segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

A DOR E A FELICIDADE PARTILHADA

A dor partilhada é metade da tristeza, mas a
felicidade quando partilhada, é dobrada!


Dois homens, ambos gravemente doentes, estavam no mesmo quarto de hospital. Um deles podia sentar-se na sua cama durante uma hora todas as tardes para conseguir drenar o líquido de seus pulmões. Sua cama estava junto da única janela do quarto. O outro homem tinha de ficar sempre deitado de costas para a janela. Os homens conversavam horas a fio. Falavam das suas mulheres e famílias, das suas casas, seus empregos, seu envolvimento no serviço militar, locais onde eles passava as férias. Todas as tardes, quando o homem da cama perto da janela se sentava, ele passava o tempo descrevendo ao seu companheiro todas as coisas que ele podia ver do lado de fora da janela. O homem da cama do lado começou a viver para aqueles períodos de uma hora, em que o seu mundo era alargado e animado por toda a atividade e cor do mundo do lado de fora. A janela dava para um parque com um lindo lago de patos e cisnes brincavam na água enquanto crianças com os seus barquinhos. Jovens namorados caminhavam de braços dados por entre as flores de todas as cores e uma bela vista da silhueta da cidade podia ser visto na distância. Quando o homem perto da janela descrevia isto tudo com detalhes requintados , o homem no outro lado do quarto fechava os seus olhos e imaginava esta cena pitoresca . Uma tarde quente, o homem perto da janela descreveu um desfile que passava. Embora o outro homem não conseguisse ouvir a banda - ele podia vê-lo no olho da sua mente como o senhor a retratava através de palavras descritivas . Dias , semanas e meses se passaram. Uma manhã , a enfermeira chegou ao quarto trazendo água para os seus banhos, e encontrou o corpo sem vida do homem perto da janela , que tinha morrido tranquilamente em seu sono . Ela ficou muito triste e chamou o atendentes para que levassem o corpo . Logo que lhe pareceu apropriado, o outro homem perguntou se podia ser colocado na cama perto da janela. A enfermeira ficou feliz em fazer a troca , e depois de ter certeza que ele estava confortável , ela deixou ele sozinho. Vagarosamente, pacientemente , ele se apoiou em um cotovelo para tomar o seu primeiro olhar para o mundo real. Fez um grande esforço e lentamente a olhar para fora da janela além da cama . Ele enfrentou uma parede em branco . O homem perguntou à enfermeira o que poderia ter levado seu companheiro falecido, que tinha descrito coisas tão maravilhosas fora dessa janela. A enfermeira respondeu que o homem era cego e nem sequer conseguia ver a parede. Ela disse: Talvez ele só queria encorajar você. Há uma felicidade tremenda em fazer os outros felizes, apesar dos nossos próprios problemas . A dor partilhada é metade da tristeza, mas a felicidade quando partilhada, é dobrada. Se você quer se sentir rico, conta todas as coisas você tem que o dinheiro não pode comprar. "Hoje é uma dádiva, é por isso que é chamado de O PRESENTE".

Desconhecemos autoria.

RECUANDO NO TEMPO

Depois do nosso esforço de autocondensação, para o necessário ajuste vibratório, Clarêncio abei­rou-se dos dois amigos, com o amoroso poder que lhe era característico e, em nos reconhecendo, Má­rio associou-nos a presença ao pesadelo da véspera e passou a clamar:

— Meu caso não é com a polícia!... não pre­cisamos de qualquer delegado aqui!...

— Acalma-te, amigo! — respondeu o Ministro, atencioso. — Não somos quem julgas. Estamos aqui para que te lembres... É indispensável te recordes.

E, situando a destra na fronte do enfermeiro, reparamos que Mário Silva aquietava-se, de repente.

O semblante dele acusou estranha metamor­fose.

Afigurou-se-nos mais elegante, mais jovem.

Abriu desmesuradamente os olhos, depois de alguns momentos, e exclamou, semi-aterrado:

— Ah! agora!... agora me lembro!... Meu agressor de ontem é Leonardo Pires... Como po­deria esquecê-lo assim tão infantilmente? como não rememorar? Disputávamos a mesma mulher... Achávamo-nos em Luque, quando conheci a can­tora e bailarina admirável... Lola Ibarruri! Quem senão ela poderia oferecer-me o bálsamo do esque­cimento? Realmente fiz tudo para separá-los...

Ele não era o tipo de homem capaz de fazê-la feliz! Lola trazia consigo a beleza, a juventude e a arte reunidas e eu carregava no peito o esquife dos sonhos mortos... Deu-me o repouso de que minh'alma necessitava... restaurou-me. Mas... que domingo terrível aquele da praça embandeirada, em Piraju!... Deslocavam-se as forças para a caça ao inimigo... Imaginava, porém, a melhor maneira de reencontrar a mulher querida e, naquela manhã de terrível memória, consegui a simpatia de Frei Fidélis, antes da missa... O caridoso capuchinho auxiliar-me-ia, advogando-me a causa... Lola não deveria movimentar-se, entretanto, poderia, por mi­nha vez, tornar à retaguarda!... Os maiorais eram meus amigos!... Obteria, por isso, o favor do Príncipe!... Arquitetava meus planos, quando en­contrei Leonardo... Não supunha conhecesse ele a deserção da companheira e procurei agradá-lo, aceitando-lhe a companhia... O suculento repasto exigia algum trago de vinho e Pires não hesitou, ministrando-me o veneno que trazia às ocultas!... Ah! bandido! bandido!...

