sábado, 14 de junho de 2014

O EFEITO DA CÓLERA

Um velho judeu, de alma torturada por pesados remorsos, chegou, certo dia, aos pés de Jesus, e confessou-lhe estranhos pecados.

Valendo-se da autoridade que detinha no passado, havia despojado vários amigos de suas terras e bens, arremessando-os à ruína total e reduzindo-lhes as famílias a doloroso cativeiro. Com maldade premeditada, semeara em muitos corações o desespero, a aflição e a morte.

Achava-se, desse modo, enfermo, aflito e perturbado... Médicos não lhe solucionavam os problemas, cujas raízes se perdiam nos profundos labirintos da consciência dilacerada.

O Mestre Divino, porém, ali mesmo, na casa de Simão Pedro, onde se encontrava, orou pelo doente e, em seguida, lhe disse:

- Vai em paz e não peques mais.

O ancião notou que uma onda de vida nova lhe penetrara o corpo, sentiu-se curado, e saiu, rendendo graças a Deus.

Parecia plenamente feliz, quando, ao atravessar a extensa fila dos sofredores que esperavam pelo Cristo, um pobre mendigo, sem querer, pisou-Ihe num dos calos que trazia nos pés.

O enfermo restaurado soltou um grito terrível e atacou o mendigo a bengaladas.

Estabeleceu-se grande tumulto.

Jesus veio à rua apaziguar os ânimos.

Contemplando a vítima em sangue, abeirou-se do ofensor e falou:

- Depois de receberes o perdão, em nome de Deus, para tantas faltas, não pudeste desculpar a ligeira precipitação de um companheiro mais desventurado que tu?

O velho judeu, agora muito pálido, pôs as mãos sobre o peito e bradou para o Cristo:

- Mestre, socorre-me!... Sinto-me desfalecer de novo... Que será isto?

Mas, Jesus apenas respondeu, muito triste:

- Isso, meu irmão, é o ódio e a cólera que outra vez chamaste ao próprio coração.

E, ainda hoje, isso acontece a muitos que, por falta de paciência e de amor, adquirem amargura, perturbação e enfermidade.


Francisco Cândido Xavier. Pai Nosso. Pelo Espírito Meimei. FEB.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

E OLHAI POR VÓS

"E olhai por vós, não aconteça que os vossos corações se carreguem de glutonaria, de embriaguez e dos cuidados desta vida, e venha sobre vós de improviso aquele dia." - Jesus. (LUCAS, 21:34.)


Em geral, o homem se interessa por tudo quanto diga respeito ao bem-estar imediato da existência física, descuidando-se da vida espiritual, a sobrecarregar sentimentos de vícios e inquietações de toda sorte. Enquanto lhe sobra tempo para comprar aflições no vasto noticiário dos planos inferiores da atividade terrena, nunca encontra oportunidade para escassos momentos de meditação elevada. Fixa com interesse as ondas destruidoras de ódio e treva que assolam nações, mas não vê, comumente, as sombras que o invadem. Vasculha os males do vizinho e distrai-se dos que lhe são próprios.

Não cuida senão de alimentar convenientemente o veículo físico, mergulhando-se no mar de fantasias ou encarcerando-se em laços terríveis de dor, que ele próprio cria, ao longo do caminho.

Depois de plasmar escuros fantasmas e de nutrir os próprios verdugos, clama, desesperado, por Jesus e seus mensageiros.

O Mestre, porém, não se descuida em tempo algum e, desde muito, recomendou vele cada um por si, na direção da espiritualidade superior.

Sabia o Senhor quanto é amargo o sofrimento de improviso e não nos faltou com o roteiro, antecedendo-nos a solicitação, há muitos séculos.

Retire-se cada um dos excessos na satisfação egoística, fuja ao relaxamento do dever, alije as inquietações mesquinhas - e estará preparado à sublime transformação.

Em verdade, a Terra não viverá indefinidamente, sem contas; contudo, cada aprendiz do Evangelho deve compreender que o instante da morte do corpo físico é dia de juízo no mundo de cada homem.





Francisco Cândido  Xavier. Vinha de Luz. Pelo Espírito Emmanuel. 14.ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1996. Capítulo 23.

Glutonaria = comer demais, glutão.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

NO MÊS DOS NAMORADOS

Dia 12 de Junho é o dia dos namorados. Já pela aproximação deste dia, ficamos mais apaixonados, mais sensíveis as necessidades de afeto,... Neste dia os casais se buscam com mais carinho, com o desejo mais forte de estarem juntos. É um clima que fica no ar. Um clima de amor, de romantismo,... Os casais trocam presentes, saem para passear juntos, vivem momentos de amor intenso, fazem e refazem juras de amor eterno, de fidelidade perene, entre outras mil. Sonham juntos, viajam no mundo da imaginação sobreexcitada pelos sentimentos afetivos aflorados, extremamente aflorados.

