terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

É IMPOSSÍVEL SER FELIZ SÓZINHO

Você já imaginou se todas as pessoas fossem idênticas a você, neste mundo?
Todos tivessem pensamentos iguais, sentimentos iguais, gostos iguais aos seus?
Ninguém para lhe contrapor uma idéia, ninguém que contrariasse seus desejos, e muitos que agissem exatamente como você.
E se todas as pessoas gostassem dos mesmos filmes, dos mesmos alimentos, das mesmas festas, dos mesmos times de futebol, dos mesmos carros, e de frequentar os mesmos lugares?

Será que a vida teria graça?

Ou será que isso seria um real motivo para a infelicidade?

Imagine se todos vestissem roupas das mesmas cores, dos mesmos modelos, da mesma marca. Isso causaria tédio.
Se todos fôssemos idênticos não haveria graça nem crescimento.
Nós precisamos uns dos outros para sermos felizes. Precisamos de pessoas que pensem diferente, que sintam diferente, que ajam diferente, porque é a soma das diferenças que produz a felicidade.
Precisamos trocar experiências, discutir idéias, concordar e discordar.
É essa dinâmica da vida que nos dá motivos para viver e crescer realmente.
Por isso as diferenças são salutares, são incentivo e estímulo para o nosso progresso.
A felicidade é uma propriedade do Espírito, mas só é conquistada na vida de relação.
As emoções que sentimos só são possíveis porque existe o outro.
Se não houvesse o outro não teríamos como avaliar nossos sentimentos.
Sem o inter-relacionamento seríamos ilhas, isoladas, e a vida não teria sentido.
Podemos afirmar, então, que a felicidade é uma conquista social.
Por tudo isso, vale a pena pensar na importância das pessoas em nossa vida, por mais problemáticas que elas sejam.
São elas que dão significado à vida e nos permitem a felicidade. Portanto, as pessoas são mais importantes que os bens materiais e o dinheiro.
Imagine que você tivesse muito dinheiro, a casa de seus sonhos, com a mobília mais sofisticada possível, roupas maravilhosas e comida abundante.
Mas tudo isso ao preço de nunca mais ver ou ser visto por qualquer ser humano. Você ficaria contente? Ou será que enlouqueceria?
Só se é feliz em sociedade.
Como disse o poeta Antônio Carlos Jobim, é impossível ser feliz sozinho.
De que adianta ter beleza, dinheiro, bens, se não tiver olhos para contemplar a beleza, companhia para gastar o dinheiro e alguém para admirar nossos bens?
Assim também acontece no campo dos sentimentos.
De que adianta ter a mente mais brilhante, o coração mais afetuoso sem ninguém para dividir esses tesouros?
E somente podemos interagir dessa forma com outras pessoas. Não podemos trocar idéias com coisas ou animais.
As coisas não interagem e os animais não trocam idéias... Restam os seres humanos.
É com eles que construímos e dividimos a nossa felicidade.
Por isso é importante que o outro seja diferente. Não há crescimento sem antagonismos. Se todos fôssemos iguais não haveria progresso.
É na harmonia dessas diferenças que está a beleza da relação entre os seres racionais. Do homo sapiens.
Pense nisso. Analise sua vida de relação. Observe como o contato com as outras pessoas lhe possibilita ser feliz.
E lembre-se sempre: as pessoas não são e nem podem ser idênticas a você.

* * *

A felicidade não é um lugar aonde chegaremos um dia, é uma forma de vida, é uma maneira de caminhar.



Redação do Momento Espírita, com base em Seminário coordenado por Cosme Massi, realizado na Federação Espírita do Paraná, em 19/04/2004. Disponível no CD Momento Espírita, v. 10, ed. Fep.


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

HOSPITAL DO SENHOR

Fui ao Hospital do Senhor fazer um check-up e constatei que estava doente. Quando Jesus mediu minha pressão, verificou que estava baixa de ternura.

Ao medir a temperatura, o termômetro registrou 40 graus de egoísmo.

Fiz um eletrocardiograma e foi diagnosticado que precisava de uma ponte de amor, pois minha veia estava bloqueada e não podia abastecer meu coração vazio.

Passei pela ortopedia porque estava com dificuldade de andar lado a lado com meu irmão e não conseguia abraçá-lo, pois fraturei o braço ao tropeçar na minha vaidade.

Constatou-se miopia, pois não conseguia enxergar além das aparências.
Queixei-me de não poder ouvi-lo e o diagnóstico mostrou um bloqueio em decorrência das palavras vazias do dia-a-dia.

Obrigado, Senhor, por não ter me cobrado a consulta, por sua grande misericórdia.

Prometo, ao sair daqui, somente usar os remédios naturais que me indicou, os quais estão no receituário de seu Evangelho.

Vou tomar, diariamente, ao acordar, chá de AGRADECIMENTO; chegando ao  trabalho, beberei uma colher de sopa de BOM DIA e, de hora em hora, um comprimido de PACIÊNCIA com um copo de HUMILDADE.

