sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

ENTENDIMENTO

Antonina, modificada, esfregava os olhos como quem não desejava acreditar no que via, mas, re­signando-se à evidência, continuou:

— Compadece-te de mim! compadece-te!...

— Lola, donde vens? — perguntou o infeliz.

— Não me induzas a lembrar!...

Não lembrar? Que condenado no tormento da expiação será capaz de esquecer? A culpa é um fogo a consumir-nos por dentro...

— Não me reconduzas ao passado!...

— Para mim é como se o tempo fosse o mes­mo. O inferno não tem horas diferentes... A dor paralisa a vida dentro de nós...

— É preciso olvidar...

— Nunca! O remorso é um monstro invisível que alimenta as labaredas da culpa... A consciên­cia não dorme...

— Não me rebentes o coração!

— E acaso o meu não vive estraçalhado?

O diálogo prosseguia comovente e Antonina, genuflexa, explodindo em angustiosa crise de lágri­mas, implorou com mais força:

— Não golpeies minhas feridas mal cicatriza­das! Não se rouba ao devedor o ensejo de pagar!

— Entretanto, por ti — gemeu o interlocu­tor —, enredei-me no crime. Amei-te e perdi-me. Trazias nos olhos a traição disfarçada... Oh! Lola, porque, porquê?...

E, ante o doloroso acento com que essas pala­vras eram pronunciadas, a pobre mulher suplicou, mais triste:

— Leonardo, perdoa-me!... Sofri muito... Enlouqueceste, é verdade! Mas, a perturbação que me atacou era mais lastimável, mais amargosa!... Sabes o que seja o caminho da mulher aviltada, entre o arrependimento e a aflição? Meditaste, al­gum dia, no martírio do coração feminino, relegado à penúria e ao abandono? Refletiste, alguma vez, na desilusão e na fome da meretriz desprezada e doente? Acaso, poderás perceber o que seja a fla­gelação de quem espera a morte, sob o sarcasmo de todos, entre a sede e o suor? Tudo isso co­nheci!.

— Matei, porém, por tua causa... — tarta­mudeou o mísero, infundindo compaixão.

— Naquele tempo — alegou a infortunada —, fiz pior. Exterminei minha alma... Esposa, troquei o altar doméstico pelo mentiroso tablado do gozo fácil; mãe, envileci o mandato que Deus me concedera, crestando todas as flores de minha fe­licidade!...

— Pudeste, no entanto, realizar o reerguimen­to que ainda não consegui... Foste, em suma, feliz!...

— Feliz? — bradou Antonina, semidesespe­rada — acusas-me de infiel, quando, como tantos outros, te cansaste de mim, procurando outras no­vidades e outros rumos !... Vi-me sozinha, enferma, aniquilada... Debalde busquei afogar no vinho do prazer a horrível impressão do abismo em que me precipitara, porque, quando o desencanto e a en­fermidade me relegaram à margem da vida, acor­dou-se-me a consciência, inculpando-me, desapieda­da... A morte recolheu-me na vala da miséria, como um carro de higiene pública reclama o lixo da sarjeta... Estarás habilitado a compreender-me o sofrimento em toda a extensão?... Por muitos anos, vagueei aflita, como ave sem ninho, refu­giada no espinheiro de dor que cultivara em mim mesma... Esmolei proteção, junto daqueles que me haviam sido afetos estimulantes da juventude... Ninguém se recordava de mim...

Não me cabia recolher uma gratidão que eu não semeara... Até que um dia...

Antonina passou a destra pela fronte pálida, como se evocasse velhas recordações fortemente trancadas na memória. Seu olhar adquirira a as­sustadiça expressão dos enfermos que a febre torna dementados.

Findos alguns instantes, exibiu no rosto a sur­presa de quem se banha num relâmpago de luz.

Parecendo haver encontrado a imagem que an­siosamente procurara, continuou:

— ... até que um dia, senti que me chamavas com pensamentos de carinho e de paz...

Rememo­ravas alguns traços elogiáveis de nossa vida, re­compondo na lembrança as festas que organizáva­mos em favor dos combatentes mutilados... As tuas divagações, arrancando ao pretérito as raras reminiscências felizes que poderíamos identificar, caíram sobre mim como bálsamo refrigerante... Chorei aliviada e adormeci em tua casa, no acon­chego da família que tiveste a ventura de cons­tituir...

Interrompeu-se Antonina, figurando-se-nos in­capaz de prosseguir recordando. Via-se que esbar­rara com insuperáveis impedimentos íntimos.

Emudecera, torturada pela incapacidade mne­mônica que a assaltara de improviso, contudo, o nosso orientador acercou-se dela e afagou-lhe a cabeça, deixando perceber que a auxiliava magneticamente na recuperação das próprias forças.

— Não posso saber — gritava Leonardo não posso saber! Desde que meu espírito foi ocupa­do por «ele», não consigo coordenar as idéias que me são próprias... Sim, certamente sou culpado... Tens razão... Podias ter recebido meu concurso... Não me cabia pensar em ti como se fosses tão somente mulher.

Mais calma, a pobre interlocutora suplicou, triste:

— Agora, que te capacitas de minhas dificul­dades, perdoa-me. Não me move outro desejo senão o de renovar-me! Sofri muito, aprendi duramente!.. Peço a proteção da Divina Bondade para todos aqueles que me não compreenderam e pro­curo sinceramente olvidar as ofensas que outros me assacaram, como desejo sejam esquecidas as ofensas que pratiquei contra os outros!..

Não me reconduzas, pois, ao passado!... Compadeces-te de mim!...

Reparávamos com assombro, que Leonardo e Antonina sob o controle paternal de Clarêncío, se mantinham detidos na posição vibratória em que haviam súbitamente caído.

