, levantou-se e vestiu-se.
Ignorando como explicar a si mesmo a súbita resolução que o movia, desceu para a rua, segui­do de perto por nosso cuidado, e tomou o carro que o transportaria até à residência da simpática família que o acolhera carinhosamente na ante­véspera.
Antonina e os filhos abriram-lhe os braços, alegremente.
A pequena Lisbela, encantada, dependurou-se-lhe ao pescoço, depois de um beijo comovente.
Achava-se ainda acamada, mas refeita e feliz.
Qual se convivesse com Mário, de longo tempo, a dona da casa fitou-o, apreensiva.
Preocupada, anotou-lhe o abatimento, enquan­to o hóspede parecia esmolar-lhe, em silêncio, aju­da e compreensão.
Percebendo-lhe a angústia oculta, a jovem viú­va induziu-o à conversação particular, em singelo recanto da sala, onde atendia com os filhinhos ao culto da oração.
O enfermeiro pediu-lhe desculpas por tratar de assunto pessoal e, começando por justificar a sua ausência na véspera, de frase a frase entrou na faixa dolorosa do próprio coração, desabafando...
Lembrou que ali, junto dela, recebera ensina­mentos da mais elevada significação para ele e, por esse motivo, não vacilava em descerrar-lhe o espírito desolado, implorando compaixão e socorro.
Tentando confortá-lo, a interlocutora escutou-lhe a narrativa até ao fim.
Mário reportou-se à juventude, comentou os problemas psíquicos de que se via rodeado, desde a infância, descreveu-lhe o amor que nutrira pela moça que o abandonara em pleno sonho, relacionou as provas que lhe haviam castigado o brio de ra­paz, salientou o esforço que despendera para re­cuperar-se e, por fim, extremamente conturbado, explanou sobre o reencontro com a ex-noiva e com o ex-rival, junto do pequenino agonizante... Refe­riu-se ao ódio inexplicável que sentira pelo anjinho moribundo, encareceu os benefícios do culto evan­gélico em sua alma incendiada de revolta e amar­gura, expondo-lhe a convicção de haver contribuído para à morte da criancinha que detestara, à pri­meira vista..
Guardava a impressão de haver descido a tor­mentoso inferno moral.
Antonina sentiu por ele a piedade amorosa com que as mães se dispõem ao soerguimento espiritual dos filhos sofredores e rogou-lhe serenidade.
Silva, contudo, em pranto convulsivo, era um doente que reclamava mais ampla intervenção.
Atraída irresistivelmente para ele, a nobre amiga­ deixou de sublinhar o tratamento com a palavra “senhor” e, fazendo-se mais Íntima, obtemperou, carinhosa:
— Mário, quando caímos é preciso que nos levantemos, a fim de que o carro da vida, em seu movimento incessante, não nos esmague. Conhece­mo-nos há dois dias, no entanto, sinto que profun­dos laços de fraternidade nos reúnem. Não acre­dito estejamos aqui juntos, obedecendo a simples acaso. Decerto, as forças que nos dirigem a exis­tência impelem-nos aos testemunhos afetivos desta hora. Enxugue as lágrimas para que possamos ver o caminho... Compreendo o seu drama de homem rudemente provado na forja da vida, entretanto, se posso pedir-lhe alguma coisa, rogar-lhe-ia bom ânimo.
Fixando-o com mais doçura no olhar, prosse­guiu, depois de leve pausa:
— Também eu tenho lutado muito. Lutado e sofrido. Casei-me por amor e vi-me espoliada em minhas melhores esperanças. Meu marido, antes de encontrar a morte, relegou-nos a dolorosa pe­núria. Quando mais intensa era a nossa agonia doméstica, vi um filhinho morrer ao toque das aflitivas provações que nos flagelavam a casa... Gra­ças a Deus, todavia, reconheço que seríamos tão somente ignorância e miséria sem o auxílio da dor. O sofrimento é uma espécie de fogo invisível, plasmando-nos o caráter. Não se deixe abater, assim. Você está moço e as suas realizações no mundo podem ser as mais elevadas...
— Mas estou certo de que sou um assassi­no!... — soluçou o rapaz, desacorçoado.
— Quem poderia confirmá-lo? — exclamou An­tonina, com mais ternura na voz. — É indispen­sável recordemos que, atento à profissão, atendeu você a um menino completamente entregue ao domínio do crupe. O pequenino Júlio, à sua chegada, já estaria ofegante, sob as asas da morte.
— Mas, e a impressão? e o remorso? Sinto-me derrotado, aflito... Tenho medo de mim mesmo...
A nobre senhora fitou o hóspede com a ad­mirável segurança que lhe era peculiar e falou, firme:
— Mário, você acredita na reencarnação da alma?
E porque o interlocutor a contemplasse, com estranheza, continuou sem ouvir-lhe a resposta:
