sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

A POBREZA FELIZ

Quem se empobrece de ambições inferiores, adquire a luz que nasce da sede da perfeição espiritual. 

Quem se empobrece de orgulho, encontra a fonte oculta da humildade vitoriosa.

Quem se empobrece de exigências da vida física, recebe os tesouros inapreciáveis da alma.

Quem se empobrece de aflições inúteis, em torno das posses efêmeras da Terra, surpreende a riqueza da paz em si mesmo.

Quem se empobrece da vaidade, amealha as bençãos do serviço.

Quem se empobrece de ignorância, ilumina-se com a chama da sabedoria.

Não vale amontoar ilusões que nos enganam somente no transcurso de um dia.

Não vale sermos ricos de mentira, no dia de hoje, para sermos indigentes da verdade, no dia de amanhã.

Ser grande, à frente dos homens, é sempre fácil. A astúcia consegue semelhante fantasia sem qualquer obstáculo. Mas ser pequenino, diante das criaturas, para servirmos realmente aos interesses do Senhor, junto da Humanidade, é trabalho de raros.

Bem aventurada será sempre a pobreza que sabe se enriquecer de luz para a imortalidade, porque o rico ocioso da Terra é o indigente da Vida Mais Alta e o pobre esclarecido do mundo é o espírito enobrecido das Esferas Superiores, que será aproveitado na extensão da Obra de Deus.