Neste dia, para milhares de casais de namorados, tudo reflete amor. Poderíamos dizer que o amor está no ar. Mas, nem todos compartilham desta situação aprazível neste dia. Assim como para quem esta acompanhado, este dia se torna maravilhoso, para quem está sozinho, principalmente se já teve alguém a quem muito amou, esta data significa saudade e sofrimento, recordação e melancolia.

Para uns é só felicidade, e haverá maior felicidade que a de compartilhar a vida com o ser amado ? Para outros é só tristeza, e haverá maior tristeza que a de não estar mais junto de alguém a quem amamos e que também nos amou?

Julgamos importante refletir, neste mês dos namorados, sobre a importância do amor em nossas vidas, sobre a responsabilidade que temos para com aqueles que amamos, sobre o compromisso que assumimos num relacionamento afetivo.

Se estamos unidos a alguém, agradeçamos a Deus, e nos esforcemos por ser dignos desta alegria, desta felicidade, que nem todos têm na Terra. Se estamos temporariamente sozinhos, não nos aflijamos em demasia, porque a saudade ou a carência de afeto é uma prova necessária para que aprendamos a valorizar o amor, assim como a fome nos ensina a valorizar o alimento, assim também como o frio nos ensina a valorizar o agasalho.

Quem ama, inquieta-se pela felicidade do ser amado. E realizar felicidade de quem amamos é muito mais que oferecer-lhe lindos e preciosos presentes. Além de doar do que temos, devemos doar do que somos, além das jóias preciosas devemos doar a manifestação dos tesouros de nosso afeto, das riquezas do coração, do ouro do amor puro, do diamante da fidelidade, das pérolas da sinceridade.

O amor também há que ser sereno e brando, para ser constante. Como um rio tranqüilo que caminha seguro em direção ao mar ou como uma chuva fina que fertiliza o solo sem destruir.

Como é bom estar enamorado! Como é bom ser amado e como é maravilhoso estar amando! Todavia, não convertamos o fogo de nosso amor no incêndio da paixão avassaladora.

O namoro, além do mais é o começo de um relacionamento, que pode perdurar ou não, e se perdurar deverá coroar-se de bênçãos no matrimônio, através do qual, formamos a família, recebemos nossos filhos, edificamos nossos lares,...

Caros amigos leitores, a todos desejamos muita felicidade no amor. Que nos inspiremos mais uma vez em Jesus, nosso Mestre maior, em todas as situações. Foi ele quem nos ensinou: "Amai-vos uns aos outros como eu vos amei." E cremos, sinceramente, isto também vale para o compromisso afetivo, seja ela no
namoro, no noivado ou no casamento, na Terra e no mais além.

Gilberto Costa Valle

quarta-feira, 11 de junho de 2014

TALVEZ HOJE

Talvez hoje:
Surgirá quem procure ditar-lhe o que você precisa fazer; entretanto, embora agradecendo as elogiáveis intenções de quem lhe oferece pontos de vista ouça, antes de tudo, a sua própria consciência quanto ao dever que lhe cabe; 


é possível apareça algum coração amigo impondo-lhe quadros de pessimismo e perturbação, relativamente às dificuldades do mundo; compadecendo-se, porém da criatura que se entrega ao derrotismo e ao desânimo, você observará a renovação para o bem que a Sabedoria Divina promove em toda parte;

é provável que essa ou aquela pessoa queira impor a você idéias de fadiga e doenças; mas conquanto a sua gratidão aos que lhe desejem bem-estar, você prosseguirá trabalhando e servindo ao alcance de suas forças;

possivelmente, notícias menos agradáveis venham a suscitar-lhe inquietações e traçar-lhe problemas; no entanto, você conservará a própria paz e não se desligará das suas orações e pensamentos de otimismo e esperança.

Talvez hoje tudo pareça contra você, mas você prosseguirá compreendendo e agindo, em apoio do bem, guardando a certeza de que Deus está conosco e de que amanhã será outro dia.



Francisco Cândido Xavier. Respostas da Vida. Pelo Espírito André Luiz. IDEAL. Capítulo 25.

terça-feira, 10 de junho de 2014

UMA HISTÓRIA DRAMÁTICA

Senhor Jesus,

Venho a ti hoje com o sentimento tocado por uma dor profunda, vivida por uma jovem mulher.