— Todos somos viajores no grande caminho da eternidade, O corpo de carne é uma oficina em que nossa alma trabalha, tecendo os fios do pró­prio destino. Estamos chegando de longe, a revi­vescer dos séculos mortos, como as plantas a re­nascerem do solo profundo... Naturalmente, você, Amaro, Zulmira e Júlio estão recapitulando algu­ma tragédia que ficou distanciada no espaço e no tempo, mas viva nos corações. E, mediante o ca­rinho de sua confissão espontânea, não duvido de minha participação em algum lance da luta que motivou os acontecimentos da atualidade.
Amor e ódio não se improvisam. Resultam de nossas cons­truções espirituais nos milênios.
Provávelmente, alguma responsabilidade me compete nos serviços em cuja execução você se comprometeu. Nossa con­fiança imediata, nossa associação neste assunto sem qualquer base prévia, essa simpatia fraternal com que você vem a mim e o interesse com que lhe ouço a exposição me autorizam a admitir que o presente está refletindo o passado. E, em razão disso, ofereço-me para cooperar com o seu esforço de algum modo...
— Colaborar? — atalhou o moço, quase alu­cinado — é impossível... O menIno está morto...
Envolta nas irradiações de Clarêncio, Antoni­na alegou com sensatez:
— E quem nos diz que Júlio não possa voltar à Terra? quem nos pronunciará incapazes de algo fazer a beneficio da criancinha que partiu?
— Como? como? — indagou, atônito, o infeliz.
— Escute, Mário. O egoísmo não se revela feroz tão somente em nossas alegrias. Muitas vezes, comparece também, asfixiante e terrível, em nossas dores. Isso se verifica, quando em nossa mágoa pensamos apenas em nós. Você se decla­ra delinqüente, amargurado, vencido, qual se fosse um herói repentinamente arrojado do altar da admiração pública à poeira da desconsideração.
Admito que concentrar demasiada atenção em cul­pas imaginárias é mera vaidade a encarcerar-nos na angústia vazia. Enquanto lastimamos a nossa imperfeição, perdemos a hora que seria justo uti­lizar em nossa própria melhoria.
E, modificando a inflexão de voz, que se fêz algo mais firme, acrescentou:
— Você já meditou no padecimento dos pais feridos pela separação? já refletiu nos sonhos ma­ternos, despedaçados? porque não estender frater­nos braços aos progenitores na sombra do infortú­nio? Creio na imortalidade da alma e na redenção dos nossos erros, penso que a renovação do dia é um símbolo da graça do Senhor sempre repetida em nosso caminho, para que lhe aproveitemos o tesouro de bênçãos no crescimento ou no reajuste... Porque não visitar você o lar de nossos desven­turados amigos, nesta hora em que naturalmente precisam de carinho e solidariedade? É possível que a Divina Bondade esteja reservando ali algum serviço para o seu propósito de elevação. Quem sabe? A volta de Júlio pode efetuar-se. Para isso, porém, será necessário reerguer o ânimo materno...
Passando da energia de conselheira à ternura de irmã, aduziu, carinhosa:
— Deixaria você a outrem o privilégio de se­melhante serviço?
— Não tenho coragem! — lamentou o rapaz, chorando.
— Não, Mário! Em ocasiões dessas, não é a coragem que nos falta e sim a humildade.
Nosso orgulho neste mundo, apesar de inconsequente e vão, é por demais envolvente e excessivo. Não sa­bemos liberar a personalidade segregada no visco de nosso exagerado amor próprio. Em suma, apri­sionamos o coração na escura fortaleza da vaidade e não sabemos ceder...
Apegando-se ao socorro moral que lhe era lançado, o enfermeiro suplicou, pesaroso:
— Antonina, creio em sua amizade e na ele­vada compreensão que flui de suas palavras. Ajude-me! não vim aqui senão rogar auxílio e discer­nimento. Exponha você mesma o que devo fazer. Dê-me um plano. Perdoe-me a intimidade, tenho sido um homem sem fé... Não tenho autoridades ou amigos para quem apelar... Não nos conhece­mos senão há dias, mas encontrei em seu coração e em sua casa algo novo para meu pobre espírito... Suporte-me e ampare-me por amor de Deus, em cuja providência você crê com tanta sinceridade !...
A jovem viúva, sentindo-se verdadeiramente irmã dele, acariciou-lhe as mãos quais se fossem velhos conhecidos, e agora, igualmente em lágri­mas de emotividade e reconhecimento, convidou-o a visitarem juntos o casal sofredor, na noite se­guinte.
Confiaria Henrique e Lisbela aos cuidados de uma parenta e seguiriam para a residência de Ama­ro. em companhia de Haroldo. Desejava auxiliá-lo, a ele, Mário, na justa recuperação, e, para esse fim, estimaria acompanhá-lo, de maneira a ser mais útil.
O moço aceitou a gentileza, exultante.
Estava convencido de que, ao lado de Anto­nina, encontraria uma solução.
Um sorriso de reconforto assomou-lhe aos lá­bios e foi assim que deixamos o enfermeiro atormentado, sob a eclosão de nova e abençoada es­perança.