Chico Xavier

EM TAREFA DE SOCORRO

Na noite do dia seguinte, fomos inesperada­mente visitados por Odila, que nos pedia socorro.
A preocupada amiga, agora ciente do drama escuro que se desenrolara no passado próximo para melhor entender as inquietudes do presente, com­preendia as necessidades de Amaro e Júlio, aos quais amava por esposo e filho do coração, e ro­gava assistência para Zulmira, novamente acamada.
Atendendo a apelos de Evelina, tornara ao ambiente doméstico para soerguer o bom ânimo daquela que a sucedera na direção do lar, e vol­tara, aflita.
Arrojara-se Zulmira a profundo abatimento.
Recusava remédio e alimentação.
Enfraquecia assustadoramente.
Sabia agora que a permanência dela no mundo e na carne se revestia de excepcional importância para o seu grupo familiar e, atenta a isso, conti­nuava intercedendo.
A rápida informação da mensageira impres­sionava e comovia pelo tom de amorosa aflição em que era vazada.
Não nos delongamos na resposta.
Era mais de meia-noite, na cidade, quando atra­vessamos a porta acolhedora da casa do ferroviário que, desde muito, constituía para nós valioso ponto de ação.
A dona da casa, de pensamento fixo nas der­radeiras cenas da morte do pequenino, jazia no leito em prostração deplorável.
Emagrecera de modo alarmante.
Fundas olheiras roxas contrastavam com a acentuada palidez do rosto desfigurado.
Recaíra na introversão em que a conhecêra­mos. Rememorava o afogamento do pequeno en­teado e, longe de saber que o retivera nos braços como filho abençoado de sua ternura, sentia-se na condição de ré infortunada no banco da justiça.
Decerto — pensava, agoniada —, sofria a pu­nição divina. Aquela morte do pequeno, quando tudo fazia crer que ele cresceria para a ventura do lar, correspondendo-lhe à expectativa, era dolorosa pena imposta ao seu maternal coração. Ah! devia ter sido pronunciada perante os juizes da Sabedoria Celeste. No mundo, ninguém lhe conhe­cia o remorso de guardiã invigilante e cruel, mas fora sem dúvida identificada pelos tribunais de mil olhos do Direito Incorruptível. Não amparara convenientemente o filhinho de Odila, relegando-o a intencional abandono... Agora, perdia inexplicavelmente o rebento que lhe definia a esperança no grande futuro. Valeria erguer-se e disputar aquilo que para ela representava a dor de viver? Reconhecia-se esmagada. O complexo de culpa re­tomara-lhe o cérebro e enfermara-lhe o coração.
Reparamos que diversos medicamentos se ali­nhavam à cabeceira, mas nosso instrutor examinou-os, auscultou a doente e informou:
— O remédio de Zulmira é daqueles que a farmácia não possui. Virá dela mesma. Precisamos refazer-lhe a esperança e o gosto de viver. Des­controlou-se-lhe, de novo, a mente. Desinteressou­-se da luta e a abstenção de alimentos acarreta-lhe a inanição progressiva.
— E o reencontro com o filhinho? — pergun­tou Hilário — não seria o melhor processo de restaurar-lhe o bom ânimo?
— É o que esperamos — concordou o Mi­nistro —‘ todavia, Júlio, na fase que atravessa, requisita, pelo menos, uma semana de absoluto re­pouso e, até lá, é indispensável entreter-lhe as energias.
Em seguida, Clarêncio entrou em ação, aplican­do-lhe recursos magnéticos, com o nosso humilde concurso.
A tensão nervosa de Zulmira, porém, atingira o apogeu e apenas conseguimos sossegá-la, de al­guma sorte, sem conduzi-la ao sono reparador que seria de desejar.
Odila, fortalecida, tomava-a aos seus cuida­dos, quando fomos defrontados por imprevisto fenômeno.
Mário Silva, desligado do corpo denso, com a rapidez de um relâmpago, penetrou o quarto, de olhos esgazeados, à maneira de louco, contemplou a doente por alguns instantes e afastou-se.
Volvemos nossa indagadora atenção para o Ministro, que esclareceu, sem detença:
— É sabido que o criminoso habitualmente volta ao local do crime. O remorso é uma força que nos algema à retaguarda.
E porque nos inclinássemos à procura do vi­sitante inesperado, o instrutor aquietou-nos, reco­mendando:
— Aguardemos. Mário voltará.
Com efeito, Silva, depois de alguns minutos, regressou ao aposento. Com a mesma expressão de dementado, fixou a pobre enferma e, dessa vez, rojou-se de joelhos, exclamando:
— Perdão! perdão!... sou um assassino! um assassino!...
Levantamo-nos, instintivamente, com o propó­sito de socorrê-lo, mas tocado de longe pela nossa influência magnética, qual se fora alcançado por um raio, o enfermeiro projetou-se para fora.
— Infortunado amigo! — falou o Ministro, contristado. — Sofre muito. Ajudemo-lo a soerguer-se.
Num átimo, ganhamos o domicílio de Mário. encontrando-o em pesadelo aflitivo, contido no lei­to à custa de poderosos anestésicos.
Com surpresa para nós, uma freira desencar­nada rezava, junto dele.
Interrompeu as preces, a fim de saudar-nos, acolhendo-nos com simpatia.
— Estava certa — disse delicada e confiante — de que Nosso Senhor nos enviaria o socorro justo. Desde algumas horas, ocupo aqui o serviço de vigilância. A posição do nosso amigo — e in­dicou Mário estendido na cama — é francamente anormal e temo a intromissão de Espíritos dia­bólicos.
Clarêncio assumiu o aspecto de simples visi­tante, vulgarizando-se ao olhar da religiosa, que se sentia evidentemente encorajada com a nossa presença.
— É enfermeira? — perguntou nosso instru­tor, cortês.
— Não sou própriamente do serviço de saúde replicou a interpelada —, mas colaboro no hos­pital onde Silva trabalha.
Fitou o moço semi-adormecido e aduziu, pie­dosa:
— É um cooperador devotado às crianças doentes e a cuja assiduidade e carinho muito passamos a dever.
E, numa linguagem genuinamente católica ro­mana, rematou:
— Muitas almas benditas têm descido do Céu para testemunhar-lhe agradecimento. Isso tem acon­tecido tantas vezes que, com alguns médicos e as­sistentes, fêz-se credor das melhores atenções de nossa Irmandade.
Usando o tato que lhe era característico , nosso orientador indagou:
— Como soube a irmã que o nosso amigo se achava assim tão conturbado?
— Não recebemos qualquer notificação direta, contudo, ele não compareceu hoje às tarefas ha­bituais e isso foi suficiente para indicar-nos que algo de grave estava acontecendo. Nossa superio­ra designou-me para verificar o que havia. Desde então, estou presa, de vez que não supunha a exis­tência de tantos Espíritos das trevas na vizinhança.
A palavra da freira saturava-se de tanta bon­dade espontânea e evidenciava uma fé pura tão encantadoramente ingênua, que a curiosidade me espicaçou o íntimo. A tentação de pesquisar o fascinante problema daquele caridoso esforço assis­tencial me constrangia a interferir no assunto, mas um olhar de Clarêncio bastou para que Hilário e eu nos mantivéssemos em respeitoso silêncio.
— É comovente pensar na sublimidade de sua missão, depois de ausentar-se do corpo terrestre — falou o Ministro, bondoso, talvez provocando al­guma elucidação direta, capaz de satisfazer-nos.
— Sim, trabalhamos sob a direção de Madre Paula — informou a interlocutora, sincera —‘ que nos explica ser a enfermagem nas casas públicas de tratamento uma forma de purgatório benigno, até que possamos merecer novas bênçãos de Deus.
— Mas, irmã, vê-se de pronto que o seu cora­ção está comungando a paz do Senhor.
Ela baixou humildemente os olhos e ponderou:
— Não penso assim. Sou uma pobre religiosa, em trabalho para resgatar os próprios pecados.
No leito, Mário gemia inquieto.
O Ministro pareceu despreocupar-se da pales­tra de ordem pessoal e passou a afagar a fronte do enfermo, dando-nos a idéia de que só ele devia atrair-nos o interesse.
A freira acercou-se respeitosamente de nosso instrutor e disse, calma:
— Irmão, Madre Paula costuma dizer-nos que os ouvidos de Deus vivem no coração das grandes almas. Estou certa de que escutastes minhas ro­gativas. Tenho-vos por emissários da Corte Celeste. Acredito que, desse modo, me compete a obri­gação de confiar-vos nosso doente.
Clarêncio agradeceu o carinho que transparecia daquelas palavras e expôs que a nossa passagem por ali era rápida, o bastante para ministrar o socorro preciso.
A interlocutora encareceu a necessidade de co­municar-se com o hospital, quanto ao cooperador em agitada prostração, e, prometendo voltar em breves minutos, ausentou-se à pressa.
A sós conosco, o orientador, embora de aten­ção ligada ao enfermeiro, explicou, atenciosamente:
— Nossa irmã pertence à organização espiri­tual de servidores católicos, dedicados à caridade evangélica. Temos diversas instituições dessa na­tureza, em cujos quadros de serviço inúmeras entidades se preparam gradualmente para o conheci­mento superior.
— Sob a direção de autoridades ainda ligadas à Igreja Católica? — perguntou Hilário, admirado.
— Como não? todas as escolas religiosas dis­põem de grandes valores na vida espiritual.
Como acontece à personalidade humana, as crenças pos­suem uma região clara e luminosa e uma outra ainda obscura. Em nossa alma, a zona lúcida vive alimentada pelos nossos melhores sentimentos, en­quanto que, no mundo sombrio de nossas experiên­cias inferiores, habitam as inclinações e os impul­sos que ainda nos encadeiam à animalidade. Nas religiões, o campo da sublimação está povoado pelos espíritos generosos e liberais, conscientes de nossa suprema destinação para o bem, ao passo que, nas linhas escuras da ignorância, ainda permanecem as almas pesadas de ódio e egoísmo.
E, sorrindo, o Ministro acentuou:
— Achamo-nos em evolução e cada um de nós respira no degrau em que se colocou.
— Ela, porém, terá penetrado a verdade com que fomos surpreendidos, depois da morte? — per­guntei, intrigado.
— Cada Inteligência — respondeu o orienta­dor, enigmático — só recebe da verdade a porção que pode reter.
Silva, no leito, dava inequívocos sinais de enor­me angústia.
Não ignorava que o meu dever de assistí-lo era trabalho inadiável, todavia, o encanto espiritual da religiosa singularmente arraigada aos hábitos terrestres me excitava de tal maneira a curiosidade que não pude conter a indagação espontânea.
— Mas essa freira sabe que deixou o mundo, sabe que desencarnou e prossegue, assim mesmo, como se via antes?
— Sim — confirmou o instrutor imperturbável.
— E estará informada de que a vida se es­tende a outras esferas, a outros domínios e a ou­tros mundos? perceberá que o céu ou o inferno começam de nós mesmos?
O orientador meneou a cabeça, dando mostras de negativa e acrescentou:
— Isso não. Ela não oferece a impressão de quem se libertou do círculo das próprias idéias para caminhar ao encontro das surpresas de que o Uni­verso transborda. Mentalmente, revela-se adstrita às concepções que elegeu na Terra, como sendo as mais convenientes à própria felicidade.
— E ninguém a incomoda aqui por viver as­sim distante do conhecimento real do caminho?
O orientador assumiu feição mais carinhosa­mente paternal para comigo e ajuntou:
— Antes de tudo, deve nossa irmã merecer-nos a maior veneração pelo bem que pratica e, quanto ao modo de interpretar a vida, não podemos es­quecer que Deus é Nosso Pai. Com a mesma tole­rância, dentro da qual Ele tem esperado por nossa mais elevada compreensão, aguardará um melhor entendimento de nossa amiga. Cada Espírito tem uma senda diversa a percorrer, assim como cada mundo tem a rota que lhe é peculiar.
E, fixando-me com particular atenção, ob­servou:
— A maior lição aqui, André, é a da semen­teira que produz, inevitável. Mário Silva, na posição de enfermeiro, não obstante a ruinosa impulsivi­dade em que se caracteriza, tem sido prestimoso e humano, tornando-se credor do carinho alheio. Segundo vemos, não é um homem devotado às lides religiosas. É irritável e agressivo. De ontem para hoje, chega a sentir-se criminoso... Entretanto, é correto cumpridor dos deveres que abraçou na vida e sabe ser paciente e caridoso, no desempe­nho das próprias obrigações. Com isso, granjeou a simpatia de muitos e encontramo-lo fraternal­mente guardado por uma freira reconhecida...
O ensinamento era efetivamente comovedor. Dispunha-me a prosseguir no comentário, contudo, Silva começou a gemer e o Ministro, incli­nando-se para ele, demorou-se longo tempo a aus­cultá-lo.
Em seguida, Clarêncio reergueu-se e falou:
— Pobre amigo! permanece impressionado com a morte de Júlio, conservando aflitivo complexo de culpa. Tem o pensamento ligado ao pequenino mor­to, à maneira de imagem fixada na chapa fotográ­fica. Passou o dia acamado, sob extrema pertur­bação. Observo que não foi a casa de Antonina, conforme previa. Sentiu-se vencido, envergonha­do... Entretanto, somente nossa irmã possui para ele o remédio indispensável...
Depois de pausa ligeira, indagamos se não nos seria possível socorrê-lo, de modo mais positivo, através de passes, ao que Clarêncio respondeu, se­guro de si:
— O auxílio dessa natureza ampara-lhe as for­ças, mas não resolve o problema. Silva deve ser atingido na mente, a fim de melhorar-se. Requisita idéias renovadoras e, no momento, Antonina é a única pessoa capaz de reerguê-lo com mais segu­rança.
Recordei instintivamente o drama que se de­senrolara ao tempo da Guerra do Paraguai, pa­recendo-me ouvir, de novo, a narração do velho Leonardo Pires.
Assinalando-me o pensamento, o Ministro pon­derou:
— Tudo na vida tem a sua razão de ser. Noutra época, Silva, na personalidade de Esteves, aliou-se a Antonina, então na experiência de Lola Ibarruri, para se afogarem no prazer pecaminoso. com esquecimento das melhores obrigações da vida. Atualmente, estarão reunidos na recuperação jus­ta. Os que se associam na leviandade, à frente da Lei, acabam esposando enormes compromissos para o reajustamento necessário. Ninguém confunde os princípios que regem a existência.
Decidia-me a desfechar novas interrogações, mas Clarêncio, pousando afetuosamente o indica­dor sobre os meus lábios, recomendou:
— Cessa a curiosidade, André! Quando pas­samos a explanar sobre a Lei, nossa conversação adquire o sabor de eternidade, e a imposição de serviço nos condiciona ao minuto que passa.
E, indicando o enfermeiro excitado, anunciou:
— Na tarde de amanhã, voltaremos para con­duzi-lo à residência de nossa irmã. Por intermédio de Antonina, habilitar-se-á para o indispensável reerguimento. Por agora, não podemos fazer mais.
Decorridos alguns instantes, a freira regressou à nossa presença, assistida por outra irmã, que nos cumprimentou com atenciosa reserva.
Ambas haviam sido designadas para a tarefa de auxílio ao cooperador doente. A congregação encarregar-se-ia de todos os trabalhos de vigilân­cia e enfermagem espiritual, enquanto Silva assim permanecesse.
Depois de breve diálogo, saudamo-las com res­peitosa cordialidade e nos retiramos, com a pro­messa de voltar no dia seguinte.