Porque não se recordavam os dois do paren­tesco que os reunia?

Nosso instrutor, assinalando-nos a indagação socorreu-nos, esclarecendo:

- Encontram-se ambos imobilizados em certo momento do pretérito, num encontro provocado por influência magnética. Em tais recursos utilizados por nosso plano, no tratamento salutar das molés­tias da alma, determinados centros da memória se reavivam, ao passo que outros empalidecem. As sensações do presente dão lugar às sensações do passado, para efeito de reajustamento perante o futuro. O fenômeno, porém, é momentâneo. A bre­ves minutos regressarão à consciência normal, melhorados para a boa luta.

A explicação não podia ser mais satisfatória nem mais simples.

O Ministro continuava prestando assistência à nossa amiga, qual se Antonina não devesse avançar na faixa de lembranças.

Aceitando-lhe os apelos, Leonardo como que arrefecera o ímpeto inicial de desesperação.

Fitava-a, agora, quase que piedosamente, mas, longe de albergar qualquer sentimento positivo de ordem superior, arrancou do próprio íntimo nova onda de cólera, que lhe tingiu a máscara fisionô­mica.

Cerrando os punhos, bradou, desvairado:

— Sim, sim, entendo-te... Foste suficientemen­te infeliz... Mas, porque trago comigo o fantasma dele? Ter-se-á convertido num demônio intangível para arrasar-me a existência?

Estaremos no in­ferno, sem saber, agarrados um ao outro? Viverei dentro dele, quanto ele vive dentro de mim? Por­que me não permite o verdadeiro repouso? se pro­curo dormir, desperta-me, cruel; se tento olvidar, agiganta-se-me no pensamento!...

Desequilibrado, Pires ergueu para o teto os punhos retesos, ensaiou alguns passos no recinto estreito e passou a clamar:

- Esteves, homem ou diabo, onde estiveres, em mim ou fora de mim, corporifica-te e vem!... Estou pronto! acertemos a diferença!... Vitima ou carrasco, aparece! que meu pensamento te encon­tre e te traga!... Que as forças do nosso destino nos reúnam, enfim, corpo a corpo!...

Alguns instantes decorreram, quando fomos surpreendidos pela entrada de nova personagem na sala.

Era um homem de seus trinta e cinco anos presumíveis, que se abeirava de nós, igualmente fora do vaso físico.

Passeou no recinto esgazeado olhar, dando-nos a impressão de que não nos percebia a presença e, ofegante e contrariado, qual se estivesse ingres­sando ali, constrangidamente, deteve-se apenas na contemplação de Leonardo e Antonina, reconhecen­do-os, estarrecido e agoniado.

Clarêncío, junto de nós, informou prestimoso:

- Sob a positiva invocação de Leonardo, Es­teves, parcialmente libertado pelo Sono, comparece ao desafio. O repouso noturno favorece tais enten­dimentos, pela atração magnética mais intensivamente facilitada, quando o envoltório de matéria densa exige recuperação.

Notamos que os três protagonistas da cena que se improvisara jaziam repentinamente hipnotizados por vibrações de assombro e desespero.

Leonardo, porém, dando um salto à retaguar da, bradou:

- Agora! agora, sim !... Vieste mesmo! Vejo-te, fora de minha cabeça, vejo-te como és!... Liquidemos nossa conta... Risca-me dentre os vivos ou eu te riscarei!

- Piedade! Piedade!... - suplicava Antonina, lacrimosa.

Pires, no entanto parecia não ouvi-la, sob o olhar de Esteves que o observava com visível repugnância.

Semi-apavorado e pondo-se em guarda sacudi­do pelas próprias reminiscências o recém-chegado respondeu, agressivo:

- Conheço-te e odeio-te!... Assassino, assas­sino!...

Engalfinhar-se-iam sem dúvida, como animais, enfurecidos, mas o nosso orientador interferiu, de imediato, imobilizando-os prontamente.

Tocado pelo Ministro Esteves enxergou-nos e, surpreendido aquietou-se.

Clarêncio confiou-o à nossa vigilância e, diri­gindo-se a Leonardo em voz segura, concitou:

— Meu amigo, extirpa da mente a idéia do crime. Achas-te cansado, enfermo. Receberás a medicação de que necessita.

Num átimo, ausentou-se e regressou trazendo ao recinto dois amigos de nosso plano, os quais transportaram Leonardo, semi-inconsciente para um santuário de reajuste, em que mais tarde nos receberia a assistência.

Em seguida, nosso instrutor acomodou Esteves na poltrona singela, recomendando-lhe esperar-nos.

O novo companheiro, amedrontado, obedeceu automáticamente.

Logo após, amparando Antonina, procuramos restituí-la ao quarto particular.

Consideramos, então, que se grande fora a ven­tura da pobre senhora na véspera, naquela noite assemelhava-se, desditosa, a um trapo de sofri­mento.

Encontramos grande dificuldade para recompô-la em espírito e para religá-la à vestimenta carnal, quase inerte.

Revelava-se imensamente confrangida.

Por mais de duas horas mereceu-nos especial atenção. Somente depois de considerável esforço de Clarêncio, conseguiu refazer-se. Vimo-la acor­dar, exausta e entontecida.

Algo aliviada, Antonina acreditou-se liberta de estranho pesadelo. Ainda assim, sem saber explicar a razão, torturada e apreensiva, continuava soluçando...


Do livro "ENTRE A TERRA E O CÉU", pelo espírito André Luiz - psicografia de Chico Xavier.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

ANÁLISE MENTAL

O relógio terrestre assinalava meia-noite e três quartos, quando tornamos ao singelo domicílio de Antonina.

A casinha dormia, calma.