Do livro "ENTRE A TERRA E O CÉU", pelo espírito André Luiz - psicografia de Chico Xavier.

HUMILDADE ESPÍRITA

Alguém disse um dia que a hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude. Mas não é exatamente de hipocrisia que quero falar. Quero falar da busca de equilíbrio no comportamento humano, que tanto nos exige se estivermos realmente dispostos a mudar.

Muitos não querem mudar. Acho que a maioria. O que querem é que a situação mude, que as pessoas mudem, que tudo mude, menos elas mesmas. Se existe um padrão ideal de comportamento devemos conquistá-lo. Não se trata de deixarmos de lado nossas características, não se trata de nos estereotiparmos, de nos tornarmos todos iguais. Pelo contrário.

Justamente para podermos nos mostrar exatamente como somos é que precisamos alcançar um ponto de equilíbrio que nos permita nos manifestar tal como somos sem ferir o próximo. Porque o que mais vemos são dois extremos: Aquele que se mostra por inteiro, sem considerar direitos, sentimentos e conceitos alheios; e aquele que se esconde atrás de uma máscara de indiferença, como se nada lhe importasse, mas que por dentro fica se remoendo.

Comecei falando sobre hipocrisia. É que a palavra hipocrisia se refere a máscara, a essa máscara que alguns nunca tiram da cara, e que todos nós experimentamos uma vezinha ou outra. A palavra hipocrisia vem do grego e designava, originalmente, o ator de teatro. Quando Jesus chamava os fariseus de hipócritas era o mesmo que hoje chamarmos alguém de "artista", querendo dizer com isso que a pessoa finge, que ela representa como um artista.

Mas a designação pejorativa da palavra só se consolidou na Idade Média. Hoje hipócrita é um palavrão dos mais feios. E nós somos hipócritas mais vezes do que pensamos. Quando você cede no seu ponto de vista, sabendo que ele é verdadeiro, você acha que está sendo humilde? Eu, particularmente, evito discussão. Quando discutimos esquecemos a busca da verdade e só queremos que prevaleça o nosso ponto de vista.

Mas uma coisa é evitar discussão, outra coisa é fazer de conta que aceita o ponto de vista alheio e ficar se remoendo por dentro. Isso acontece muito em querelas religiosas. Alguns espíritas, por força do preconceito, têm medo de assumir sua postura. E aceitam os argumentos fajutos de pessoas descrentes do Espiritismo. Fazem cara de banana e fingem que concordam. Cedem externamente e se revoltam intimamente. Isso não é humildade, longe disso. Isso é hipocrisia grossa. Para com os outros e para consigo mesmo.

Não estou condenando quem faz isso. Eu já fiz coisas do gênero. Na tentativa de sermos humildes fazemos coisas muito ridículas. Ceder contra a vontade não é humildade, é hipocrisia. Ceder para evitar discussão, ser condescendente, dependendo das circunstâncias é atitude madura e meritória. Ceder por medo de assumir sua postura é covardia. Ser humilde não é ser covarde, ser manso não é ser medroso.
Acho que o conceito de humildade foi muito deturpado. É verdade que a palavra deriva do latim humus, terra. Por causa disso, talvez, se pense que ser humilde é rebaixar-se, é andar se arrastando. Mas as palavras homem e humanidade também derivam de humus. Isso se deve ao fato de os antigos considerarem que o homem veio do barro, da terra, do humus. Ser humilde, então, é ser como se é, é ser conforme a sua natureza, ser apenas mais um homem, indivíduo da humanidade. Ser humilde não é rebaixar-se, ser humilde é ser exatamente como se é, nem acima, nem abaixo.

Ser humilde não é andar se arrastando, falando mole e aceitando desaforos e engolindo absurdidades. Devemos defender as verdades que nos são caras. Para isso é possível que tenhamos que ser firmes, enérgicos. Claro que não vamos perder tempo e energia discutindo ou dando conversa pra quem nem sabe direito o que pensa. Mas algumas vezes nos vimos na contingência de ter que defender nossas verdades, as posturas que adotamos. E isso exige energia e coragem. Isso são virtudes, não defeitos. Defeito é covardia, moleza, rebaixamento de si mesmo. Essas fraquezas não condizem com a grandeza de Deus.





Desconhecemos a autoria.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

A POBREZA FELIZ

Quem se empobrece de ambições inferiores, adquire a luz que nasce da sede da perfeição espiritual. 

Quem se empobrece de orgulho, encontra a fonte oculta da humildade vitoriosa.

Quem se empobrece de exigências da vida física, recebe os tesouros inapreciáveis da alma.

Quem se empobrece de aflições inúteis, em torno das posses efêmeras da Terra, surpreende a riqueza da paz em si mesmo.

Quem se empobrece da vaidade, amealha as bençãos do serviço.

Quem se empobrece de ignorância, ilumina-se com a chama da sabedoria.

Não vale amontoar ilusões que nos enganam somente no transcurso de um dia.

Não vale sermos ricos de mentira, no dia de hoje, para sermos indigentes da verdade, no dia de amanhã.

Ser grande, à frente dos homens, é sempre fácil. A astúcia consegue semelhante fantasia sem qualquer obstáculo. Mas ser pequenino, diante das criaturas, para servirmos realmente aos interesses do Senhor, junto da Humanidade, é trabalho de raros.

Bem aventurada será sempre a pobreza que sabe se enriquecer de luz para a imortalidade, porque o rico ocioso da Terra é o indigente da Vida Mais Alta e o pobre esclarecido do mundo é o espírito enobrecido das Esferas Superiores, que será aproveitado na extensão da Obra de Deus.