Do livro "ENTRE A TERRA E O CÉU", pelo espírito André Luiz - psicografia de Chico Xavier.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

ANTE A REENCARNAÇÃO

Na noite imediata, atendendo-nos a solicitação, Clarêncio conduziu-nos ao domicílio do ferroviário, para observações.
Penetramos respeitosamente o quarto em que Odila nos recebeu, contente e gentil.
Tudo lhe parecia desdobrar-se com segurança.
Júlio dormia.
Não mais acordara, informou a guardiã, feliz. Tinha a impressão de que o reencarnante desapa­recia pouco a pouco, na constituição orgânica de Zulmira, como se a futura mãezinha fosse um fil­tro miraculoso a absorvê-lo.
A genitora desencarnada mostrava-se satisfei­ta e esperançosa. Preferia ver o filhinho confiado ao sono profundo. As aflições e os gemidos dele lhe haviam dilacerado o coração.
O renascimento, por esse motivo, representava uma bênção para as inquietantes responsabilidades maternais de que se via detentora.
Observamos que Júlio se caracterizava por enorme diferença.
O corpo sutil do menino denotava espantosa transformação. Adelgaçara-se de maneira surpre­endente.
Tive a idéia de que ele e Zulmira, alma com alma, se fundiam um no outro. A moça ganhara em plenitude física e vivacidade espiritual quanto perdia o menino na apresentação exterior. Julio adormecera aliviado, ao passo que a jovem senhora demonstrava admirável despertamento para a vida. A segunda esposa de Amaro modificara-se de modo sensível. Como as pessoas felicitadas por novos títulos de confiança no trabalho, revelava-se mais alegre e mais cônscia das obrigações que lhe competiam.
A transfusão fluídica era ali evidente.
O organismo materno assemelhava-se a um alambique destinado a sutilizar as energias do reencarnante para restituí-las, decerto, a ele mesmo, na formação do novo envoltório.
Registrando-nos o assombro, o instrutor expli­cou com a sua habitual gentileza:
— A reencarnação, tanto quanto a desencar­nação, é um choque biológico dos mais apreciáveis. Unido à matriz geradora do santuário materno, em busca de nova forma, o perispírito sofre a in­fluência de fortes correntes electromagnéticas, que lhe impõem a redução automática.
Constituído à base de princípios químicos semelhantes, em suas propriedades, ao hidrogênio, a se expressarem atra­vés de moléculas significativamente distanciadas umas das outras, quando ligado ao centro genésico feminino experimenta expressiva contração, à ma­neira do indumento de carne sob carga elétrica de elevado poder. Observa-se, então, a redução volumétrica do veículo sutil pela diminuição dos espaços inter-moleculares. Toda matéria que não serve ao trabalho fundamental de refundição da forma é devolvida ao plano etereal, oferecendo-nos o perispírito esse aspecto de desgaste ou de maior fluidez.
— Quer dizer então... — aventurou Hílário, em sua curiosidade construtiva.
— Quero dizer que os princípios organogêni­cos essenciais do perispírito de Júlio já se encontram reduzidos na intimidade do altar materno, e, à maneira de um ímã, vão aglutinando sobre si os recursos de formação do novo vestuário de car­ne que lhe será o vaso próximo de manifestação.
— E a forma a rarefazer-se sob nossos olhos? — inquiriu meu colega, espantado.