Ao chegar em casa, Senhor, vou tomar diariamente, uma injeção de AMOR e ao deitar, duas cápsulas de CONSCIÊNCIA TRANQÜILA.

Agindo dessa forma, tenho certeza de que não ficarei mais doente e todos os dias serão de confraternização e solidariedade.

Prometo prolongar esse tratamento preventivo por toda a minha vida, para que, quando me chamar, seja por morte natural.

Obrigado, Senhor, e perdoe-me por ter tomado o Seu tempo.

Do Seu cliente.

CARINHO REPARADOR

Odila, sob o patrocínio da irmã Clara, foi in­ternada numa instituição de tratamento, por alguns dias, e, durante sete noites consecutivas, visitamos Zulmira, em companhia de nosso orientador, a fim de auxiliar o soerguimento dela.

A segunda esposa de Amaro mostrava-se me­lhor. Mais silenciosa. Mais calma.
Não saíra, porém, da inércia a que se reco­lhera.
Alijara a excitação de que se via objeto, mas prosseguia entregue a extrema prostração.
Subnutrida, apática, sustentava-se no mais ab­soluto desânimo.

Atendendo-nos à inquirição habitual, Clarên­cio observou, prestimoso:
— Acha-se agora liberta, contudo, reclama es­tímulo para subtrair-se à exaustão. Falta-lhe a vontade de lutar e viver. Confiemos, no entanto. A própria Odila favorecer-lhe-á a recuperação. A medida que se lhe restaure a visão espiritual, a primeira esposa de Amaro aceitará o imperativo de renúncia e fraternidade para construir o futuro que lhe interessa.
Zulmira, com efeito, continuava livre e tran­quila.

As peças do corpo funcionavam com irrepreen­sível harmonia, mas, efetivamente, algo prosseguia faltando...
A máquina mostrava-se reequilibrada, entre­tanto, mantinha-se preguiçosa, exigindo adequadas providências.

Transcorrida uma semana, Irmã Clara convi­dou-nos a breve entendimento.
Comunicou-nos que Odila revelava grande transformação.
Submetida à assistência magnética, a fim de sondar o passado, reconhecera o impositivo de sua colaboração com o marido para alcançarem ambos a vitória real nos planos do espírito.

Suspirava pelo reencontro com o filhinho, dis­punha-se a tudo fazer para ser útil ao esposo e à filhinha...

E, para tanto, combateria a repulsa espontâ­nea que experimentava por Zulmira, a quem auxiliaria como irmã, reajustando-se devidamente para fortalecê-la e ampará-la.
A benfeitora mostrava-se satisfeita.
Recomendava-nos trouxéssemos Amaro, tão logo pudesse ele ausentar-se do veículo físico, na noite próxima, até à casa espiritual de refazimento em que Odila se encontrava.
Do entendimento entre ambos, resultariam de­certo os melhores efeitos.
A mãezinha de Evelina estava reformada e daria provas do reajuste, efetuando o primeiro esforço para a reconciliação.
A solicitação de Clara foi alegremente aten­dida.

Depois de meia-noite, quando o ferroviário se rendeu à branda influência do sono, guiamo-lo ao sítio indicado.
No aposento claro e florido do santuário de recuperação em que Odila se localizava, aguardava-nos a instrutora junto dela.

O pai de Júlio, que seguia menos consciente ao nosso lado, em reconhecendo a presença da mu­lher que amava, ajoelhou-se, cobrou a lucidez que lhe era possível em tais circunstâncias, e excla­mou, enlevado:

— Odila!... Odila!...

— Amaro! — respondeu a antiga companhei­ra, então completamente transfigurada — sou eu! sou eu quem te pede coragem e fé, serenidade e valor na tarefa a realizar!...
— Estou farto, farto... — clamou ele, agora em lágrimas a lhe verterem, copiosas.

Odila, sustentada pela venerável amiga, levan­tou-se com alguma dificuldade e, alisando-lhe os cabelos, perguntou, em voz comovida:
— Farto de quê?
— Sinto-me entediado da vida... Casei-me, de novo, como deves saber, acreditando garantir a se­gurança de nossos filhos para o futuro, entretanto, a mulher que desposei nem de longe chega a teus pés... Fui ludibriado! Em lugar da felicidade, en­contrei o desapontamento que não sei disfarçar!...
E, fitando-a com enternecedora expressão, co­mentou, triste:
— Nosso Júlio morreu num desastre, quando encerrava para mim as melhores aspirações, nossa filha se estiola num quarto sem alegria e a ma­drasta que lhes impus apodrece num leito!...

Ah! Odila, poderás compreender o que sofro? Tenho rogado a morte ao Céu para que nos reunamos na eternidade, mas a morte não vem...