Chico Xavier

EM TAREFA DE SOCORRO

Na noite do dia seguinte, fomos inesperada­mente visitados por Odila, que nos pedia socorro.
A preocupada amiga, agora ciente do drama escuro que se desenrolara no passado próximo para melhor entender as inquietudes do presente, com­preendia as necessidades de Amaro e Júlio, aos quais amava por esposo e filho do coração, e ro­gava assistência para Zulmira, novamente acamada.
Atendendo a apelos de Evelina, tornara ao ambiente doméstico para soerguer o bom ânimo daquela que a sucedera na direção do lar, e vol­tara, aflita.
Arrojara-se Zulmira a profundo abatimento.
Recusava remédio e alimentação.
Enfraquecia assustadoramente.
Sabia agora que a permanência dela no mundo e na carne se revestia de excepcional importância para o seu grupo familiar e, atenta a isso, conti­nuava intercedendo.
A rápida informação da mensageira impres­sionava e comovia pelo tom de amorosa aflição em que era vazada.
Não nos delongamos na resposta.
Era mais de meia-noite, na cidade, quando atra­vessamos a porta acolhedora da casa do ferroviário que, desde muito, constituía para nós valioso ponto de ação.
A dona da casa, de pensamento fixo nas der­radeiras cenas da morte do pequenino, jazia no leito em prostração deplorável.
Emagrecera de modo alarmante.
Fundas olheiras roxas contrastavam com a acentuada palidez do rosto desfigurado.
Recaíra na introversão em que a conhecêra­mos. Rememorava o afogamento do pequeno en­teado e, longe de saber que o retivera nos braços como filho abençoado de sua ternura, sentia-se na condição de ré infortunada no banco da justiça.
Decerto — pensava, agoniada —, sofria a pu­nição divina. Aquela morte do pequeno, quando tudo fazia crer que ele cresceria para a ventura do lar, correspondendo-lhe à expectativa, era dolorosa pena imposta ao seu maternal coração. Ah! devia ter sido pronunciada perante os juizes da Sabedoria Celeste. No mundo, ninguém lhe conhe­cia o remorso de guardiã invigilante e cruel, mas fora sem dúvida identificada pelos tribunais de mil olhos do Direito Incorruptível. Não amparara convenientemente o filhinho de Odila, relegando-o a intencional abandono... Agora, perdia inexplicavelmente o rebento que lhe definia a esperança no grande futuro. Valeria erguer-se e disputar aquilo que para ela representava a dor de viver? Reconhecia-se esmagada. O complexo de culpa re­tomara-lhe o cérebro e enfermara-lhe o coração.
Reparamos que diversos medicamentos se ali­nhavam à cabeceira, mas nosso instrutor examinou-os, auscultou a doente e informou:
— O remédio de Zulmira é daqueles que a farmácia não possui. Virá dela mesma. Precisamos refazer-lhe a esperança e o gosto de viver. Des­controlou-se-lhe, de novo, a mente. Desinteressou­-se da luta e a abstenção de alimentos acarreta-lhe a inanição progressiva.
— E o reencontro com o filhinho? — pergun­tou Hilário — não seria o melhor processo de restaurar-lhe o bom ânimo?
— É o que esperamos — concordou o Mi­nistro —‘ todavia, Júlio, na fase que atravessa, requisita, pelo menos, uma semana de absoluto re­pouso e, até lá, é indispensável entreter-lhe as energias.
Em seguida, Clarêncio entrou em ação, aplican­do-lhe recursos magnéticos, com o nosso humilde concurso.
A tensão nervosa de Zulmira, porém, atingira o apogeu e apenas conseguimos sossegá-la, de al­guma sorte, sem conduzi-la ao sono reparador que seria de desejar.
Odila, fortalecida, tomava-a aos seus cuida­dos, quando fomos defrontados por imprevisto fenômeno.
Mário Silva, desligado do corpo denso, com a rapidez de um relâmpago, penetrou o quarto, de olhos esgazeados, à maneira de louco, contemplou a doente por alguns instantes e afastou-se.
Volvemos nossa indagadora atenção para o Ministro, que esclareceu, sem detença:
— É sabido que o criminoso habitualmente volta ao local do crime. O remorso é uma força que nos algema à retaguarda.
E porque nos inclinássemos à procura do vi­sitante inesperado, o instrutor aquietou-nos, reco­mendando:
— Aguardemos. Mário voltará.
Com efeito, Silva, depois de alguns minutos, regressou ao aposento. Com a mesma expressão de dementado, fixou a pobre enferma e, dessa vez, rojou-se de joelhos, exclamando:
— Perdão! perdão!... sou um assassino! um assassino!...
Levantamo-nos, instintivamente, com o propó­sito de socorrê-lo, mas tocado de longe pela nossa influência magnética, qual se fora alcançado por um raio, o enfermeiro projetou-se para fora.
— Infortunado amigo! — falou o Ministro, contristado. — Sofre muito. Ajudemo-lo a soerguer-se.
Num átimo, ganhamos o domicílio de Mário. encontrando-o em pesadelo aflitivo, contido no lei­to à custa de poderosos anestésicos.
Com surpresa para nós, uma freira desencar­nada rezava, junto dele.
Interrompeu as preces, a fim de saudar-nos, acolhendo-nos com simpatia.