Acocorado a um canto, o velho Leonardo man­tinha-se na sala, pensando... pensando...

Adensamo-nos, ante a visão dele, e, reconhe­cendo-nos, ergueu-se e começou a gritar:

— Ajudai-me, por amor de Deus! Estou pre­so! preso!...

Clarêncio, bondoso, convidou-o a acomodar-se na poltrona simples e induziu-o à prece.

O velhinho, contudo, alegou total esquecimento das orações que formulara no mundo, crendo que apenas lhe serviriam as palavras decoradas, mas o orientador, elevando a voz, com o intuito evi­dente de sossegá-lo na confiança íntima, pronun­ciou comovente súplica à Divina Providência, im­plorando-lhe proteção e segurança para quem se mostrava tão desarvorado e tão infeliz.

Emocionados com aquela petição que nos re­novava igualmente as disposições interiores, obser­vamos que o avô de Antonina se aquietara, re­signado.

Clarêncio, logo após a oração, começou a apli­car-lhe forças magnéticas no campo cerebral.

O paciente revelou-se mais intensamente abatido. A cabeça pendeu-lhe sobre o peito, desgover­nada e sonolenta.

Fitando-nos de modo significativo, o Ministro ponderou:

— A corrente de força devidamente dinami­zada no passe magnético arrancá-lo-á da sombra anestesiante da amnésia. Poderemos, então, son­dar-lhe o íntimo com mais segurança. Assistido por nossos recursos, a memória dele regredirá no tem­po, informando-nos quanto à causa que o retém junto da neta, aclarando-nos, ainda, sobre prová­veis ligações que nos conduzirão à chave do socor­ro, a benefício dele mesmo.

— Mas o retrocesso das recordações poderá verificar-se de improviso? — indagou Hilário, per­plexo.

— Sem dúvida — respondeu o instrutor —, a memória pode ser comparada a placa sensível que, ao influxo da luz, guarda para sempre as imagens recolhidas pelo espírito, no curso de seus inume­ráveis aprendizados, dentro da vida. Cada existên­cia de nossa alma, em determinada expressão da forma, é uma adição de experiência, conservada em prodigioso arquivo de imagens que, em se su­perpondo umas às outras, jamais se confundem. Em obras de assistência, qual a que desejamos mo­vimentar, é preciso recorrer aos arquivos mentais, de modo a produzir certos tipos de vibração, não só para atrair a presença de companheiros ligados ao irmão sofredor que nos propomos socorrer, como também para descerrar os escaninhos da mente, nas fibras recônditas em que ela detém as suas aflições e feridas invisíveis.

— Quer dizer então que...

A frase de Hilário, porém, se lhe apagou nos lábios, porque o Ministro atalhou, completando-lhe a conceituação:

— A mente, tanto quanto o corpo físico, pode e deve sofrer intervenções para reequilibrar-se.

Mais tarde, a ciência humana evolverá em cirurgia psi­quica, tanto quanto hoje vai avançando em técnica operatória, com vistas às necessidades do veiculo de matéria carnal. No grande futuro, o médico ter­restre desentranhará um labirinto mental, com a mesma facilidade com que atualmente extrai um apêndice condenado.

Hilário arregalou os olhos, espantado feliz. E exclamou, em voz quase gritante:

— Ah! Freud, como viste a verdade!.., como detinhas a razão!...

O orientador fixou-o, paternalmente e aduziu:

— Freud Vislumbrou a verdade, mas toda ver­dade sem amor é como luz estéril e fria. Não bastará conhecer e interpretar. É indispensável sublimar e servir. O grande cientista observou as­pectos de nossa luta espiritual na senda evolutiva e catalogou os problemas da alma, ainda encarcerada nas teias da vida inferior. Assinalou a pre­sença das chagas dolorosas do ser humano, mas não lhes estendeu eficiente bálsamo curativo. Fez muito, mas não o bastante, O médico do porvir, para sanar as desarmonias do espírito, precisará mobilizar o remédio salutar da compreensão e do amor, retirando-o do próprio coração. Sem mão que ajude, a palavra erudita morre no ar.

O Ministro, contudo, calou-se, dando-nos a en­tender que o momento não comportava digressões filosóficas

Acariciou, ainda por alguns instantes, a cabeça do ancião e, em seguida, chamou-o, de manso:

— Leonardo, recorda! Volta ao Paraguai, onde adquiriste o remorso que hoje te retalha o cora­ção! A dor, quase sempre, é culpa sepultada dentro de nós... Retrocedamos ao ponto inicial de teu sofrimento!... Recorda! Recorda!...

O velhinho, diante de nosso intraduzível as­sombro, acordou de olhos transtornados.

Ergueu a fronte, mas seu rosto alterara-se de maneira sensível.

Sustentava iniludivelmente os traços funda­mentais, mas fizera-se mais jovem.

Registrando a surpreendente transfiguração, Hilário interferiu, perguntando:

— Oh! que força mágica será esta?

Nosso orientador fitou-o, sereno, e esclareceu:

— Não nos esqueçamos de que temos diante de nós o veículo espiritual, por excelência vibrátil. O corpo da alma modifica-se, profundamente, se­gundo o tipo de emoção que lhe flui do âmago. Isso, aliás, não é novidade. Na própria Terra, a máscara física altera-se na alegria ou no sofrimen­to, na simpatia ou na aversão. Em nosso plano, semelhantes transformações são mais rápidas e exteriorizam aspectos íntimos do ser, com facilida­de e segurança, porque as moléculas do perispírito giram em mais alto padrão vibratório, com movi­mentos mais intensivos que as moléculas do corpo carnal. A consciência, por fulcro anímico, expres­sa-se, desse modo, na matéria sutil com poderes plásticos mais avançados.