A esposa, compreensivelmente mais bela pelos pensamentos redentores que agora lhe imanavam do ser, com os olhos enevoados de pranto, falou-lhe com inflexão inesquecível:
— Sim, Amaro, compreendo! Também eu pa­deci muito, no entanto, hoje reconheço que a nossa dor é agravada por nós mesmos... Porque have­mos de converter a distância em rebelião e a sau­dade em venenoso fel? porque não reconhecer a Majestade Suprema de Deus, na orientação de nos­sos destinos? não temos sabido cultivar o amor que é sacrifício na Terra para a edificação de nosso paraíso espiritual... Temos exigido quando deve­mos dar, dilacerado quando nos cabe recompor!... Amaro, é preciso acalmar o coração para que a vida nos auxilie a entendê-la, é indispensável ceder de nós, a fim de receber dos outros o concurso de que necessitamos... Na aspereza de meus sen­timentos deseducados, vinha eu adubando o espi­nheiro do ciúme, atormentando-te o pensamento e perturbando a nossa casa! Mas, em alguns dias rápidos, adquiri mais ampla penetração em nossos problemas, usando a chave da boa vontade!... Quero melhorar-me, progredir, reviver...

O ferroviário contemplou-a, carinhoso e reve­rente, e acentuou, desalentado:
— Isso não impede a terrível realidade. Acha­mo-nos em dois mundos diferentes... Infortunado que sou! sinto-me desarvorado e infeliz!...
— Achava-me igualmente assim, contudo, pro­curei no silêncio e na oração o roteiro renovador.
— Que fazer de Zulmira, colocada entre nós como empecilho à nossa verdadeira união?
— Não raciocines desse modo! ela não perma­neceria em tua estrada sem motivo justo.

Nesse instante, Clarêncio abeirou-se do ferroviário e, tocando-lhe a fronte com a destra, ofere­ceu-lhe ao campo mental o retorno imediato às recordações das dívidas por ele contraídas no Pa­raguai.
Amaro estremeceu e continuou escutando.
— Se Zulmira foi situada no templo de nosso amor — prosseguiu Odila, admiravelmente inspirada —, é que nosso amor lhe deve a bênção da felicidade de que nos sentimos possuídos...
— Sim... sim... — aprovava agora o inter­locutor, de posse das reminiscências fragmentárias que lhe assomavam do coração.
— Interpretemo-la por nossa filha, por irmã de Evelina, cujos passos nos compete encaminhar para o bem. O lar não é apenas o domicílio dos corpos... É o ninho das almas, em cujo doce aconchego desenvolvemos as asas que nos trans­portarão aos cumes da glória eterna. Aceitemos a provação e a dor, como abençoadas instrutoras de nossa romagem para Deus...
— Todavia — ponderou o moço, triste —, sa­bes quanto te amo!...

— Não ignoras, por tua vez, que o teu coração constitui para mim o tesouro maior da vida, en­tretanto, hoje vejo o horizonte mais largo... Va­leria realmente o brilho dos oásis fechados? Serviria a construção de um palácio, em pleno deserto, onde estaríamos humilhando com a nossa saciedade os viajores que passassem por nós, mortificados de sede e fome? como categorizar o carinho que se pervertesse no isolamento, a pretexto de con­servar a ventura só para si?
Renovemo-nos, Ama­ro! Nunca é tarde para recomeçar o bem!... Tra­balhemos, valorizando o tempo e a vida!...

Tocado talvez nas fibras mais Íntimas, o pai de Evelina chorava convulsivamente, infundindo piedade...
Odila enlaçou-o com mais ternura e Clara con­vidou-nos a excursão através do grande jardim próximo.

A breves instantes, achávamo-nos em plena contemplação do céu...
Os dois cônjuges instalaram-se em perfumado recanto para a conversação a sós.

Notamos que a orientadora se preocupava em deixá-los entregues um ao outro, para mais seguro ajuste espiritual. E, enquanto ambos se recolhiam a confortadoras confidências, distanciamo-nos, de algum modo, admirando a beleza da noite.

Maravilhoso, o firmamento cintilava.
Longínquas constelações como que nos acena­vam, indicando glorioso futuro...
Virações suaves deslizavam, de leve, quais se fossem cariciosas e intangíveis mãos do vento, animando-nos a cabeça.
Flores de rara beleza vertiam do cálice raios de claridade diurna, como pequeninos e graciosos reservatórios do esplendor solar.

Irmã Clara fascinava-nos com a sua palavra brilhante. Com simplicidade encantadora, comentava suas viagens a outras esferas de trabalho e realização, exaltando em cada narrativa o amor e a sabedoria do Pai Celestial.

Por largo tempo, embevecidos, permutamos im­pressões acerca da excelsitude da vida que se nos revela sempre mais surpreendente e mais bela, em cada plano da Criação.

Avizinhava-se o novo dia...