— Está em ativo processo de dissolução.

E, com a bela serenidade que lhe assinala o espírito, continuou elucidando:
— Também o corpo físico parece dormir na desencarnação, quando, na realidade, começa a res­tituir as unidades químicas que o compõem à Na­tureza que lhos emprestou a titulo precário, ape­nas com a diferença de que a alma desencarnada, ainda mesmo quando em deploráveis condições de sofrimento e inferioridade, avança para a liberta­ção relativa, ao passo que, em nos reencarnando, sofremos o processo de volta às teias da matéria densa, não obstante orientados por nobres objeti­vos de evolução. É por isso que, conduzidos à reconstituição orgânica, revivemos, nos primeiros tempos da organização fetal, embora apressada­mente, todo o nosso pretérito biológico.
Cada ser que retoma o envoltório físico revive, automática­mente, na reconstrução da forma em que se ex­primirá na Terra, todo o passado que lhe diz respeito, estacionando na mais alta configuração típica que já conquistou, para o trabalho que lhe compete, de acordo com o degrau evolutivo em que se encontra.
A maneira simples pela qual Clarêncio esflora­va problemas tão complexos, induzia-nos a sublimados pensamentos, quanto à magnitude das Leis Universais.
Ali, diante de um caso comum de reencarna­ção, auxiliado apenas pelas nossas preces no culto à fraternidade, obtínhamos vastas elucidações so­bre o plano geral da existência.
Inspirado talvez na mesma faixa de reflexões que me preocupavam o espírito, Hilário inquiriu:
— Os princípios que analisamos funcionam em igualdade de circunstâncias para os animais?

— Como não? — replicou o nosso orientador, paciente — todos nos achamos na grande marcha de crescimento para a imortalidade. Nas linhas infinitas do instinto, da inteligência, da razão e da sublimação, permanecemos todos vinculados à lei do renascimento como inalienável condição de pro­gresso. Atacamos experiências múltiplas e reca­pitulamo-las, tantas vezes quantas se fizerem ne­cessárias, na grande jornada para Deus. Crisálidas de inteligência nos setores mais obscuros da Na­tureza evolvem para o plano das inteligências frag­mentárias, onde se localizam os animais de ordem superior que, por sua vez, se dirigem para o reino da consciência humana, tanto quanto os homens, pouco a pouco, se encaminham para as gloriosas esferas dos anjos.
O instrutor, entretanto, voltou-se para o leito em que mãe e filho jaziam, íntimamente associa­dos, e sentenciou:
— Preocupemo-nos, porém, com o serviço da hora presente. Estudemos o caso sob nossa obser­vação para que o nosso dever de solidariedade seja bem cumprido.
O apontamento reajustou-nos.
Hilário que, tanto quanto eu, se mostrava in­teressado em aproveitar a lição, fixando o quadro sob nossos olhos, pediu uma explicação tão simples quanto possível acerca da comunhão fisiopsíquica de Zulmira e Júlio naquele instante, ao que Cla­rêncio respondeu, após refletir alguns momentos:
— Imaginemos um pêssego amadurecido, lan­çado à cova escura, a fim de renascer. Decomposto em sua estrutura, restituirá aos reservatórios da Natureza todos os elementos da polpa e dos de­mais envoltórios que lhe revestem os princípios vitais, reduzindo-se no imo do solo ao embrião mi­núsculo que se transformará, no espaço e no tem­po, em novo pessegueiro.
O ensinamento não podia ser mais lógico, mais preciso.
— Então, por isso — acrescentou Hilário, estu­dioso — é que as crianças desencarnadas recla­mam período de tempo mais ou menos longo para demonstrarem crescimento mental, como ocorre na existência comum...
— Isso acontece com a maioria — informou o Ministro —, de vez que há exceções na regra.
Em muitas circunstâncias, semelhante imposição não existe. Quando a mente já desenvolveu certas qualidades, aprimorando-se em mais altos degraus de sublimação espiritual, pode arrojar de si mes­ma os elementos indispensáveis à composição dos veículos de exteriorização de que necessite em pla­nos que lhe sejam inferiores. Nesses casos, o Es­pírito já domina plenamente as leis de aglutinação da matéria, no campo de luta que nos é conhecido e, por esse motivo, governa o fenômeno da própria reencarnação sem subordinar-se a ele.
Fitávamos o semblante calmo de Zulmira, que respirava serena, feliz.
— O problema de Júlio, no entanto — consi­derei —, afigura-se-nos bastante doloroso...
— Doloroso mas educativo, quanto o de mi­lhares de criaturas, cada dia, na Terra — ponderou Clarêncio, imperturbável. — Nosso companhei­ro vencido e enfermo, em razão de compromissos adquiridos na carne, na carne encontrará caminho ao próprio reajuste.
— E a questão da hereditariedade? — indagou meu companheiro, reverente. — Júlio, perdendo o corpo sutil em que chorava atormentado, ressur­girá na existência física sem a moléstia que o apoquentava, por herdar fatalmente os caracterís­ticos biológicos dos pais?
O orientador sorriu, de maneira expressiva, e asseverou:
— A hereditariedade, qual é aceita nos conhe­cimentos científicos do mundo, tem os seus limites. Filhos e pais, indubitávelmente, ainda mesmo quando se cataloguem distantes uns dos outros, sob o ponto de vista moral, guardam sempre afinidade magnética entre si; desse modo, os progeni­tores fornecem determinados recursos ao Espírito reencarnante, mas esses recursos estão condiciona­dos às necessidades da alma que lhes aproveita a cooperação, porque, no fundo, somos herdeiros de nós mesmos. Assimilamos as energias de nossos pais terrestres, na medida de nossas qualidades boas ou más, para o destino enobrecido ou tortu­rado a que fazemos jus, pelas nossas conquistas ou débitos que voltam à Terra conosco, emergindo de nossas anteriores experiências.
— Somos então levados a crer que Júlio trans­portará consigo a enfermidade que sofria em nosso plano, à maneira de alguém que, em se mudando de domicílio, não modifica o quadro orgânico... — observou Hilário, com sensatez.
— Isso mesmo — elucidou o Ministro, satis­feito —, o problema é de natureza espiritual. Durante a gravidez de Zulmira, a mente de Júlio per­manecerá associada à mente materna, influencian­do, como é justo, à formação do embrião. Todo o cosmo celular do novo organismo estará impregna­do pelas forças do pensamento enfermiço de nosso irmão que regressa ao mundo.
Assim sendo, Júlio renascerá com as deficiências de que ainda é por­tador, embora favorecido pelo material genético que recolherá dos pais, nos limites da lei de he­rança, para a constituição do novo envoltório.
Depois de breve pausa, concluiu:
— Como vemos, na mente reside o comando. A consciência traça o destino, o corpo reflete a alma. Toda agregação de matéria obedece a im­pulsos do espírito. Nossos pensamentos fabricam as formas de que nos utilizamos na vida.