— Estava certa — disse delicada e confiante — de que Nosso Senhor nos enviaria o socorro justo. Desde algumas horas, ocupo aqui o serviço de vigilância. A posição do nosso amigo — e in­dicou Mário estendido na cama — é francamente anormal e temo a intromissão de Espíritos dia­bólicos.
Clarêncio assumiu o aspecto de simples visi­tante, vulgarizando-se ao olhar da religiosa, que se sentia evidentemente encorajada com a nossa presença.
— É enfermeira? — perguntou nosso instru­tor, cortês.
— Não sou própriamente do serviço de saúde replicou a interpelada —, mas colaboro no hos­pital onde Silva trabalha.
Fitou o moço semi-adormecido e aduziu, pie­dosa:
— É um cooperador devotado às crianças doentes e a cuja assiduidade e carinho muito passamos a dever.
E, numa linguagem genuinamente católica ro­mana, rematou:
— Muitas almas benditas têm descido do Céu para testemunhar-lhe agradecimento. Isso tem acon­tecido tantas vezes que, com alguns médicos e as­sistentes, fêz-se credor das melhores atenções de nossa Irmandade.
Usando o tato que lhe era característico , nosso orientador indagou:
— Como soube a irmã que o nosso amigo se achava assim tão conturbado?
— Não recebemos qualquer notificação direta, contudo, ele não compareceu hoje às tarefas ha­bituais e isso foi suficiente para indicar-nos que algo de grave estava acontecendo. Nossa superio­ra designou-me para verificar o que havia. Desde então, estou presa, de vez que não supunha a exis­tência de tantos Espíritos das trevas na vizinhança.
A palavra da freira saturava-se de tanta bon­dade espontânea e evidenciava uma fé pura tão encantadoramente ingênua, que a curiosidade me espicaçou o íntimo. A tentação de pesquisar o fascinante problema daquele caridoso esforço assis­tencial me constrangia a interferir no assunto, mas um olhar de Clarêncio bastou para que Hilário e eu nos mantivéssemos em respeitoso silêncio.
— É comovente pensar na sublimidade de sua missão, depois de ausentar-se do corpo terrestre — falou o Ministro, bondoso, talvez provocando al­guma elucidação direta, capaz de satisfazer-nos.
— Sim, trabalhamos sob a direção de Madre Paula — informou a interlocutora, sincera —‘ que nos explica ser a enfermagem nas casas públicas de tratamento uma forma de purgatório benigno, até que possamos merecer novas bênçãos de Deus.
— Mas, irmã, vê-se de pronto que o seu cora­ção está comungando a paz do Senhor.
Ela baixou humildemente os olhos e ponderou:
— Não penso assim. Sou uma pobre religiosa, em trabalho para resgatar os próprios pecados.
No leito, Mário gemia inquieto.
O Ministro pareceu despreocupar-se da pales­tra de ordem pessoal e passou a afagar a fronte do enfermo, dando-nos a idéia de que só ele devia atrair-nos o interesse.
A freira acercou-se respeitosamente de nosso instrutor e disse, calma:
— Irmão, Madre Paula costuma dizer-nos que os ouvidos de Deus vivem no coração das grandes almas. Estou certa de que escutastes minhas ro­gativas. Tenho-vos por emissários da Corte Celeste. Acredito que, desse modo, me compete a obri­gação de confiar-vos nosso doente.
Clarêncio agradeceu o carinho que transparecia daquelas palavras e expôs que a nossa passagem por ali era rápida, o bastante para ministrar o socorro preciso.
A interlocutora encareceu a necessidade de co­municar-se com o hospital, quanto ao cooperador em agitada prostração, e, prometendo voltar em breves minutos, ausentou-se à pressa.
A sós conosco, o orientador, embora de aten­ção ligada ao enfermeiro, explicou, atenciosamente:
— Nossa irmã pertence à organização espiri­tual de servidores católicos, dedicados à caridade evangélica. Temos diversas instituições dessa na­tureza, em cujos quadros de serviço inúmeras entidades se preparam gradualmente para o conheci­mento superior.
— Sob a direção de autoridades ainda ligadas à Igreja Católica? — perguntou Hilário, admirado.
— Como não? todas as escolas religiosas dis­põem de grandes valores na vida espiritual.
Como acontece à personalidade humana, as crenças pos­suem uma região clara e luminosa e uma outra ainda obscura. Em nossa alma, a zona lúcida vive alimentada pelos nossos melhores sentimentos, en­quanto que, no mundo sombrio de nossas experiên­cias inferiores, habitam as inclinações e os impul­sos que ainda nos encadeiam à animalidade. Nas religiões, o campo da sublimação está povoado pelos espíritos generosos e liberais, conscientes de nossa suprema destinação para o bem, ao passo que, nas linhas escuras da ignorância, ainda permanecem as almas pesadas de ódio e egoísmo.
E, sorrindo, o Ministro acentuou:
— Achamo-nos em evolução e cada um de nós respira no degrau em que se colocou.
— Ela, porém, terá penetrado a verdade com que fomos surpreendidos, depois da morte? — per­guntei, intrigado.
— Cada Inteligência — respondeu o orienta­dor, enigmático — só recebe da verdade a porção que pode reter.
Silva, no leito, dava inequívocos sinais de enor­me angústia.