Tornamos à presença do casal para devolver o companheiro ao lar terrestre. Ambos, ao término do grande entendimento, apresentavam o rosto pacificado e radiante.
Irmã Clara guardou a pupila nos braços e as duas seguiram-nos a romagem de volta.

Em casa, Amaro despediu-se de nós, risonho e calmo.

Dispúnhamo-nos à retirada, quando a instru­tora nos advertiu:
— Esperemos. Odila retomará hoje a tarefa.
O relógio marcava seis da manhã.
À maneira de colegial em dia de prova, a trans­figurada mãezinha de Júlio fitava-nos com extrema expectação...

Amaro recuperou o corpo físico, descerrando os olhos com excelentes disposições.
Não conseguira relacionar os aspectos parti­culares da excursão, mas conservava no cérebro a indefinível certeza de que estivera com a primei­ra esposa em “algum lugar” e que a vira reani­mada e feliz.
Distendeu os braços com a deliciosa tranqui­lidade de quem encontra o fim de longa e aflitiva tensão nervosa.
Levantou-se, reparando que o dia começava alegre e lindo, sem dar conta de que a alegria e a beleza haviam renascido nele próprio.
Sentia vontade de rir e cantar...
E, depois de ausentar-se do banheiro, onde cantarolou baixinho uma canção que lhe recordava o tempo em que se consorciara pela primeira vez, tornou, sorridente, ao quarto de dormir.

Foi então que Odila o enlaçou carinhosamente e exclamou:
— Vamos, querido! Estendamos a nossa feli­cidade! Zulmira espera por nosso amor...


Do livro "ENTRE A TERRA E O CÉU", pelo espírito André Luiz - psicografia de Chico Xavier.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

TEMPO CERTO!

Tudo tem seu tempo certo para acontecer!
Seja no amor, na profissão, nos encontros e nos projetos há muito idealizados.
Tenha plena certeza disso, pois, como sabemos nada acontece fora de hora ou ainda, “por acaso”.

Tudo tem seu tempo certo, para entrar e, principalmente, para “sair” de sua vida.

Claro que temos que ter isto bem nítido em nossa mente: nem tudo chega, alguma coisa tem que ir embora para dar lugar às novas coisas ou situações.

Lidar bem com as perdas é uma virtude, pois, como também sabemos nada é tirado de nós “de graça”.

Tudo tem um motivo certo e uma razão certa dentro do sincronismo da vida.

Mantenha o seu coração aberto para as “novas emoções”, sem muito esperar.
Com certeza, logo, logo estará na sua porta à resposta de que você precisa!

É importante confiar sempre nisto e saber que, dentre todas as coisas que parecem até corriqueiras, algo é para você.

Nada é “por acaso”!
Uma vez compreendida esta lição, todas as outras serão muito fáceis de serem absorvidas.
Basta tentar, basta acreditar, e basta investir em você mesmo!

“O verdadeiro segredo da felicidade está em exigirmos muito de nós e pouco dos outros”.





Desconhecemos autoria.

APELO MATERNAL

A paisagem doméstica, na residência de Amaro, não mostrava qualquer alteração.
Zulmira, atormentada por Odila, que realmen­te lhe vampirizava as forças, jazia no leito, apática e desolada, como estátua viva de angústia e medo escutando o vento que zunia, lá fora...

Mais magra e mais abatida, exibia comovedo­ramente a própria exaustão.
Irmã Clara, depois de expressivo entendimento com o nosso orientador, solícitou que nos manti­véssemos a pequena distância, e, abeirando-se da genitora de Evelina, que tanto quanto a enferma não nos percebia a presença, alongou os braços em prece.

Sob forte emoção, acompanhei o formoso qua­dro que se desdobrou, divino, ao nosso olhar.
Gradativamente, o recinto foi invadido por vas­to círculo de luz, do qual se fizera a instrutora o núcleo irradiante. Assemelhava-se nossa amiga a uma estrela repentinamente trazida à Terra, com os dois braços distendidos em forma de asas, pres­tes a desferir excelso vôo...

Cercava-a enorme halo de dourado esplendor, como se ouro eterizado e luminescente lhe emol­durasse a forma leve e sublime... Dos revérberos dessa natureza, passavam as irradiaçôes a tona­lidades diferentes, em círculos fechados sobre si mesmos, caminhando dos reflexos de ouro e opala ao róseo vivo, do róseo vivo ao azul celeste, do azul celeste ao verde claro e do verde claro ao vio­leta suave, que se transfundia em outros aspectos a me escaparem da apreciação...

Tive a idéia de que a irmã Clara se convertera no centro de milagroso arco-íris, cuja existência nunca pudera vislumbrar.
Fizera-se a casa excessivamente estreita para aquela abençoada fonte de raios balsamizantes e indefiníveis.

Reparei que a própria Odila se aquietara como que dominada por branda coação.
Extático, mal consegui articular alguns monos­sílabos, procurando esclarecimento em nosso instrutor.