Calou-se o instrutor.

Odila tomou a palavra comentando as suas esperanças para o futuro.
Conversamos de novo, animadamente.
E, logo após, uma prece do Ministro encerrava para nós a deliciosa reunião.




Do livro "ENTRE A TERRA E O CÉU", pelo espírito André Luiz - psicografia de Chico Xavier.

TUDO ME É LÍCITO, MAS NEM TUDO EDIFICA


É muito comum no meio espírita a pergunta: O Espiritismo proíbe “isso”? e “aquilo”? Será que podemos fazer esta “coisa”?

Para respondê-la, lembramos da instrução do apóstolo Paulo, em sua 1ª epístola aos Coríntios:
"Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas me convêm; todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas edificam. (I Coríntios, 10: 23)".

Ao analisar esta proposição formulada pelo “Apóstolo dos Gentios”, devemos nos situar no significado da palavra lícito.
Segundo o dicionário Aurélio, “lícito” é tudo que é conforme a lei, tudo que é legal.
Normalmente, quando fazemos ou tentamos responder esta pergunta, não estamos preocupados com as coisas humanas. Estas nós sabemos como conduzir. A preocupação normalmente é com as questões espirituais. Com isso entendemos que esta pergunta deveria ser formulada assim: De acordo com as leis divinas podemos fazer isto? E aquilo?
E a resposta seria: É lícito perante as leis divinas? Se a resposta for afirmativa, então, é; de outro modo, não.
Essa forma de pensar parece que contradiz a afirmativa de Paulo, porque ele diz que todas as coisas são lícitas. No nosso ponto de vista Paulo não pensava na lei divina ao usar a palavra lícita, mas pensou ao dizer: “mas nem todas as coisas convêm”, “nem todas as coisas edificam”. E tudo isso é bastante coerente com outro ensinamento de sua autoria:
Aquele que não conhece a lei, tudo o que ele faz é lei, mas o que conhece e não a pratica, é punido pela própria lei.
Sabemos que a lei divina é revelada aos homens à medida de sua condição evolutiva, isto nos leva a raciocinar que de acordo com a condição evolutiva da criatura é que ela vai analisar o que é justo ou não.
A Doutrina Espírita não proíbe nada, um dos seus princípios básicos é o “livre-arbítrio” (todas as coisas são lícitas), assim sendo ela não é proibitiva, mas é educativa, no sentido de mostrar a verdade, e ensinar o caminho para consegui-la (mas nem todas as coisas edificam).
O apóstolo, com este seu ensinamento, mostra sua capacidade de síntese e consegue fechar todo o tema que ora estudamos: “Livre-arbítrio e Causa e Efeito”. Com a afirmação de que “tudo me é lícito”, ele mostra o livre-arbítrio, mas é taxativo ao afirmar: “nem todas as coisas edificam”, ou seja, nem todas as coisas nos conduzem para o caminho do Senhor, e é aí que a lei de causa e efeito atua de maneira a fazer voltar o ser à direção correta.
Outra coisa a ser analisada é qual o nosso objetivo diante da vida. Ela nos oferece muitos prazeres de caráter transitório, mas se o nosso objetivo maior é a nossa evolução espiritual, temos que buscar algo mais duradouro: o tesouro que o ladrão não rouba, nem a traça corrói.
Quando Jesus conversava com as irmãs de Lázaro, deixou um grande ensinamento:
“Marta, Marta, estás ansiosa e afadigada com muitas coisas, mas uma só é necessária; e Maria escolheu a melhor parte, a qual não lhe será tirada.”
Portanto quando estivermos em dúvida sobre qual o caminho a seguir, usemos o nosso discernimento, e busquemos pensar se não estamos trocando:

O divino, pelo humano.

O transcendente, pelo rotineiro.

O que redime, pelo que cristaliza.

O espiritual, pelo material.

Os prazeres do Céu, pelas alegrias da Terra.

E lembremos sempre o que Ele, que é o Mestre dos mestres nos disse:

“Eu sou o caminho, a verdade e a vida.

Ninguém vem ao Pai, senão por mim.” (João, 14: 6)

Rosane Merat

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

A INTERNET E O JOVEM ESPÍRITA


A Internet, como sabemos, é um fenômeno irreversível que deve ser aproveitado a nosso favor, e não contra. A cada minuto, milhões de informações são trafegadas, numa avalanche de dados para a qual estamos expostos todos os dias. O conceito de “vida virtual” já está consolidado: podemos trabalhar, comprar produtos e serviços, nos divertir e até mesmo fazer novos relacionamentos através da rede mundial de computadores. Segundo uma recente pesquisa promovida pelo Instituto Ipsos Brasil, 93% dos brasileiros possuem acesso a Internet com ou sem computador em casa. Negá-la ou ignorá-la, portanto, seria deixar de reconhecer a evolução dos tempos e da tecnologia, que deve caminhar, de acordo com o que diz a própria Doutrina, em benefício da humanidade.

Para além da questão da habilidade em operá-la, quando jovens e crianças manuseiam os computadores com destreza e naturalidade, a Internet mexeu diretamente com o contato destes com o mundo, sendo esta uma relação mediada. Os jovens conversam com seus amigos por meio de teclados, monitores e programas. Os encontros e desencontros, o lazer, tudo se faz por intermédio da máquina, em jornadas de horas a fio, em dias e madrugadas, conversando, navegando e interagindo.

Além da mediação, a Internet cria no jovem e na criança o hábito de realizar várias atividades ao mesmo tempo. A semelhança do ambiente multitarefa dos computadores, com múltiplas janelas abertas, disputa a atenção dos sentidos sobre-excitados, entre sons e imagens.

A conduta moral do jovem espírita deve ser exercitada em todos os setores da sociedade. Por isso, tal conduta deve ser igualmente praticada quando ele utiliza a Internet. Neste sentido, seguem algumas informações importantes para o bom uso da rede mundial de computadores. Esteja atento aos sites que costuma frequentar. A Internet possui milhares de opções; várias são boas e produtivas, ensinando informações novas que são importantes para o nosso conhecimento, além de serem fontes de entretenimento sadio. Entretanto, muitos outros são os sites com conteúdos duvidosos ou que transmitem informações nocivas. Portanto, antes de entrar em um site, faça a sua avaliação com base nos conceitos morais que a Doutrina nos oferece!