Clarêncio relanceou o olhar pelo recinto e acres­centou:

— Entretanto, não nos descuidemos do serviço a fazer.

Nesse ínterim, Leonardo soerguera-se.

Parecia animado de estranha energia.

O corpo, não obstante continuar obscuro e pas­toso, revelava-se desempenado.

Repentinamente refeito, vigoroso e móbil, cla­mou:

— Lola! Lola! estás aqui? Sinto-te a presen­ça... Onde te ocultas? Ouve-me! ouve-me!

Com inexprimível espanto, vimos dona Anto­nina escapar do aposento, no corpo espiritual com que a divisáramos na véspera.

Avançou ao nosso encontro, extremamente sur­preendida, e, avistando o avô transfigurado, como se fosse tangida no imo da personalidade por mis­teriosa influência, estampou súbita alteração facial, renovando-se igualmente aos nossos olhos.

As linhas do semblante modificaram-se, de ino­pino, e vimo-la realmente mais bela, todavia, me­nos serena e menos espiritualmente.

Favorecendo-nos o máximo proveito nas obser­vações, o Ministro falou em voz baixa:

— Nossa irmã exige tão somente leve auxílio magnético para lembrar-se. Basta-lhe a emotividade anormal do reencontro para cair na posição vibra­tória do passado, de vez que ainda não se encontra quitada com a Lei.

Aterrada, Antonina rojou-se de joelhos aos pés do ancião que se rejuvenescera ao influxo dos pas­ses de Clarêncio e gritou:

— Leonardo! Leonardo!

Ele, porém, irradiando no olhar ódio e pade­cimento intraduzíveis bradou:

- Enfim!... Enfim!

E prorrompeu em pranto Convulso

Estupefatos Ouvimos Clarêncío que nos infor­mava, generoso:

- Repararam? Antonina é Lola Ibarruri reen­carnada. Leonardo está vinculado a ela por laços de imenso amor. Ambos procedem de lutas enor­mes, na teia infinita do tempo. A mulher irresponsável de ontem, hoje é mãe amorosa e digna, à pro­cura da própria regeneração. Tendo abandonado outrora o marido, foi induzida a desposar um ho­mem animalizado, com quem se encontra igualmente enleada por laços do pretérito e que, em não a entendendo agora, relegou-a ao esquecimento. Rece­beu, contudo, antigos associados de destino por fi­lhos do coração, que conduz para o bem. Em contra-posição às facilidades delituosas do passado, atra­vessa atualmente aflitivos obstáculos para viver.

Simpatia incoercível inclinou-nos para aquela mulher em provas tão ríspidas.

O ensinamento que a vida ali nos ofertava era efetivamente sublime.

A voz do orientador, no entanto, era clara e segura a recomendar:
— Ajudemos. O momento determina auxiliar.


Do livro "ENTRE A TERRA E O CÉU", pelo espírito André Luiz - psicografia de Chico Xavier.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

ESCREVER NA ROCHA

Dois grandes mercadores árabes, de nomes Amir e Farid, eram muito amigos e sempre que faziam suas viagens para um mercado onde vendiam suas mercadorias, iam juntos, cada qual com sua caravana e seus escravos empregados. Numa dessas viagens, ao passarem junto a um rio caudaloso, Farid resolveu banhar-se, pois fazia muito calor. Em dado momento, distraindo-se, foi arrastado pela correnteza. Amir, vendo que seu grande amigo corria risco de vida, atirou-se às águas e, com inaudito esforço, conseguiu salvá-lo. Após esse episódio, Farid chamou um de seus escravos e mandou que ele gravasse numa rocha ali existente, uma frase que lembrasse a todos do acontecido. Ao retornarem, passaram pelo mesmo lugar, onde pararam para rápido repouso. Enquanto conversavam, tiveram uma pequena discussão e Amir alterando-se esbofeteou Farid. Este aproximou-se das margens do rio e, com uma varinha, escreveu na areia o fato. O escravo que fora encarregado de escrever na pedra o agradecimento de Farid, perguntou-lhe: - Meu senhor, quando fostes salvo, mandaste gravar aquele feito numa pedra e agora escreveis na areia o agravo recebido. Por que assim o fazeis? Farid respondeu-lhe: - Os atos de bondade, de amor e abnegação devem ser gravados na rocha para que todos aqueles que tiverem oportunidade de tomar conhecimento deles, procurem imitá-los. Ao contrário, porém, quando recebemos uma ofensa, devemos escrevê-la na areia, próxima as águas para que desapareça, levada pela maré, a fim de que ninguém tome conhecimento dela e, acima de tudo para que qualquer mágoa desapareça prontamente no nosso coração !


Desconhemos autoria

ESTUDANDO SEMPRE

Às despedidas, retomamos as excursionistas sob a nossa guarda e, em pouco tempo, achávamo­-nos, de novo, no caminho terrestre.

Da faixa de luz solar, tornamos à imersão na sombra noturna, mas o espetáculo do céu não diminuíra em beleza, porque as primeiras cores da alvorada tingiam o distanciado horizonte.

Clarêncio restituiu a companheira de Antonina ao lar, depois de afetuoso adeus. E, sem maiores delongas, demandamos o ninho doméstico de nossa amiga.

Antonina mostrava-se calada, tristonha...

Dir-se-ia teimava em permanecer, para sempre, junto do pequenino que a precedera na longa via­gem da morte. Todavia, em penetrando o estrei­to santuário familiar, dirigiu-se apressadamente ao quarto, de coração novamente atraído para os ou­tros filhinhos.

O Ministro, paternal, fê-la deitar-se e aplicou-lhe recursos magnéticos sobre os centros corticais. A mãezinha de Marcos demonstrou experimen­tar leve e doce vertigem...