— Irmã Clara — informou o Ministro, igual­mente enlevado — já atingiu o total equilíbrio dos centros de força que irradiam ondulações lu­minosas e distintas. Em oração, ao influxo da mente enaltecida, emite as vibrações do seu sentimento purificado, que constituem projeções de harmonia e beleza a lhe fluírem do ser. Se parti­lhássemos com ela a mesma posição evolutiva, entraríamos agora em relação imediata com o ele­vado plano de consciência em que se exterioriza e, então, em vez de somente observarmos este deslumbramento de luz e cor, perceberíamos a men­sagem glorificada que lhe nasce do coração, de vez que as irradiações sob nossos olhos são música e linguagem, sabedoria e amor do pensamento a ex­pressar-se maravilhoso e vivo... A sintonia espi­ritual perfeita, porém, só é possível entre aqueles que se confundem na afinidade completa...

A mensageira transfigurada parecia mais bela.

Avançou para a primeira esposa de Amaro e cobriu-lhe os olhos com a destra lirial.

— Reparem — disse Clarêncio, feliz —: ela guarda o poder de ampliar a visão. Odila identi­ficar-lhe-á a presença, assim como a vemos.
Com efeito, vimos que a genitora de Evelina, tocada por aqueles dedos celestes, proferiu um gri­to de encantamento selvagem e caiu de joelhos.

Naturalmente ofuscada pelo brilho de que se envolvia a visitante inesperada, começou a chorar, suplicando:

— Anjo de Deus, socorre-me! socorre-me!...

— Odila, que fazes? — interrogou a emissária com inesquecível inflexão de ternura.

— Estou aqui, vingando-me por amor...

— Haverá, porém, algum ponto de contacto entre amor e vingança?

Indicando timidamente a triste companheira que jazia acorrentada ao leito, Odila tentou conservar a atitude que lhe era característica, excla­mando, cruel:

— Devo alijar a intrusa que me assaltou a casa! Esta miserável mulher tomou-me o marido e assassinou-me o filhinho!... Quem ama faz jus­tiça pelas próprias mãos!...

— Pobre filha! — revidou Clara, abraçando-a. Quem ama semeia a vida e a alegria, combatendo o sofrimento e a morte... Quando nosso culto afetivo se converte em flagelação para os que seguem ao nosso lado, não abrigamos outro senti­mento que não seja aquele do desvairado apego a nós mesmos, na centralização do egoísmo aviltante. Achamo-nos à frente de infortunada irmã, arro­jada a dolorosa prova. Não te dói vê-la derrotada e infeliz?

— Ela desposou o homem que amo!... — so­luçou Odila, mais dominada pela influência magné­tica da mensageira que impressionada por suas belas palavras.

— Não seria mais justo — ponderou Clara sem afetação — considerar que ele a desposou?

E, acariciando-lhe a cabeça agora trêmula, a instrutora aduziu:

— Odila, o ciúme que não destruímos, enquan­to dispomos da oportunidade de trabalhar no corpo denso, transforma-se em aflitiva fogueira a calci­nar-nos o coração, depois da morte.

Acalma-te! A mulher de carne, que eras, precisa agora oferecer lugar à mulher de luz que deves ser. A porta do lar terrestre, onde te supunhas rainha de pequeno império sem fira, cerrou-se com os teus olhos ma­teriais! A passagem na Terra é um dia na escola... Todos os bens que desfrutávamos no mundo de onde viemos constituíam recursos do Senhor que No-los concedia a título precário. Por lá, raramen­te nos lembramos de que o tesouro do carinho doméstico é algo semelhante a sementeira precio­sa, cujos valores devemos estender...

Começamos a obra de amor no lar, mas é necessário desenvolvê-la no rumo da Humanidade inteira. Temos um só Pai que é o Senhor da Bon­dade Infinita, que nos centraliza as esperanças...

Somos, assim, todos irmãos, partes integrantes de uma família só... Já te imaginaste no lugar de Zulmira, experimentando-lhe as dificuldades e afli­ções? Já te colocaste na condição do esposo que asseveras amar? Se te visses no mundo, sem a companhia dele, com os filhinhos necessitados de consolo e sustentação, não sentirias reconhecimen­to por alguém que te auxiliasse a protegê-los?

Con­sideras somente os teus problemas... Entretanto, o homem amado permanece no cárcere de escuros padecimentos íntimos a debater-se com enigmas in­quietantes, sem que te disponhas a socorrê-lo...

— Não me fales assim! — imprecou a inter­pelada, com evidentes sinais de angústia — odeio a infame que nos roubou a felicidade...

— Odila, reflete! Esqueces-te de que a mulher sempre é mãe? O túmulo não te restituirá o corpo que a Terra consumiu, e, se desejas recuperar a ternura e a confiança do companheiro que deixaste na retaguarda, é preciso saber amá-lo com o es­pírito. Modifica os impulsos do coração!