Não ignorava que o meu dever de assistí-lo era trabalho inadiável, todavia, o encanto espiritual da religiosa singularmente arraigada aos hábitos terrestres me excitava de tal maneira a curiosidade que não pude conter a indagação espontânea.
— Mas essa freira sabe que deixou o mundo, sabe que desencarnou e prossegue, assim mesmo, como se via antes?
— Sim — confirmou o instrutor imperturbável.
— E estará informada de que a vida se es­tende a outras esferas, a outros domínios e a ou­tros mundos? perceberá que o céu ou o inferno começam de nós mesmos?
O orientador meneou a cabeça, dando mostras de negativa e acrescentou:
— Isso não. Ela não oferece a impressão de quem se libertou do círculo das próprias idéias para caminhar ao encontro das surpresas de que o Uni­verso transborda. Mentalmente, revela-se adstrita às concepções que elegeu na Terra, como sendo as mais convenientes à própria felicidade.
— E ninguém a incomoda aqui por viver as­sim distante do conhecimento real do caminho?
O orientador assumiu feição mais carinhosa­mente paternal para comigo e ajuntou:
— Antes de tudo, deve nossa irmã merecer-nos a maior veneração pelo bem que pratica e, quanto ao modo de interpretar a vida, não podemos es­quecer que Deus é Nosso Pai. Com a mesma tole­rância, dentro da qual Ele tem esperado por nossa mais elevada compreensão, aguardará um melhor entendimento de nossa amiga. Cada Espírito tem uma senda diversa a percorrer, assim como cada mundo tem a rota que lhe é peculiar.
E, fixando-me com particular atenção, ob­servou:
— A maior lição aqui, André, é a da semen­teira que produz, inevitável. Mário Silva, na posição de enfermeiro, não obstante a ruinosa impulsivi­dade em que se caracteriza, tem sido prestimoso e humano, tornando-se credor do carinho alheio. Segundo vemos, não é um homem devotado às lides religiosas. É irritável e agressivo. De ontem para hoje, chega a sentir-se criminoso... Entretanto, é correto cumpridor dos deveres que abraçou na vida e sabe ser paciente e caridoso, no desempe­nho das próprias obrigações. Com isso, granjeou a simpatia de muitos e encontramo-lo fraternal­mente guardado por uma freira reconhecida...
O ensinamento era efetivamente comovedor. Dispunha-me a prosseguir no comentário, contudo, Silva começou a gemer e o Ministro, incli­nando-se para ele, demorou-se longo tempo a aus­cultá-lo.
Em seguida, Clarêncio reergueu-se e falou:
— Pobre amigo! permanece impressionado com a morte de Júlio, conservando aflitivo complexo de culpa. Tem o pensamento ligado ao pequenino mor­to, à maneira de imagem fixada na chapa fotográ­fica. Passou o dia acamado, sob extrema pertur­bação. Observo que não foi a casa de Antonina, conforme previa. Sentiu-se vencido, envergonha­do... Entretanto, somente nossa irmã possui para ele o remédio indispensável...
Depois de pausa ligeira, indagamos se não nos seria possível socorrê-lo, de modo mais positivo, através de passes, ao que Clarêncio respondeu, se­guro de si:
— O auxílio dessa natureza ampara-lhe as for­ças, mas não resolve o problema. Silva deve ser atingido na mente, a fim de melhorar-se. Requisita idéias renovadoras e, no momento, Antonina é a única pessoa capaz de reerguê-lo com mais segu­rança.
Recordei instintivamente o drama que se de­senrolara ao tempo da Guerra do Paraguai, pa­recendo-me ouvir, de novo, a narração do velho Leonardo Pires.
Assinalando-me o pensamento, o Ministro pon­derou:
— Tudo na vida tem a sua razão de ser. Noutra época, Silva, na personalidade de Esteves, aliou-se a Antonina, então na experiência de Lola Ibarruri, para se afogarem no prazer pecaminoso. com esquecimento das melhores obrigações da vida. Atualmente, estarão reunidos na recuperação jus­ta. Os que se associam na leviandade, à frente da Lei, acabam esposando enormes compromissos para o reajustamento necessário. Ninguém confunde os princípios que regem a existência.
Decidia-me a desfechar novas interrogações, mas Clarêncio, pousando afetuosamente o indica­dor sobre os meus lábios, recomendou:
— Cessa a curiosidade, André! Quando pas­samos a explanar sobre a Lei, nossa conversação adquire o sabor de eternidade, e a imposição de serviço nos condiciona ao minuto que passa.
E, indicando o enfermeiro excitado, anunciou:
— Na tarde de amanhã, voltaremos para con­duzi-lo à residência de nossa irmã. Por intermédio de Antonina, habilitar-se-á para o indispensável reerguimento. Por agora, não podemos fazer mais.
Decorridos alguns instantes, a freira regressou à nossa presença, assistida por outra irmã, que nos cumprimentou com atenciosa reserva.
Ambas haviam sido designadas para a tarefa de auxílio ao cooperador doente. A congregação encarregar-se-ia de todos os trabalhos de vigilân­cia e enfermagem espiritual, enquanto Silva assim permanecesse.
Depois de breve diálogo, saudamo-las com res­peitosa cordialidade e nos retiramos, com a pro­messa de voltar no dia seguinte.