Atendendo ao orientador, demoramo-nos em observação, notando que a Antonina de nossa ma­ravilhosa viagem aderira ao corpo denso, qual se fora por ele sugada, à maneira de formosa mu­lher, de forma sutil e semilúcida, repentinamente engulida por bainha de sombra. Em se justapondo ao cérebro físico, perdera a acuidade mental com que se caracterizava junto de nós. Com a fisiono­mia calma e feliz, despertou no veículo pesado...

Contudo, Antonina não mais nos viu.

Era agora simplesmente a mulher humana, nas cobertas agasalhantes do leito, acomodada à escuridão do recinto.

Lembrava-se, sim, do passeio ao Lar da Bên­ção, mas através de impressões a se esfumarem, rápidas.

Só a imagem do filhinho, tema central do seu amor, lhe persistia clara e movimentada na me­mória...

Nossa presença e todas as demais particula­ridades do vôo sublime lhe acudira à lembrança por acessórios fantásticos a se lhe perderem nos obscuros escaninhos da imaginação.

Como quem seleciona preciosidades, a conso­lada mãezinha procurava, ansiosa, nos arquivos da própria mente, todas as palavras que ouvira do filho abençoado, buscando retê-las no escrínio do coração. Por isso, das valiosas observações de Cla­rêncio, em poucos minutos não lhe restava na alma qualquer reminiscência.

Antonina movimentou-se, fêz luz e ouvimo-la pensar, vibrante: — Oh! meu Deus, que alegria! pude vê-lo perfeitamente! quero guardar a recor­dação deste sonho divino!... Marcos, Marcos, que saudades, meu filho!...

O Ministro abeirou-se dela, acariciou-lhe a ca­beça, como se a envolvesse em fluidos calmantes e a simpática senhora restabeleceu a sombra no recinto.

Abraçando a caçula que repousava ao seu lado, novamente dormiu.

— Nossa amiga não poderá guardar positivas recordações — informou Clarêncio com atenção.

— Mas, porquê? — indagou Hilário, admirado.

— Raros Espíritos estão habilitados a viver na Terra, com as visões da vida eterna. A penumbra interior é o clima que lhes é necessário. A exata lembrança para ela redundaria em saudade morta!. Como isso é lamentável! — alegou o meu companheiro, penalizado

O Ministro todavia, explicou paciente:

— Cada estágio na vida se caracteriza por finalidades especiais. O mel é saboroso néctar para a criança, mas não deve ser ministrado indis­criminadamente. Reclama dosagem para não vir a ser importuno laxativo. O contacto com o reino espiritual, enquanto nos demoramos no envoltório terrestre, não pode ser dilatado em toda a exten­são, para que nossa alma não afrouxe o interesse de lutar dignamente até o fim do corpo. Antonina lembrar-se-á de nossa excursão mas de modo vago, como quem traz no campo vivo da alma um belo quadro de esbatidos contornos. Recordar-se-á po­rém, do filhinho mais vivamente, o bastante para sentir-se reconfortada e convicta de que Marcos a espera na Vida maior. Semelhante certeza ser-lhe-á doce alimento ao coração.

O silêncio passou a dominar o recinto mas Clarêncio quebrou-o, quase de imediato convidando-nos a socorrer o velhinho que nos aguardava.

Dormitava o ancião numa velha cadeira.

— Será sono? — perguntou Hilário, mais novo que eu na vida do Além.

- Sim — Confirmou o instrutor, benevolente -, na fase em que se encontra, Leonardo subordi­na-se a todos os fenômenos da existência vulgar. Não prescinde, assim, do repouso para refazer-se.

Examinamo-lo mais detidamente.

Sem dúvida, o ancião trazia um veículo seme­lhante ao fosso, segundo os princípios organogênios que presidem à constituição do corpo espiri­tual, contudo mostrava-se tão pesado e tão denso como se ainda envergasse a túnica de carne.

Deixei a Hilário os pruridos de curiosidade que em Outro tempo, me assaltavam de inopino.

Após lhe observar o aspecto desagradável, meu colega inquiriu sobre as razões de tal obscureci­mento.

O Ministro não se fêz rogado e explicou:

— O psicossoma (*) ou o perispírito da defini­ção espírita não é idêntico de maneira absoluta em todos nós, assim como, na realidade, não existem dois corpos físicos totalmente iguais. Cada cria­tura vive num carro celular diferente, apesar das peças semelhantes, impostas pela lei das formas. No círculo de matéria densa, sofre a alma encar­nada os efeitos da herança recolhida dos pais, en­tretanto, na essência, a lei da herança funciona invariavelmente do indivíduo para ele mesmo. De­temos tão somente o que seja exclusivamente nosso ou aquilo que buscamos.

Renascemos na Terra, junto daqueles que se afinam com o nosso modo de ser, O dipsômano não adquire o hábito desre­grado dos pais, mas sim, quase sempre, ele mesmo já se confiava ao vício do álcool, antes de renas­cer. E há beberrões desencarnados que se aderem àqueles que se fazem instrumentos deles próprios.

E, imprimindo grave entono à voz, ponderou:

— A hereditariedade é dirigida por princípios de natureza espiritual. Se os filhos encontram os pais de que precisam, os pais recebem da vida os filhos que procuram.

Lembrei-me repentinamente de alguns dos grandes gênios da Humanidade, que produziram filhos monstruosos ou medíocres. Mas, vindo ao en­contro do meu pensamento, o orientador observou:

— No campo das grandes virtudes, os pais usam, por vezes, a compaixão reedificante, empe­nhando-se em tarefas de sacrifício. Temos no mundo mulheres e homens admiráveis que, consolidando qualidades superiores na própria alma, se dispõem a buscar afetos que permanecem a distância, no passado em tentativas heróicas de auxílio e rea­justamento.