Não suponhas Amaro capaz de querer-te, transtornada qual te encontras, entre as farpas envenenadas do despeito, caso chegasse, de repente, até nós...

— Ela, porém, matou meu filho!...
— Como podes provar semelhante acusação?
— A intrusa invejava-lhe a posição no carinho de Amaro.
— Sim — concordou Clara, afetuosa —, admi­to que Zulmira assim se conduzisse. É inexperiente ainda e a ignorância enquanto nos demoramos na Terra pode impedir-nos a visão, mas não seria justo, tão somente por isso, atribuir-lhe a morte do pequenino... Medita! A verdadeira fraternidade ajudar-te-á a sentir naquela que te sucedeu no lar uma filha suscetível de recolher-te o afeto e a orientação... Em lugar de forjares uma inimiga na sinistra bigorna da crueldade, edificarás uma dedicação nobre e leal para enriquecer-te a vida. Retirando a luz do teu amor das chamas combu­rentes do inferno de ciúme em que padeces pela própria vontade, serás realmente para o homem querido e para a filha que clama por tua assistên­cia uma inspiração e uma bênção!...

Talvez porque Odila, quase vencida, simples­mente chorasse, a mensageira afagava-lhe os ca­belos, acrescentando:
— Sei que sofres igualmente como mãe ator­mentada... Recorda, contudo, que nossos filhos per­tencem a Deus... E se a morte colheu a criança que estremeces, separando-a dos braços paternais, é que a Vontade Divina determinou o afastamento...

A mensageira amimava-lhe a fronte, dando-nos a impressão de que a submetia a suaves operações magnéticas.

Depois de alguns instantes em que apenas ou­víamos os soluços de Odila transformada, a vene­rável amiga acentuou:
— Porque não te dispões a clarear o próprio caminho, a fim de reencontrares o teu anjo e embalá-lo, de novo, em teus braços, ao invés de te consagrares inutilmente à vingança que te cega os olhos e enregela o coração?

Clara, certo, alcançara o ponto sensível daque­la alma atribulada, porque a infortunada genitora de Evelina, qual se arrojasse para fora de si mes­ma todos os pesares que lhe senhoreavam os sen­timentos, gritou, como fera jugulada pela dor:
— Meu filho!... Meu filho!...

E seu pranto convulsivo se fêz mais angustia­do, mais comovente.
A emissária do bem abraçou-a com maternal carícia e falou-lhe aos ouvidos:

— Rejubila-te, irmã querida! Grande é a tua felicidade! Podes ajudar e isso representa a ventura maior! Nada te impede auxiliar o companheiro da humana experiência, ao alcance de tuas mãos, e basta uma prece de amor puro, com o testemu­nho de tua compreensão e de tua piedade, para que venças a reduzida distância entre o teu sofri­mento e o filhinho idolatrado!... Há vinte e dois séculos espero por um minuto igual a este para o meu saudoso e agoniado coração, de vez que os meus amados ainda não se inclinaram para mim!

A voz de Clara parecia mesclada de lágrimas que não chegavam a surgir.
Dominada pelas vibrações da mensageira ce­leste, Odila agarrou-se a ela, prosseguindo em cho­ro convulso, enquanto a instrutora repetia com desvelos de mãe:

— Vamos, filha! Vamos à procura de nossa renovação com Jesus!...
Amparando-a, Clara conduziu-a para fora, co­lada ao próprio peito.

Junto de nós, Clarêncio informou:

— Agora, Zulmira poderá recuperar-se. A ad­versária retirou-se sem a violência que lhe prejudi­caria o campo mental.

E, acompanhando o nosso orientador, afastamo­-nos por nossa vez, embora conservando a atenção presa à continuação de nossa edificante aventura.

Do livro "ENTRE A TERRA E O CÉU", pelo espírito André Luiz - psicografia de Chico Xavier.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

SABER VIVER

Não sei… Se a vida é curta
Ou longa demais pra nós,
Mas sei que nada do que vivemos
Tem sentido, se não tocamos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser:
Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo,
É o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela
Não seja nem curta,
Nem longa demais,
Mas que seja intensa,
Verdadeira, pura…
Enquanto durar.

(CoraCoralina)

IRMÃ CLARA

Na noite imediata às experiências que descre­vemos, o Ministro convidou-nos a visitar a Irmã Clara, a quem pediria socorro em favor do escla­recimento de Odila.
Eu me sentia cada vez mais atraído para o romance vivo daquele grupo de almas que o destino enleara em suas teias.
Se me fosse permitido, voltaria de imediato para junto de Mário Silva rebelado, ou para junto de Amaro paciente, a fim de observar o desdobra­mento da história, cujos capítulos jaziam gravados nas páginas vivas de seus corações.
Todavia, era necessário esperar.

Enquanto buscávamos a intimidade de Clara, descia o luar em prateados jorros sobre a paisagem que se tapizava de flores.
Com o cérebro preso às preocupações resul­tantes do trabalho que nos exigia a atenção, algo indaguei de Clarêncio quanto à cooperação que pre­tendíamos solicitar.