Quando utilizar sites de relacionamento, esteja atento à linguagem que utiliza para se comunicar, mantendo um padrão elevado. É fundamental evitar palavras chulas e pesadas. Portanto, nunca responda com palavrões, mesmo que usem de grosserias.

Lembre-se de que atrás de um personagem, de um Nick, de um avatar, existe uma pessoa: você. Por fim, respeite para ser respeitado e trate os outros como você gostaria de ser tratado. Até a próxima!


Texto de Marcos Leite

MÃE E FILHO

A alegria plena coroara o trio doméstico.
Mostrando a expectativa de uma colegial preo­cupada em receber a aprovação dos mentores, Odila ergueu os olhos lacrimosos para Irmã Clara, per­guntando:
— Terei agido corretamente?

Lia-se-lhe no rosto a necessidade de uma frase estimulante.
A venerável amiga conchegou-a de encontro ao coração.
— Venceste, valorosa — disse, terna —; com­preendeste o santo dever do amor. Abençoarás para sempre este maravilhoso dia de renúncia e doação de ti mesma.

Vimos Odila colar-se a ela, à maneira de uma criança nos braços maternais, chorando copiosa­mente.
— Não te comovas tanto assim! — apelou a benfeitora, osculando-lhe os cabelos.

Sensibilizando-nos igualmente, a primeira es­posa de Amaro respondeu com dificuldade:
— Meu pranto não é de sofrimento... Sinto-me agora leve e feliz... como não compreendia eu assim, antes!...

— Sim — elucidou Clara, de modo significa­tivo —, perdeste peso espiritual, habilitando-te à elevação de nível. Nossas paixões inferiores íman­tam-nos à Terra, como o visco prende o pássaro a distância das alturas...
E, afagando-a, acentuou, bondosa:
— Vamos! Deste agora o amor puro e, por isso, o amor puro não te faltará. De ora em diante, serás aqui bem-aventurada mensageira, de vez que o teu coração permanecerá em serviço dos anjos guardiães de nossos destinos, que velam por nós abnegadamente, esperando-nos na Vida Mais Alta. Cedendo o carinho de teu companheiro à outra mu­lher, de cuja colaboração necessita ele para redi­mir-se, conquistaste nele novo patrimônio de afe­tividade, e, aproximando a filhinha daquela a quem devemos querer como irmã, adquiriste o mereci­mento indispensável para recuperar o filhinho, cujo futuro poderás orientar... Hoje mesmo, estarás ao lado de teu Júlio...

Odila, transfigurada, estampou no semblante a luz da felicidade que lhe fluía do mundo interior.
O Sol inundava a Terra de raios vivificantes, quando a reconduzimos ao hospital, com a promes­sa de buscá-la, mais tarde, para a viagem ao Lar da Bênção.

Com efeito, transcorridas algumas horas, quan­do a pausa dos nossos compromissos de trabalho nos ofereceu a oportunidade precisa, convocamo-la ao reencontro.
Sustentada nos braços de Clara, a mãezinha de Júlio revelava inexcedível contentamento.
Era a primeira vez, depois da morte física, que se confiava a romagem tão linda, prorrompendo em exclamações admirativas, ante os surpreenden­tes jogos da luz.
Nas vizinhanças do sítio para o qual nos diri­gíamos, inalava o ar tonificante a longos haustos, deslumbrando-se na visão da Natureza saturada de perfumes e adornada de flores.
Extasiou-se na contemplação das centenas de pequeninos, que brincavam festivamente. Muito pá­lida, de atenção presa à multidão infantil, na pro­cura ansiosa do filho, achava-se mentalmente muito distanciada de nosso grupo. Por isso mesmo, deixava-se conduzir qual se fôra um autômato.
Acompanhando Clarêncio, atingimos a residên­cia de Blandina, que nos acolheu com a gentileza habitual.

Entramos.

Não houve necessidade de muitas palavras.
Atraida pelo grande berço que se levantava à nossa vista, Odila precipitou-se sobre o menino enfermo, bradando, alarmada:
— Meu filho! Júlio! Meu filho!... Indubitàvelmente, a Sabedoria Universal colo­cou imperscrutáveis segredos no carinho materno. Algo de milagroso e divino existe nos laços que unem mães e filhos que, por enquanto, não pode­mos apreender.
A criança doente transformou-se, de súbito.
Indefinível expressão de felicidade cobriu-lhe o semblante.
— Mãe! Mãe!... — gritou, respondendo.
E alongou os braços, agarrando-se-lhe ao busto.
Em lágrimas, Odila retirou-o instintivamente do leito, beijando-o enternecida.

Quando se lhe asserenou a desbordante emoti­vidade, sentou-se ao nosso lado, trazendo o filho ao colo.
Júlio, completamente modificado, contava-lhe quanto lhe doía a garganta, mostrando-lhe a glote extensamente ferida.

E terminada que foi a hora comovente que nos empolgara a todos, Blandina abriu a conversação geral, acentuando, contente:
— Sabíamos que a Divina Bondade não dei­xaria o nosso doentinho sem a ternura maternal.
Júlio agora terá junto dele a insubstituível dedicação.
Odila, que se mostrava compreensivelmente conturbada, ante a posição orgânica do menino, nada respondeu; contudo, Clara considerou, afe­tuosa:
— Esperamos localizar nossa amiga no Par­que, por algum tempo, e, certo, sentirá prazer em encarregar-se do pequenino.
— Sim, a Escola das Mães apresenta vastas disponibilidades — informou Blandina, prestimosa.
— Odila poderá entregar-se com segurança à ta­refa assistencial que Júlio exige. Receberá todos os recursos...
— Aflige-me encontrá-lo assim — alegou a genitora preocupada, indicando o pequeno enfermo —, não posso atinar com a razão de uma úlcera tão grande, sem o corpo de carne... não tenho bases para entender de uma só vez tudo quanto vejo, mesmo porque também eu andava louca, in­capaz de raciocinar...

Reparei que o Ministro e a Irmã Clara se en­treolharam, de modo expressivo, dando-me a idéia de que conversavam, através do pensamento.

Assinalando as doloridas referências maternas, a instrutora designou com a destra o nosso orien­tador, ajuntando bem humorada:
— Clarêncio tem a palavra elucidativa.
— Sim — ponderou o Ministro, cauteloso —, nossa irmã, como é natural, encontrará pela frente variados problemas ligados ao caminho de elevação que lhe é próprio. Achamo-nos todos infinitamente longe do Céu que fantasiávamos na Terra e cada qual de nós detém consigo deficiências que será preciso superar. O passado reflete-se no presente.
Sorrindo, acrescentou:
— Nosso destino é assim como o rio. Por mais diferenciado se encontre, à distância da nascente que lhe dá origem, está sempre ligado a ela pela corrente em ação contínua...