Há pouco dias, uma garota passou por nossa Casa Espírita, implorando que alguém lhe ouvisse o drama vivido.

Eu era o único servidor disponível no momento, e me prontifiquei a escutá-la, já que me parecia muito ferida na emoção.

Depois de procurar algumas amigas e outras orientações religiosas, resolveu entrar em nosso Centro, como último local onde pudesse extravasar seu sofrimento.

No diálogo fraterno, disse chorando que se decidira por fazer um aborto. Dois meses atrás, seu lar fora assaltado, e um dos ladrões a violentara, engravidando-a.

Assim que soube da gravidez, tomou-se de horror pelo próprio corpo, principalmente pelo bebê que ganhava vida em seu interior.

Confusa, afirmou que nem sabia por que entrara em nosso grupo espírita, até porque já estava decidida. Eliminar o feto era a única forma de não permitir que um monstro gerasse um ser por seu intermédio.

Lembro-me, Senhor, que a jovem citara a reportagem de uma revista feminina, que orientava sobre a prática do aborto por estupro. OCódigo Penal Brasileiro considera legal essa decisão, da mesma forma que o praticado quando está em risco a vida da gestante.

De imediato, recordei-me dos livros espíritas que contam histórias de grandes mulheres que sentiam muita afeição por crianças, mas traziam grandes dívidas morais com elas. Algumas não puderam acariciar um filhinho nos braços, porque precisaram reeducar-se no amor de mãe, consoante os débitos contraídos no passado.

Mestre querido, minha dor cresceu quando notei que essa moça fazia perguntas, mas intimamente já havia obtido as respostas que desejava, vindas de tantas estudiosas que, movidas por boa vontade, querem ver a mulher respeitada na sociedade dos homens, e não aceitam uma violência como essa contra o ser feminino.

Sofri porque sei o valor moral dessas grandes defensoras da igualdade dos direitos para ambos os sexos. O drama maior é ter a certeza, Senhor, de que essas mesmas mulheres ainda não incluíram em suas pautas de estudo o conhecimento da realidade espiritual, envolvidas aí todas as implicações advindas da reencarnação e dos compromissos trazidos de outras vidas.

Sei que para tantas o tema está fora de cogitação, mas Tu mesmo nos orientaste que o Pai não precisa da crença das criaturas para que as Leis Naturais atuem com rigor e precisão, preservadas as suaves concessões da Misericórdia Divina.

Venho a ti, Amigo, para refletirmos juntos sobre como agir nesse momento tão grave. Como informar à vítima que sem a permissão de Deus nada acontece; que se uma tragédia transformou-a hoje em agredida, em que página de seu pretérito vamos encontrá-la como agressora, elaborando a causa geradora do débito!?

É difícil raciocinar em momento de tão intensa mágoa, sobretudo quando tantas almas estão envolvidas. O estuprador, condicionado pela emoção primária da violência; o Espírito reencarnante, que também se encontra em resgate de pesadas dívidas, por estar no centro do drama; a mãe, de quem depende a decisão final; os pais, que via de regra sofrem igualmente as dores de todo o processo; enfim, todos que se encontram afetivamente vinculados aos personagens principais.

Inserido diretamente no contexto, vi-me convidado a deixar-lhe a orientação espírita, que mostra a vida maior com toda sua pujança e grandeza, a nos lembrar que Deus se compadece de todos os que sofrem e dos que fazem sofrer, amando-os indistintamente.

Ó, Senhor, se soubéssemos um pouco mais da presença do Onipotente em nossas vidas, quantas tristezas poderíamos superar com equilíbrio e serenidade. Teríamos convicção, por exemplo, de que assim que cometemos um erro grave, abrindo campo para futuros sofrimentos, recebemos ao mesmo tempo incontáveis oportunidades de reajuste, não através da dor, mas pela grandeza do amor, que é capaz de nos fazer resgatar o débito sem precisar que passemos pelo mesmo mal causado a outrem.

A noção correta das normas do Regente Supremo do Universo nos dá certeza de que lesões terríveis como a do estupro poderiam ter sido evitadas, com o despertamento anterior de quem está em dívida. Entre a ferida aberta da dor imediata e o discernimento consolador da explicação espírita, rogo por que um dia a segunda opção seja a mais aceita.

Mas como dizer isso a quem está com a emoção em pedaços? Peço-te, portanto, Irmão, que nos ensines a ampliar os efeitos do amor em nosso próprio ser. Quem sabe, assim, sintamos menos dificuldades para orientar alguém, já que esse sentimento consegue falar por si, ao consolar em silêncio.