Por que motivo rogaria ele o concurso de ou­trem, quando se dirigira com tanto êxito à mente de Esteves e Armando, reencarnados? não lhes favorecera o retrocesso da memória, até os recuados dias da luta no Paraguai? porque não conse­guiria doutrinar também a desditosa irmã enferma?

O Ministro ouviu-me, tolerante, e redargüiu:

— Iludes-te. Nem sempre doutrinar será trans­formar. Efetivamente, guardo alguma força magnética suficientemente desenvolvida, capaz de ope­rar sobre a mente de nossos companheiros em recuperação; no entanto, ainda não disponho de sentimento sublimado, suscetível de garantir a re­novação da alma. Sem dúvida, dentro de minhas limitações, estou habilitado a falar à inteligência, mas não me sinto à altura de redimir corações. Para esse fim, para decifrar os complicados labirintos do sofrimento moral, é imprescindível haver atingido mais elevados degraus na humana com­preensão.

Dispunha-me a desfechar novo interrogatório, contudo, nosso orientador indicou-nos bela edifica­ção próxima.

Cercada de arvoredo, que servia de enfeite a espaçosos canteiros de flores, a residência de Clara figurou-se-nos pequeno colégio ou gracioso inter­nato para moças.

Até certo ponto, não nos enganáramos.

A nossa anfitriã não morava num estabeleci­mento de ensino, entretanto, mantinha em casa um verdadeiro educandário, tão grandes e luzidas eram as assembleias instrutivas que sabia orga­nizar.

Recebeu-nos em extenso salão, onde era aten­ciosamente ouvida por quatro dezenas de alunos de variadas condições, que se instalavam à vontade, em grupos diversos, sem qualquer idéia de escola assinalando o ambiente em sua feição exterior.

De olhos rasgados e lúcidos a lhe marcarem magnificamente o semblante com os traços aristo­cráticos do rosto emoldurados pela vasta cabeleira, Clara parecia uma jovem madona, detida entre os melhores dons da mocidade e da madureza. Es­tendeu-nos as mãos pequenas e finas, responden­do-nos às saudações com alegria sincera.

Nosso orientador rogou excusas, pela nossa interferência no trabalho.

— Não se incomodem — acentuou a interlo­cutora, encantadoramente natural —, achamo-nos num curso rápido, acerca da importância da voz a serviço da palavra. Podem partilhá-lo conosco. Nossa aula é uma simples conversação...

Fitando bondosamente o Ministro, rematou:

— Sentem-se. Sou eu quem pede perdão por fazê-los esperar mais um pouco. Em breves instantes, todavia, entraremos em nosso entendimento mais íntimo.

E, voltando à poltrona que nada tinha de cá­tedra, sem qualquer atitude professoral, tao gran­de era o doce ambiente de maternidade que sabia irradiar de si, começou a dizer para os aprendizes:

— Conforme estudamos na noite de hoje, a palavra, qualquer que ela seja, surge invariávelmente dotada de energias elétricas específicas, li­bertando raios de natureza dinâmica. A mente, como não ignoramos, é o incessante gerador de força, através dos fios positivos e negativos do sentimento e do pensamento, produzindo o verbo que é sempre uma descarga electromagnética, regu­lada pela voz. Por isso mesmo, em todos os nossos campos de atividade, a voz nos tonaliza a exterio­rização, reclamando apuro de vida interior, de vez que a palavra, depois do impulso mental, vive na base da criação; é por ela que os homens se apro­ximam e se ajustam para o serviço que lhes com­pete e, pela voz, o trabalho pode ser favorecido ou retardado, no espaço e no tempo.

Dentro da pausa ligeira que se fizera espon­tânea, simpática senhora interrogou:

— Mas, para que tenhamos a solução do pro­blema, é indispensável jamais nos encolerizarmos?

— Sim — elucidou a instrutora, calma —, indiscutivelmente, a cólera não aproveita a ninguém, não passa de perigoso curto-circuito de nos­sas forças mentais, por defeito na instalação de nosso mundo emotivo, arremessando raios destrui­dores, ao redor de nossos passos...

Sorrindo bem humorada, acrescentou:

— Em tais ocasiões, se não encontramos, jun­to de nós, alguém com o material isolante da ora­ção ou da paciência, o súbito desequilíbrio de nossas energias estabelece os mais altos prejuízos à nos­sa vida, porque os pensamentos desvairados, em se interiorizando, provocam a temporária cegueira de nossa mente, arrojando-a em sensações de remoto pretérito, nas quais como que descemos quase sem perceber a infelizes experiências da animalidade in­ferior. A cólera, segundo reconhecemos, não pode e nem deve comparecer em nossas observações, re­lativas à voz. A criatura enfurecida é um dínamo em descontrole, cujo contacto pode gerar as mais estranhas perturbações.