E, sorrindo, acrescentou:

- Na família consangüínea ou na família hu­mana, obtemos o que buscamos quem já acertou as próprias contas com a justiça, pode confiar-se aos sublimes rasgos do amor.

Em seguida, Clarêncio deteve-se na contem­plação do velhinho que repousava e continuou co­mentando, mais particularmente com Hilário:

— Conforme a vida de nossa mente, assim vive nosso corpo espiritual. Nosso amigo entregou-se, demasiado às criações interiores do tédio, ódio, de­sencanto, aflição e condensou semelhantes forças em si mesmo, coagulando-as desse modo, no veícu­lo que lhe serve às manifestações. Daí, esse as­pecto escuro e pastoso que apresenta. Nossas obras ficam conosco. Somos herdeiros de nós mesmos.

— Mas... e se nosso Irmão trabalhasse? se depois da morte procurasse conjugar o verbo ser­vir? — inquiriu meu colega, preocupado.

Ah! indiscutivelmente o trabalho renova qualquer posição mental. Gerando novos motivos de elevação e novos fatores de auxílio, o serviço estabelece caminhos outros que realmente funcio­nam como recursos de libertação. Por isso mesmo, o constante apelo do Senhor à ação e à fraternidade se estende, junto de nós, diàriamente através de mil modos... Todavia, quando não nos devo­tamos ao trabalho, enquanto nos demoramos na vestimenta terrestre, mais difícil se faz para nós a superação dos obstáculos mentais, porque a in­dolência trazida do mundo é tóxico cristalizante de nossas idéias, fixando-as, por vezes, durante tempo indefinível. Se pretendemos possuir um psicosso­ma sutilizado capaz de reter a luz dos nossos me­lhores ideais, é imprescindível descondensá-lo pela sublimação incessante de nossa mente, que precisará, então, centralizar-se no esforço infatigável do bem. É para esse fim que o Pai Celestial nos concede a dor e a luta, a provação e o sofrimen­to, únicos elementos reparadores, suscetíveis de produzir em nós o reajuste necessário, quando nos pomos em desacordo com a Lei.

Lá fora, porém, as aves matutinas anunciavam o novo dia...

A tênue claridade da manhã penetrava o re­cinto.

Clarêncio lembrou que para socorrer o ancião ensandecido não dispensaríamos algum trabalho de análise da mente, e, porque semelhante servi­ço demandaria talvez a cooperação de companhei­ros encarnados, que não deviam ser incomodados na paisagem diurna, o Ministro convocou-nos à retirada.

O prosseguimento da tarefa assistencial, desse modo, foi marcado para a noite seguinte.



Do livro "ENTRE A TERRA E O CÉU", pelo espírito André Luiz - psicografia de Chico Xavier.
(*) Do grego: psyké, alma, espírito, e soma, corpo. — (Nota da Editora.)

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

AMBIÇÃO E ÉTICA

O consultor de empresas e conferencista Stephen Kanitz escreveu um artigo intitulado ambição e ética, que foi publicado na revista Veja, do qual extraímos algumas reflexões.

Kanitz define a ambição como sendo tudo o que você pretende fazer na vida. São seus objetivos, seus sonhos, suas resoluções.

As pessoas costumam ter como ambição ganhar muito dinheiro, casar com uma moça ou um moço bonito ou viajar pelo mundo afora.

A mais pobre das ambições é querer ganhar muito dinheiro, porque dinheiro por si só não é objetivo: é um meio para alcançar sua verdadeira ambição, como, por exemplo, viajar pelo mundo.

Já a ética são os limites que você se impõe na busca de sua ambição.

É tudo que você não quer fazer na luta para conseguir realizar seus objetivos. Como não roubar, não mentir ou pisar nos outros para atingir sua ambição, ou seja, é o conjunto de princípios morais que se devem observar no exercício de uma profissão.

A maioria dos pais se preocupa bastante quando os filhos não mostram ambição, mas nem todos se preocupam quando os filhos quebram a ética.

Se o filho colou na prova, não importa, desde que tenha passado de ano, o objetivo maior.

Algumas escolas estão ensinando a nossos filhos que ética é ajudar os outros. Isso, porém, não é ética, é ambição.

Ajudar os outros deveria ser um objetivo de vida, a ambição de todos, ou pelo menos da maioria. Aprendemos a não falar em sala de aula, a não perturbar a classe, mas pouco sobre ética.

O problema do mundo é que normalmente decidimos nossa ambição antes de nossa ética, quando o certo seria o contrário.

E por quê? Por que dependendo da ambição, torna-se difícil impor uma ética que frustrará nossos objetivos.

Quando percebemos que não conseguiremos alcançar nossos objetivos, a tendência é reduzir o rigor ético, e não reduzir a ambição.

O mundo conheceu a história de uma estagiária na casa branca, que colocou a ambição na frente da ética e tirou o partido democrata do poder, numa eleição praticamente ganha, devido ao enorme sucesso da economia na sua gestão.

Não há nada de errado em ser ambicioso, desde que se defina cedo o comportamento ético.

Quando a ambição passa por cima da ética como um rolo compressor, o resultado é o que podemos acompanhar nos noticiários que ocupam as manchetes em nosso país.

Assim, para mudar definitivamente essa situação, é preciso estabelecer um limite para nossa ambição não nos permitindo, em hipótese alguma, violar a ética para satisfação pessoal, em detrimento do coletivo.

Conforme ensinou Jesus, "seja o seu falar: sim, sim, não, não". Seja em que situação for.

E se estiver difícil definir se estamos agindo com ética ou não, basta imaginar como julgaríamos esse ato, se praticado por outra pessoa.