Diante das diretrizes materialistas que ainda regem o mundo, deixe-nos rogar-te por compreensão. Compadece-te dessa mulher que chora, mas sobretudo do Espírito reencarnante que aguarda uma decisão.

Despede-nos em tua profunda paz, e roga a Deus pela Humanidade, para que nossos corações cheios de máculas obscuras se transmutem em páginas vivas da tua mensagem, a fim de podermos consolar com mais compaixão os que estão sofrendo tanto.

Assim seja!



Carlos Augusto Abranches. Reformador, junho de 1996.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

OBEDIÊNCIA E RESIGNAÇÃO

A doutrina de Jesus ensina, em todos os seus pontos, a obediência e a resignação, duas virtudes companheiras da doçura e muito ativas, se bem que os homens erradamente as confundam com a negação do sentimento e da vontade. A obediência é o consentimento da razão; a resignação é o consentimento do coração, forças ativas ambas, porquanto carregam o fardo das provações que a revolta insensata deixa cair. O pusilânime não pode ser resignado, do mesmo modo que o orgulhoso e o egoísta não podem ser obedientes. Jesus foi a encarnação dessas virtudes que a antigüidade material desprezava. Ele veio no momento em que a sociedade romana perecia nos desfalecimentos da corrupção. Veio fazer que, no seio da Humanidade deprimida, brilhassem os triunfos do sacrifico e da renúncia carnal.

Cada época é marcada, assim, com o cunho da virtude ou do vício que a tem de salvar ou perder. A virtude da vossa geração é a atividade intelectual; seu vicio é a indiferença moral. Digo, apenas, atividade, porque o gênio se eleva de repente e descobre, por si só, horizontes que a multidão somente mais tarde verá, enquanto que a atividade é a reunião dos esforços de todos para atingir um fim menos brilhante, mas que prova a elevação intelectual de uma época. Submetei-vos à impulsão que vimos dar aos vossos espíritos; obedecei à grande lei do progresso, que é a palavra da vossa geração. Ai do espírito preguiçoso, ai daquele que cerra o seu entendimento! Ai dele! porquanto nós, que somos os guias da Humanidade em marcha, lhe aplicaremos o látego e lhe submeteremos a vontade rebelde, por meio da dupla ação do freio e da espora. Toda resistência orgulhosa terá de, cedo ou tarde, ser vencida. Bem-aventurados, no entanto, os que são brandos, pois prestarão dócil ouvido aos ensinos.

Lázaro. (Paris, 1863.)



ALLAN  KARDEC. O Evangelho Segundo o Espiritismo. FEB. 

Pusilânime: Covarde
Látego: Açoite

domingo, 8 de junho de 2014

JESUS E OS AMIGOS

"Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a vida pelos seus amigos." - Jesus. (JOÃO, capítulo 15, versículo 13.)

Na localização histórica do Cristo, impressiona-nos a realidade de sua imensa afeição pela Humanidade.

Pelos homens, fez tudo o que era possível em renúncia e dedicação.

Seus atos foram celebrados em assembléias de confraternização e de amor. A primeira manifestação de seu apostolado verificou-se na festa jubilosa de um lar. Fez companhia aos publicanos, sentiu sede da perfeita compreensão de seus discípulos. Era amigo fiel dos necessitados que se socorriam de suas virtudes imortais. Através das lições evangélicas, nota-se-Lhe o esforço para ser entendido em sua infinita capacidade de amar. A última ceia representa uma paisagem completa de afetividade integral. Lava os pés aos discípulos, ora pela felicidade de cada um...

Entretanto, ao primeiro embate com as forças destruidoras, experimenta o Mestre o supremo abandono. Em vão, seus olhos procuram a multidão dos afeiçoados, beneficiados e seguidores.

Os leprosos e cegos, curados por suas mãos, haviam desaparecido.

Judas entregou-o com um beijo.

Simão, que lhe gozara a convivência doméstica, negou-o três vezes.

João e Tiago dormiram no Horto.

Os demais preferiram estacionar em acordos apressados com as acusações injustas. Mesmo depois da Ressurreição, Tomé exigiu-lhe sinais.

Quando estiveres na "porta estreita", dilatando as conquistas da vida eterna, irás também só. Não aguardes teus amigos. Não te compreenderiam; no entanto, não deixes de amá-los. São crianças. E toda criança teme e exige muito.



Francisco CândidoXavier. Caminho, Verdade e Vida. Pelo Espírito Emmanuel. 28.ed. Brasília: FEB, 2009. Capítulo 86.