Um moço, com evidente interesse nas lições, argumentou:

— E se substituíssemos o termo «cólera» pelo termo «indignação»?

Irmã Clara pensou alguns instantes e redar­guiu:

— Efetivamente, não poderíamos completar os nossos apontamentos, sem analisar a indignação como estado d'alma, por vezes necessário. Natural­mente é imprescindível fugir aos excessos. Contra­riar-se alguém a propósito de bagatelas e a todos os instantes do dia será baratear os dons da vida, desperdiçando-os, de modo inconsequente, sem o mínimo proveito para si mesmo ou para os outros. Imaginemos a indignação por subida de tensão na usina de nossos recursos orgânicos, criando efeitos especiais à eficiência de nossas tarefas. Nos casos de exceção, em que semelhante diferença de poten­cial ocorre em nossa vida íntima, não podemos es­quecer o controle da inflexão vocal. Assim como a administração da energia elétrica reclama aten­ção para a voltagem, precisamos vigiar a nossa indignação principalmente quando seja imperioso vertê-la através da palavra, carregando a nossa voz tão somente com a força suscetível de ser apro­veitada por aqueles a quem endereçamos a carga de nossos sentimentos. É indispensável modular a expressão da frase, como se gradua a emissão elétrica...

E, ante a assembléia que lhe registrava os en­sinamentos com justificável respeito, prosseguiu, depois de ligeiro intervalo:

— Nossa vida pode ser comparada a grande curso educativo, em cujas classes inumeráveis da­mos e recebemos, ajudamos e somos ajudados. A serenidade, em todas as circunstâncias, será sempre a nossa melhor conselheira, mas, em alguns aspec­tos de nossa luta, a indignação é necessária para marcar a nossa repulsa contra os atos deliberados de rebelião ante as Leis do Senhor. Essa elevada tensão de espírito, porém, nunca deve arrojar-se à violência e jamais deve perder a dignidade de que fomos investidos, recebendo da Divina Confiança a graça do conhecimento superior. Basta, dentro dela, a nossa abstenção dos atos que íntimamente reprovamos, porque a nossa atitude é uma corrente de indução magnética. Em torno de nós, quem simpatiza conosco geralmente faz aquilo que nos vê fazer. Nosso exemplo, em razão disso, é um fulcro de atração. Precisamos, assim, de muita cau­tela com a palavra, nos momentos de tensão alta do nosso mundo emotivo, a fim de que a nossa voz não se desmande em gritos selvagens ou em considerações cruéis que não passam de choques mortíferos que infligimos aos outros, semeando espinheiros de antipatia e revolta que nos prejudi­carão a própria tarefa.

Um amigo que acompanhava os ensinamentos, com interesse invulgar, perguntou, respeitoso:

— Irmã Clara, como devemos interpretar as perturbações da voz, como, por exemplo, a gaguez e a diplofonia?

— Sem dúvida — informou a instrutora, solí­cita —, os órgãos vocais experimentam igualmente lutas e provações quando reclamam reajuste. Por intermédio da voz, praticamos vários delitos de ti­rania mental e, através dela, nos cabe reparar os débitos contraídos. As enfermidades dessa ordem compelem-nos ao trabalho de recuperação no si­lêncio, de vez que, sofrendo a alheia observação, aprendemos pouco a pouco a governar os próprios impulsos, afeiçoando-os ao bem.

A orientadora, que falava com absoluta sim­plicidade e à maneira de um anjo maternal dirigindo-se aos filhinhos, comentou, ainda por alguns minutos, o tema singular com surpreendente pri­mor de definição.

Depois, finda a aula, permaneceram no belo domicílio tão somente algumas jovens que encontravam em nossa anfitriã desvelada benfeitora.

Clara convidou-nos a pequena peça contígua e o Ministro deu-lhe a conhecer o objetivo de nossa visitação. Alguém na Terra precisava ouvi-la, a fim de modificar-se. A interlocutora perguntou, com carinho, quanto às particularidades do serviço que pretendíamos realizar.

Clarêncio resumiu o drama que nos empolgava a atenção.

Quando se inteirou de que amargurada mulher devia renunciar ao companheiro que permanecia na Terra, vimos imensa compaixão se lhe estampar no rosto. Seus olhos enevoaram-se de lágrimas que não chegaram a cair...

Compreendi que a nobre instrutora, aureolada de soberanos valores morais, trazia consigo profun­das mágoas imanifestas. Certamente, buscávamos reconforto para um coração infeliz num coração que talvez estivesse padecendo ainda mais...

— Pobre criatura! — disse a orientadora, co­movida.

E, afirmando-se com tempo bastante para au­sentar-se, acolheu-nos o apelo e dispôs-se a seguir-nos generosamente.


Do livro "ENTRE A TERRA E O CÉU", pelo espírito André Luiz - psicografia de Chico Xavier.