Se o condenamos é porque não é ético. Se o aprovamos e julgamos justo, então podemos seguir em frente.

***

Defina sua ética quanto antes possível. A ambição não pode antecedê-la, é ela que tem de preceder à sua ambição.




Texto da Equipe de Redação do Momento Espírita, baseado em artigo de Stephen Kanitz publicado na revista Veja do dia 24 de janeiro de 2001.

NOVOS APONTAMENTOS

Hilário, aderindo à renovação da palestra, in­dagou da irmã Blandina se ela era a dirigente do parque em que nos achávamos, ao que ela infor­mou, com humildade:

— Não me atribua tamanho crédito. Tenho tarefas variadas aqui e alhures, entretanto, sou mera servidora. O nosso educandário guarda mais de duas mil crianças, mas, sob os meus cuidados, permanecem apenas doze. Somos um grande con­junto de lares, nos quais muitas almas femininas se reajustam para a venerável missão da mater­nidade e conosco multidões de meninos encontram abrigo para o desenvolvimento que lhes é neces­sário, salientando-se que quase todos se destinam ao retorno à Terra para a reintegração no apren­dizado que lhes compete.

— E a direção central? — inquiriu meu co­lega, esmiuçador.

— Não reside aqui. O parque é uma das vá­rias dependências de vasto estabelecimento de as­sistência e educação, do qual somos hoje tutelados. No fundo, nossa casa é uma larga escola, dotada com todos os recursos indispensáveis ao nosso apro­veitamento. Os melhores processos de habilitação espiritual funcionam conosco, em benefício dos que vão renascer na carne e dos que se dirigirão, mais tarde, às Esferas Superiores.

- Mas possuem aqui até mesmo os cursos primários de alfabetização?

— Não estranhem. Partilho com Blandina o estudo das leis divinas para renovar-me em espírito, com vistas ao grande futuro, mas o amor que ainda trago por velhos companheiros de luta hu­mana constrange-me a larga demora, em serviço de cooperação, na antiga casa de fé religiosa a que me afeiçoei.

— Aliás — ponderou o Ministro, sensato o auxílio divino é como o Sol, irradiando-se para todos. As instituições e as almas que se voltam para o Pai Celestial recebem o suprimento de re­cursos de que necessitam, segundo as possibilida­des de recepção que demonstrem.

Interessado, porém, nos apontamentos que sur­giam, cada vez mais valiosos, Hilário indagou:

— Em que base se formará o processo de au­xílio nas igrejas? Com o impedimento de nossa comunicação direta, como será possível cooperar em favor dos nossos irmãos católicos romanos?

— Muito simplesmente — esclareceu Mariana, prestimosa —, o culto da oração é o meio mais seguro para a nossa influência. A mente que se coloca em prece estabelece um fio de intercâmbio natural conosco...

— Mas não de maneira ostensiva — alegou o nosso companheiro, estudioso.

— Pelo pensamento — explicou a interlocuto­ra, respeitável. — A intuição beneficia em toda parte, e, quanto mais alto é o teor de qualidades nobres na criatura, mais ampla é a zona lúcida de que se serve para registrar o socorro espiritual. O culto público, indiscutivelmente, qual vem sendo levado a efeito, nos tempos modernos, não favo­rece o contacto das forças superiores com a mente popular. Os interesses rasteiros, conduzidos à igre­ja, constituem sólido entrave contra o auxílio celeste. E a preocupação de riqueza e pompa, quase sempre mantida pelo sacerdócio nos ofícios, inuti­liza por vezes os nossos melhores esforços, por­que, enquanto a atenção da alma se prende a exterioridades, as forças contrárias ao bem e à luz encontram facilidades positivas para a cultura do fanatismo e da discórdia. Ainda assim, supe­rando tais obstáculos, é sempre possível algo fazer em benefício do próximo.

— Durante a missa, por exemplo prosse­guiu Hilário, observador —, é viável o seu trabalho de cooperação?

Mariana fixou uma expressão facial de bom humor e aduziu:

— Somos grandes falanges de aprendizes da fraternidade em ação. Por mais desagradáveis se nos mostrem os quadros de luta, a nossa obrigação é servir.

Finda ligeira pausa, continuou:

- Quando a missa obedece a pura convenção social, funcionando como exibição de vaidade ou poder, a nossa colaboração resulta invariàvelmente nula.

E, sorrindo:

- Que teríamos a fazer num ato bajulatórío, em que os devotos da fortuna material ou da perversidade incensam a desregrada conduta de pes­soas inescrupulosas? Há missas solenes de consa­gração a políticos astuciosos e a magnatas do ouro que, em verdade, são reais sacrilégios, em nome do Cristo. Por outro lado, há missas de almas que constituem escárnio à dor dos que foram recolhi­dos pela morte, quais as que são mandadas cele­brar por parentes ambiciosos que, por vezes, até mesmo se alegram com a ausência do morto, ávi­dos que se mostram de lhes pilharem os despojos, na corrida à testamentos e cartórios. Essas mis­sas fortemente adubadas a dinheiro estão para eles tão frias, como os túmulos em que se lhes asilou a carne desfigurada. Mas, se o ato religioso é simples, partilhado por mentes e corações since­ros, inclinados à caridade evangélica e centraliza­dos na luz da oração, com os melhores sentimentos que possuem, o culto se reveste de grande valor, pelas vibrações de paz e carinho que arremessa na direção daquele a quem é endereçado. Frequen­temente, as missas humildes, realizadas aos pri­meiros cânticos da manhã, são as mais favoráveis ao nosso concurso. Podemos, com mais segurança, articular as possibilidades ao nosso alcance e am­bientá-las a benefício daqueles que esperam de nós o amparo necessário.