Do livro "ENTRE A TERRA E O CÉU", pelo espírito André Luiz - psicografia de Chico Xavier.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

ANTE A REENCARNAÇÃO

Na noite imediata, atendendo-nos a solicitação, Clarêncio conduziu-nos ao domicílio do ferroviário, para observações.
Penetramos respeitosamente o quarto em que Odila nos recebeu, contente e gentil.
Tudo lhe parecia desdobrar-se com segurança.
Júlio dormia.
Não mais acordara, informou a guardiã, feliz. Tinha a impressão de que o reencarnante desapa­recia pouco a pouco, na constituição orgânica de Zulmira, como se a futura mãezinha fosse um fil­tro miraculoso a absorvê-lo.
A genitora desencarnada mostrava-se satisfei­ta e esperançosa. Preferia ver o filhinho confiado ao sono profundo. As aflições e os gemidos dele lhe haviam dilacerado o coração.
O renascimento, por esse motivo, representava uma bênção para as inquietantes responsabilidades maternais de que se via detentora.
Observamos que Júlio se caracterizava por enorme diferença.
O corpo sutil do menino denotava espantosa transformação. Adelgaçara-se de maneira surpre­endente.
Tive a idéia de que ele e Zulmira, alma com alma, se fundiam um no outro. A moça ganhara em plenitude física e vivacidade espiritual quanto perdia o menino na apresentação exterior. Julio adormecera aliviado, ao passo que a jovem senhora demonstrava admirável despertamento para a vida. A segunda esposa de Amaro modificara-se de modo sensível. Como as pessoas felicitadas por novos títulos de confiança no trabalho, revelava-se mais alegre e mais cônscia das obrigações que lhe competiam.
A transfusão fluídica era ali evidente.
O organismo materno assemelhava-se a um alambique destinado a sutilizar as energias do reencarnante para restituí-las, decerto, a ele mesmo, na formação do novo envoltório.
Registrando-nos o assombro, o instrutor expli­cou com a sua habitual gentileza:
— A reencarnação, tanto quanto a desencar­nação, é um choque biológico dos mais apreciáveis. Unido à matriz geradora do santuário materno, em busca de nova forma, o perispírito sofre a in­fluência de fortes correntes electromagnéticas, que lhe impõem a redução automática.
Constituído à base de princípios químicos semelhantes, em suas propriedades, ao hidrogênio, a se expressarem atra­vés de moléculas significativamente distanciadas umas das outras, quando ligado ao centro genésico feminino experimenta expressiva contração, à ma­neira do indumento de carne sob carga elétrica de elevado poder. Observa-se, então, a redução volumétrica do veículo sutil pela diminuição dos espaços inter-moleculares. Toda matéria que não serve ao trabalho fundamental de refundição da forma é devolvida ao plano etereal, oferecendo-nos o perispírito esse aspecto de desgaste ou de maior fluidez.
— Quer dizer então... — aventurou Hílário, em sua curiosidade construtiva.
— Quero dizer que os princípios organogêni­cos essenciais do perispírito de Júlio já se encontram reduzidos na intimidade do altar materno, e, à maneira de um ímã, vão aglutinando sobre si os recursos de formação do novo vestuário de car­ne que lhe será o vaso próximo de manifestação.
— E a forma a rarefazer-se sob nossos olhos? — inquiriu meu colega, espantado.

— Está em ativo processo de dissolução.

E, com a bela serenidade que lhe assinala o espírito, continuou elucidando:
— Também o corpo físico parece dormir na desencarnação, quando, na realidade, começa a res­tituir as unidades químicas que o compõem à Na­tureza que lhos emprestou a titulo precário, ape­nas com a diferença de que a alma desencarnada, ainda mesmo quando em deploráveis condições de sofrimento e inferioridade, avança para a liberta­ção relativa, ao passo que, em nos reencarnando, sofremos o processo de volta às teias da matéria densa, não obstante orientados por nobres objeti­vos de evolução. É por isso que, conduzidos à reconstituição orgânica, revivemos, nos primeiros tempos da organização fetal, embora apressada­mente, todo o nosso pretérito biológico.
Cada ser que retoma o envoltório físico revive, automática­mente, na reconstrução da forma em que se ex­primirá na Terra, todo o passado que lhe diz respeito, estacionando na mais alta configuração típica que já conquistou, para o trabalho que lhe compete, de acordo com o degrau evolutivo em que se encontra.
A maneira simples pela qual Clarêncio esflora­va problemas tão complexos, induzia-nos a sublimados pensamentos, quanto à magnitude das Leis Universais.
Ali, diante de um caso comum de reencarna­ção, auxiliado apenas pelas nossas preces no culto à fraternidade, obtínhamos vastas elucidações so­bre o plano geral da existência.
Inspirado talvez na mesma faixa de reflexões que me preocupavam o espírito, Hilário inquiriu:
— Os princípios que analisamos funcionam em igualdade de circunstâncias para os animais?