— Procurarei compreender — disse Odila mais segura de si —, sou mãe e não posso desvencilhar­-me da obrigação de amparar meu filhinho. Dis­pensar-lhe-ei todos os cuidados imprescindíveis ao seu bem-estar. Sinto que a felicidade pode ser conquistada no mundo a que fomos trazidos pela renovação... Trabalharei quanto estiver ao meu alcance para ver Júlio integralmente refeito. Hoje, novos ideais me banham o coração. É imperioso esforçar-me. Todos os que amamos virão ter co­nosco, mais cedo ou mais tarde... Esperanças di­ferentes me animam o espírito. Amanhã, no porvir talvez próximo, terei meus familiares aqui, de novo, e não posso olvidar a necessidade de algo fa­zer para conseguir o abrigo de que necessitamos...
Passeou o olhar vago e cismarento pelo recinto como se estivesse contemplando remotos horizon­tes e concluiu:
— Um lar... a felicidade restaurada... a bên­ção do reencontro...

Por largo tempo, o comentário edificante bri­lhou na sala, aquecendo a chama da amizade e da confiança em nossos corações.

Blandina e Mariana prometeram cooperar, in­sistindo para que Odila se demorasse junto delas, até situar-se, em definitivo, no educandário a que se destinava.
A renovada senhora aceitou, reconhecidamente.

Despedimo-nos, felizes.

Após nos separarmos de Clara, retomando o caminho de volta ao nosso domicílio espiritual, jul­guei conveniente interpelar o instrutor, acerca dos problemas que me esfervilhavam no cérebro.
Porque não esclarecer Odila, com respeito ao pretérito de Júlio? Seria aconselhável deixá-la en­tregue a informações deficientes, quando lhe co­nhecíamos extensamente os enigmas da organização familiar? porque não lhe explanar francamente o impositivo da reencarnação do menino?

Clarêncio, como de outras vezes, ouviu sereno e generoso.
Quando acabei o interrogatório, replicou sem alterar-se:
— À primeira vista, seria efetivamente esse o caminho a seguir, entretanto as recordações do pretérito não devem ser totalmente despertadas, para que ansiedades inúteis não nos dilacerem o presente. A verdade para a alma é como o pão para o corpo que não pode exorbitar da quota necessária a cada dia. Toda precipitação gera de­sastres. Além do mais, não nos cabe a vaidade de qualquer antecipação a providências que serão agradáveis e construtivas ao amor de nossa irmã.
Sentindo-se ainda plenamente integrada no carinho materno, ela própria assumirá a responsabilidade do trabalho alusivo à reencarnação do pequeno. Advogando ela mesma essa medida e destinando-se a criança ao seu antigo lar, encontrará no assunto abençoado serviço de fraternidade, ao mesmo tem­po que se reconhecerá mais responsável. Se mo­vêssemos as decisões, Odila observar-se-ia anulada em sua capacidade de agir, ao passo que, confiando a ela as deliberações que o caso reclama, adquirirá novo interesse para auxiliar Zulmira, de vez que a segunda esposa de Amaro substitui-la-á na con­dição de mãe, oferecendo novo corpo ao filhinho...

Admirado com os apontamentos ouvidos, vi-me satisfeito na inquirição.
Clarêncio, todavia, com o sorriso natural que lhe marcava habitualmente o semblante, aduziu, calmo:
— A vida é uma escola e cada criatura, dentro dela, deve dar a própria lição. Esperemos agora alguns dias. Interessada em socorrer o filhinho doente, a própria Odila virá até nós, lembrando para ele a felicidade da volta à Terra.



Do livro "ENTRE A TERRA E O CÉU", pelo espírito André Luiz - psicografia de Chico Xavier.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

RECONCILIAÇÃO

Amaro não registrou o convite da companheira desencarnada, em forma de palavras ouvidas, mas recebeu-o como silencioso apelo à vida mental.
Dirigiu-se a pequenina copa, pensando em Zul­mira, com o insopitável desejo de comunicar-lhe o estranho contentamento de que se via possuído.
Não seria justo envolver a esposa doente na onda de alegria em que se banhava?
Vimos que Odila tremeu um instante, ao lhe observar a súbita felicidade com a perspectiva de restauração do carinho para com a segunda mulher. Compreendi o esforço que a iniciativa lhe recla­mava ao coração feminino e, mais uma vez, reco­nheci que a morte do corpo não exonera o Espírito da obrigação de renovar-se. No fundo, não podia sentir, de imediato, plena isenção de ciúme, entre­tanto, aceitava o ideal de sublimação que se lhe implantara no sentimento e não parecia disposta a perder a oportunidade de reajuste.
Anotando-lhe a queda de forças, Clara abei­rou-se dela e falou, maternal:
— Prossigamos firmes. Todo bem que fizeres a Zulmira redundará em favor de ti mesma. Não esmoreças. Ajuda-te. A vontade, à procura do bem, realiza milagres em nós mesmos, O sacrifício é o preço da verdadeira felicidade.
O abraço afetuoso da benfeitora infundiu-lhe energias novas.
Os olhos dela brilharam outra vez.
Enlaçada ao marido, impeliu-o docemente ao leito em que a pobre doente repousava.
A enferma, por certo, desde muito perdera o contacto com qualquer manifestação afetiva por parte do companheiro, e, assim, ao lhe ver o sem­blante carinhoso e feliz, exibiu larga nota de espanto.
— Zulmira! — perguntou ele, inclinando-se para o seu rosto ossudo e desconsolado — estás realmente melhor?
— Sim... sim... — suspirou a interpelada, hesitante.
— Escuta! Hoje, amanheci pensando em nós, em nossa felicidade... Não julgas seja tempo de reagirmos contra o sofrimento que nos cerca? preo­cupo-me por ti, acamada e abatida, desde a morte de Júlio...
Notei que do tórax de Amaro emanava largo fluxo de energia radiante, assim como um jato de raios de luz verde-prateada que envolveram o bus­to de Zulmira, despertando-lhe emotividade incoer­cível.
A desventurada senhora começou a chorar, dando-nos a impressão de que os fluidos arremes­sados sobre ela lhe lavavam o coração.
Clarêncio, calmo, informou:
— Como vemos, a sinceridade dispõe de recur­sos característicos. Emite forças que não deixam margem a enganos. O sentimento puro com que Amaro se dirige agora à esposa é fator decisivo para que ela se reerga e se cure.
O ferroviário, auxiliado por Odila, enxugou as lágrimas que corriam copiosas daqueles olhos ma­cerados e tristes e continuou:
— Peço confies em mim! afinal de contas, so­mos companheiros um do outro... como poderei ser feliz sem o teu concurso? não nos casamos para chorar...
— Amaro! — exclamou a interlocutora ago­niada, conservando ainda os últimos resíduos mentais do complexo de culpa em que se torturava — como te agradeço a alegria desta hora!...
En­tretanto, a imagem de Júlio não me sai da lem­brança... Sinto que o remorso me persegue. Não fiz tudo o que eu devia para salvar o filhinho que me confiaste!...
— Esqueçamos o passado — asseverou o es­poso, decidido —, todos pertencemos a Deus e acre­dito que a Divina Vontade vive conosco, em toda parte. Indiscutivelmente, Júlio nos faz muita fal­ta, mas não podemos renunciar à vida que o Céu nos concedeu. É imprescindível lutar, procurando a vitória.
Ligado à mente da primeira esposa, que tudo fazia por ajudá-lo, prosseguiu com enternecedora inflexão de voz:
— Não olvides que pertencemos aos compro­missos morais que assumimos... O carinho do meu caçula significava muitíssimo para o meu coração, contudo, não pode ser mais importante que o nos­so amor!... Refaze-te! Vivamos nossa vida!... Temos Evelina e a nossa felicidade!...
A doente sentou-se, de olhos reanimados e di­ferentes.
E, enquanto o esposo acomodava-se ao lado dela, vimos Odila, de fisionomia satisfeita, dirigir-se ao quarto da filha.
Instintivamente acompanhámo-la, de modo a assisti-la em qualquer dificuldade. Ela, porém, com inefável surpresa para nós, colocou a destra sobre a fronte da menina, solicitando-lhe a presença.
Findos alguns instantes, Evelina, em Espírito, voltou ao aposento em que seu corpo repousava.
Vendo a mãezinha, correu a abraçá-la.
Fundiram-se ambas num amplexo longo e co­movedor, misturando-se as lágrimas.