Hilário pensou alguns instantes, valendo-se do intervalo que surgira na conversação e obtemperou:

— Possuimos nas igrejas a questão do patro­cínio. Imaginemos que determinado templo foi er­guido à memória de Gerardo Majela. Isso expressa uma obrigação para o grande místico europeu?

— Certamente não se trata de uma obrigação escravizante, mas de um serviço que lhe honra o nome e que merecerá dele certo reconhecimento mesclado de responsabilidade. Devemos reconhe­cer, contudo, que o trabalho do bem, qualquer que ele seja, permanece ligado a Jesus. No entanto, se algum servo do Senhor está ligado a obra por fazer, tanto quanto lhe seja possível desdobrar-se-á para enriquecê-la de bênçãos.

— Mas... e na hipótese de algum santuário surgir, dedicado a suposto herói da virtude? Figuremos alguém da Terra sendo conduzido ao altar por imposição da autoridade humana, sem mérito bastante, à frente do Senhor... Os crentes encar­nados atribuir-lhe-iam poder de que não consegui­ria dispor... Em que situação estaria o templo que lhe fosse consagrado?

Mariana registrou a pergunta, cortesmente, e explicou:

— Numa contingência dessas, mensageiros de Jesus responsabilizar-se-iam pela instituição, dis­tribuindo aí os benefícios adequados aos mereci­mentos e necessidades de cada um.

— E o tipo de assistência? é de renovação espiritual ou de mero socorro aos crentes encarnados?

— Ah! — comentou Mariana, sincera — o trabalho é complexo e divide-se em múltiplos setores. Não está limitado à esfera da experiência física. Inumeráveis são as almas que, desligadas do corpo, recorrem aos altares, implorando escla­recimento... Outras, depois da morte, confiam-se a desequilibradas emoções, invocando a proteção dos Espíritos santificados... É preciso corrigir aqui e ajudar além... Agora, devemos injetar um pensamento reconstrutivo nessa ou naquela men­te extraviada, depois, é imprescindível harmonizar circunstâncias, em favor desse ou daquele necessitado... A maioria das pessoas aceita a religião, mas não se preocupa em praticá-la. Daí nasce o terrível aumento das aflições e dos enigmas.

A lógica de Mariana encantava-nos.

Hilário, porém, prosseguiu indagando, perscru­tador.

— Mas, apesar de consciente da verdade que a separação do veículo físico nos impõe, acredita a irmã que a organização católica é suficiente para conduzir o mundo moderno?

Ela sorriu com tristeza e redargüiu:

— Meu amigo, entre cooperar e aprovar, há sensível diferença. A sociedade ajuda a criança sem infantilizar-se. As igrejas nascidas do Cristia­nismo caminham para grande renovação. O progresso assim exige. As idéias de céu e inferno e os excessos de natureza política, na hierarquia eclesiástica, estabeleceram grandes perturbações para a alma popular. Entretanto, cabe-nos considerar as religiões que envelhecem como frutos fortemente amadurecidos. A polpa alterada pelo tempo deve ser colocada à margem, contudo, as sementes são indispensáveis à produção do futuro. Auxiliemos as igrejas antigas, em vez de acusá­-las. Todos somos filhos do Pai Celestial e onde houver o mínimo gérmen de Cristianismo aí surgirão recursos de recuperação do homem e da co­letividade para o Cristo, Nosso Senhor.

A conversação era fascinante e as perguntas pareciam brilhar ainda, nos olhos de Hilário, maravilhado tanto quanto nós, ante as elucidações que recebia, mas a hora esgotara-se.

Um sinal de Clarêncio fêz-nos sentir que ha­víamos alcançado o momento da volta.

Do livro "ENTRE A TERRA E O CÉU", pelo espírito André Luiz - psicografia de Chico Xavier.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

A CARIDADE SEGUNDO O APÓSTOLO PAULO


Ainda que eu fale todas as línguas dos homens e dos anjos, se eu não tiver amor, serei apenas um bronze que ressoa, um sino que retine. 
Ainda que eu possua o dom das profecias, saiba todas as ciências, ainda que eu possua um tamanho grau de fé que me permita remover montanhas, se eu não tiver amor eu não nada serei. 
Ainda que eu distribua os meus bens entre os pobres, e deixe então o fogo consumir meu corpo, nenhum proveito tiro, se eu não tiver amor. 
O AMOR, É PACIENTE, O AMOR É BONDOSO, NÃO É NADA EXIGENTE, ARROGANTE, ORGULHOSO, JAMAIS É DESCORTÊS, NUNCA INTERESSEIRO. O AMOR NÃO SE IRRITA, NÃO GUARDA RANCOR NO CORAÇÃO, TUDO DESCULPA, TUDO CRÊ, TUDO ESPERA, TUDO SUPORTA. O AMOR NÃO TERÁ FIM. AS PROFECIAS, SIM.
As línguas se calarão. As Ciências tem seu termo. Imperfeito, é o nosso conhecimento e também as profecias.
MAS QUANDO VIER O QUE É PERFEITO, O QUE É IMPERFEITO DESAPARECERÁ. Quando eu era criança, brincava como criança, pensava como criança, como criança raciocinava. Homem feito me despojei dos atributos de criança.
POR ENQUANTO ENXERGAMOS DEUS ATRAVÉS DE UM ESPELHO. MAS UM DIA TEREMOS A VISÃO DE DEUS DE FACE A FACE. POR ENQUANTO CONHEÇO APENAS UMA PARTE, MAS LOGO O CONHECEREI, COMO SOU POR ELE CONHECIDO. TEMOS AGORA A FÉ, A ESPERANÇA E O AMOR! MAS DOS TRÊS, O MAIS EXCELENTE É O AMOR.