— Como não? — replicou o nosso orientador, paciente — todos nos achamos na grande marcha de crescimento para a imortalidade. Nas linhas infinitas do instinto, da inteligência, da razão e da sublimação, permanecemos todos vinculados à lei do renascimento como inalienável condição de pro­gresso. Atacamos experiências múltiplas e reca­pitulamo-las, tantas vezes quantas se fizerem ne­cessárias, na grande jornada para Deus. Crisálidas de inteligência nos setores mais obscuros da Na­tureza evolvem para o plano das inteligências frag­mentárias, onde se localizam os animais de ordem superior que, por sua vez, se dirigem para o reino da consciência humana, tanto quanto os homens, pouco a pouco, se encaminham para as gloriosas esferas dos anjos.
O instrutor, entretanto, voltou-se para o leito em que mãe e filho jaziam, íntimamente associa­dos, e sentenciou:
— Preocupemo-nos, porém, com o serviço da hora presente. Estudemos o caso sob nossa obser­vação para que o nosso dever de solidariedade seja bem cumprido.
O apontamento reajustou-nos.
Hilário que, tanto quanto eu, se mostrava in­teressado em aproveitar a lição, fixando o quadro sob nossos olhos, pediu uma explicação tão simples quanto possível acerca da comunhão fisiopsíquica de Zulmira e Júlio naquele instante, ao que Cla­rêncio respondeu, após refletir alguns momentos:
— Imaginemos um pêssego amadurecido, lan­çado à cova escura, a fim de renascer. Decomposto em sua estrutura, restituirá aos reservatórios da Natureza todos os elementos da polpa e dos de­mais envoltórios que lhe revestem os princípios vitais, reduzindo-se no imo do solo ao embrião mi­núsculo que se transformará, no espaço e no tem­po, em novo pessegueiro.
O ensinamento não podia ser mais lógico, mais preciso.
— Então, por isso — acrescentou Hilário, estu­dioso — é que as crianças desencarnadas recla­mam período de tempo mais ou menos longo para demonstrarem crescimento mental, como ocorre na existência comum...
— Isso acontece com a maioria — informou o Ministro —, de vez que há exceções na regra.
Em muitas circunstâncias, semelhante imposição não existe. Quando a mente já desenvolveu certas qualidades, aprimorando-se em mais altos degraus de sublimação espiritual, pode arrojar de si mes­ma os elementos indispensáveis à composição dos veículos de exteriorização de que necessite em pla­nos que lhe sejam inferiores. Nesses casos, o Es­pírito já domina plenamente as leis de aglutinação da matéria, no campo de luta que nos é conhecido e, por esse motivo, governa o fenômeno da própria reencarnação sem subordinar-se a ele.
Fitávamos o semblante calmo de Zulmira, que respirava serena, feliz.
— O problema de Júlio, no entanto — consi­derei —, afigura-se-nos bastante doloroso...
— Doloroso mas educativo, quanto o de mi­lhares de criaturas, cada dia, na Terra — ponderou Clarêncio, imperturbável. — Nosso companhei­ro vencido e enfermo, em razão de compromissos adquiridos na carne, na carne encontrará caminho ao próprio reajuste.
— E a questão da hereditariedade? — indagou meu companheiro, reverente. — Júlio, perdendo o corpo sutil em que chorava atormentado, ressur­girá na existência física sem a moléstia que o apoquentava, por herdar fatalmente os caracterís­ticos biológicos dos pais?
O orientador sorriu, de maneira expressiva, e asseverou:
— A hereditariedade, qual é aceita nos conhe­cimentos científicos do mundo, tem os seus limites. Filhos e pais, indubitávelmente, ainda mesmo quando se cataloguem distantes uns dos outros, sob o ponto de vista moral, guardam sempre afinidade magnética entre si; desse modo, os progeni­tores fornecem determinados recursos ao Espírito reencarnante, mas esses recursos estão condiciona­dos às necessidades da alma que lhes aproveita a cooperação, porque, no fundo, somos herdeiros de nós mesmos. Assimilamos as energias de nossos pais terrestres, na medida de nossas qualidades boas ou más, para o destino enobrecido ou tortu­rado a que fazemos jus, pelas nossas conquistas ou débitos que voltam à Terra conosco, emergindo de nossas anteriores experiências.
— Somos então levados a crer que Júlio trans­portará consigo a enfermidade que sofria em nosso plano, à maneira de alguém que, em se mudando de domicílio, não modifica o quadro orgânico... — observou Hilário, com sensatez.
— Isso mesmo — elucidou o Ministro, satis­feito —, o problema é de natureza espiritual. Durante a gravidez de Zulmira, a mente de Júlio per­manecerá associada à mente materna, influencian­do, como é justo, à formação do embrião. Todo o cosmo celular do novo organismo estará impregna­do pelas forças do pensamento enfermiço de nosso irmão que regressa ao mundo.
Assim sendo, Júlio renascerá com as deficiências de que ainda é por­tador, embora favorecido pelo material genético que recolherá dos pais, nos limites da lei de he­rança, para a constituição do novo envoltório.
Depois de breve pausa, concluiu:
— Como vemos, na mente reside o comando. A consciência traça o destino, o corpo reflete a alma. Toda agregação de matéria obedece a im­pulsos do espírito. Nossos pensamentos fabricam as formas de que nos utilizamos na vida.

Calou-se o instrutor.

Odila tomou a palavra comentando as suas esperanças para o futuro.
Conversamos de novo, animadamente.
E, logo após, uma prece do Ministro encerrava para nós a deliciosa reunião.




Do livro "ENTRE A TERRA E O CÉU", pelo espírito André Luiz - psicografia de Chico Xavier.