— Enfim! enfim!... — clamou a jovem ma­ravilhada.
— Minha filha! minha filha!

E, em seguida, a genitora descansou nela os olhos inflamados de esperança, pedindo súplice:
— Evelina, ajuda-nos! Se não nos unirmos sob a luz da compreensão e do trabalho, nossa casa desaparecerá... Teu pai e eu não podemos dispen­sar-te o concurso. Da saúde e da paz de Zulmi­ra depende a feliz continuação de nossa tarefa... Deus não nos reúne para a indiferença ou para o egoísmo e sim para o serviço salutar de uns pelos outros!...
— Mãezinha — explicou a jovem extática —, tenho orado, tenho pedido ao seu coração nos au­xilie...
— Sim, Evelina, sei que em tua abnegação não te descuidas da prece. Jesus terá recebido teus rogos... Achava-me surda, vitimada pelo ruído destruidor de minha própria incompreensão. Sinto, porém, que minh'alma desperta hoje... e vejo que nos compete algo fazer para restaurar o valor de teu pai e a alegria de nossa casa...
— Continuarei orando...
— Não olvides a prece, querida, mas a súplica que não age pode ser uma flor sem perfume.
Pe­çamos o socorro do Senhor, algo realizando para contribuir em seu apostolado divino... Comecemos por refundir a confiança em tua nova mãe. Faze­-te melhor para ela... Procura-a, desdobra-te no trabalho de preservação da tranquilidade domés­tica, a fim de que Zulmira se veja segura de teu afeto e de teu entendimento filial... Uma rosa sobre a mesa, uma vassoura diligente, uma peça de roupa cuidadosamente guardada, uma escova no lugar que lhe compete, são serviços de Jesus, no santuário da família, com os quais devemos valo­rizar o pensamento religioso... Não te detenhas tão somente nas boas intenções. Movimenta-te no trabalho encorajador da harmonia. Sê o anjo do serviço em nossa casinha singela! Zulmira necessi­ta de uma irmã, de uma filha!...
Aproveita a oportunidade e faze o melhor!...

Evelina, com indefinível contentamento a ilu­minar-lhe o rosto, enlaçou a mãezinha com extre­mada ternura e beijou-a, muitas vezes.
Logo após, passando a obedecer à mensageira, retomou o corpo carnal e acordou deslumbrada.
Tão grande se lhe afigurava a própria ventura que detinha a impressão de estar descendo da es­fera celestial.
A imagem de Odila, carinhosa e bela, ocupa­va-lhe, agora, todo o espelho da mente.
Estendeu as mãos em torno como se ainda pudesse tocar a genitora com os dedos de carne, conservando perfeita lembrança da inolvidável en­trevista.

Intensamente feliz, ergueu-se de um salto e vestiu-se.
Finda a higiene rápida, vimos Odila recolhê-la nos braços, conduzindo-a igualmente até Zulmira.
Induzida pela influência materna, passou pela copa e chegou junto da madrasta, oferecendo-lhe pequena bandeja com a leve refeição da manhã.
Amaro e a companheira receberam-na, encan­tados.
- Meu Deus — disse a doente, sorrindo —, tenho a impressão de que um anjo penetrou nossa casa. Tudo hoje amanheceu contentamento e bom ânimo!...
Evelina alcançou o leito, reuniu os dois côn­juges num só abraço e falou, jubilosa:

— Sonhei com Mãezinha! Vi-a tão nítida, como se ainda estivesse conosco. Afirmou que necessita­mos de amor e recomendou seja eu para Zulmira a filha que ela não tem!... Ah! que felicidade!... Mamãe ouviu minhas preces!
O ferroviário anotou, satisfeito, a informação, guardando, porém, consigo mesmo as recordações da noite para não ferir as suscetibilidades da com­panheira, e Zulmira, a seu turno, embora lembrasse os repetidos pesadelos que atravessara, sentindo-se atormentada pelos ciúmes de Odila, abafou as próprias reminiscências, para aderir com toda a alma ao otimismo daquele abençoado momento de paz e renovação.

Fixando a madrasta, com embevecimento, a menina acrescentou:
— Quero ser melhor, mais diligente e mais amiga!... Papai, você e eu seremos doravante mais felizes.
A pobre senhora suspirou reconfortada e aduziu:
— Sem dúvida alguma, Odila deve ser o nos­so gênio protetor... E’ muita alegria nesta manhã para que a nossa ventura seja simples sonho ou mera coincidência!

Aquele testemunho de gratidão, partido com a melhor espontaneidade da mulher considerada, até então, por inimiga, tocou as recônditas fibras da primeira esposa de Amaro que, incapaz de suportar a emoção, começou a chorar entre o reco­nhecimento e o regozijo.
Irmã Clara abraçou-a e falou, humilde:

— Chora, minha filha! Chora de júbilo! Em verdade, quando o amor sublime penetra em nosso coração, a luz do Senhor passa a reger os passos de nossa vida.




Do livro "ENTRE A TERRA E O CÉU", pelo espírito André Luiz - psicografia de Chico Xavier.