Mário levou as mãos à garganta, como se registrasse enorme sofrimento e caiu, desamparado, gemendo de dor.

O Ministro, paciente, aplicou-lhe recursos mag­néticos balsamizantes e o rapaz levantou-se, atur­dido.

Amaro, que se mostrava igualmente transtor­nado, acompanhava a cena com manifesta aflição.

Clarêncio ajudou o enfermeiro a firmar-se de novo sobre os pés e perguntou, concitando-o a re­lembrar:

— Por que razão te afeiçoaste à cantora, com tamanho desvario? porque não atendeste aos avi­sos da consciência, que, decerto, te rogava não despertasses o ódio naquele que te aniquilaria o corpo físico?

Apresentando a expressão de um louco, Mário desferiu desconcertante gargalhada e bradou:

— Porque amei Lola Ibarruri? porque não tive escrúpulos em arrebatá-la ao companheiro que a retinha nos braços?

Nosso instrutor afagava-lhe a cabeça com o evidente intuito de reavivar-lhe a memória.

— Ah! sim!... — prosseguiu Mário Silva, alar­mado — ausentei-me de Assunção com o espírito irremediá
velmente desiludido...

De olhar vagueante, como se surpreendesse o passado ao longe, nos recôncavos da noite, conti­nuou:

— Nos arredores da formosa capital para­guaia, construíra minha casa e era feliz!... Lina era o tesouro de meu coração... Minha amiga e minha esposa, minha esperança e minha razão de ser...

Descendente de uma das famílias de Mato Grosso aprisionadas pelo inimigo, na invasão de dezembro de 1864, encontrei-a sem parentes, asi­lada por respeitável família, que a adotara por fi­lha estremecida!... Ah! quando lhe fitava os olhos claros e doces, sentia-me transportado a céus imen­sos... Era tudo o que a mocidade ideara de mais lindo para o meu coração... Nela encontrava a divina novidade de cada dia e, apesar das vicissitudes da guerra, mergulhávamo-nos ambos na rósea corrente dos mais belos sonhos... O próprio Marquês de Caxias conheceu-a e animou-nos a união... Foi assim que, em janeiro de 1869, quan­do a trégua nos atingira, um sacerdote consagrou-nos o casamento... O Conselheiro Paranhos pro­meteu ajudar-nos, tão logo regressássemos ao Bra­sil, para que o nosso consórcio fosse devidamente festejado... Vivíamos tranquilos, como duas aves entrelaçadas no mesmo ninho, quando tive a des­graça de levar ao nosso templo doméstico dois companheiros de trabalho e de ideal... Armando e Júlio... Sim, seriam eles amigos ou abutres?

Sei apenas que Lina e eles se fizeram íntimos em pouco tempo... Com a desculpa de aliviarem os sofrimentos da campanha, os dois passaram a gastar, em nosso pequeno santuário de ventura, todo o tempo que lhes era disponível. Descansava mi­nhalma na confiança sincera, até que um dia...

O semblante do narrador alterou-se, de súbito.

Esgares de amargura modificaram-lhe a feição.

Imprimindo à voz lúgubre acento, continuou, atormentado:

— Até que, um dia, encontrei Lina e Júlio abraçados um ao outro, como se o tálamo conju­gal lhes pertencesse.

Cravou em nós o olhar agora coruscante e terrível e acrescentou:

— Compreenderão, acaso, a dor do homem que se vê irremissivelmente atraiçoado pela mulher em que se apóia para viver? Entenderão o incêndio que lavra no espírito flagelado de quem, num mi­nuto, vê destruidas as esperanças da vida intei­ra?... Tudo é treva para quem carrega consigo mesmo o carvão dos enganos mortos! Não quis acreditar no que via e interpelei a mulher ama­da... Lina, porém, atirou-me em rosto o mais frio desprezo... Afirmou, rudemente, que não podia amar-me, senão como irmã que se compadece de um companheiro necessitado, que me desposara simplesmente para fugir às humilhações que expe­rimentava numa terra estrangeira e que eu, efetivamente, deveria desaparecer... Envergonhado, in­voquei a proteção de superiores amigos e fugi de Assunção... Eu era, contudo, um homem diferen­te... A segurança de caráter que cultivava, brioso, fora abalada nos alicerces... Viciei-me... Confiei-me ao álcool e ao jogo... Do militar responsável, desci à condição de aventureiro infeliz... Foi as­sim que encontrei Lola e Leonardo e não hesitei em exterminar-lhes a felicidade... É muito difícil albergar respeito aos outros, quando fomos pelos outros desrespeitado.

Valendo-se da pausa que se evidenciava, es­pontânea, Clarêncio indagou:

— E nunca recebeste notícias da esposa?

Mário Silva, reconduzido à personalidade de Esteves pela influência magnética, exibiu sarcástico sorriso e informou:

— Lina, que passei a odiar, era demasiado cruel. Achava-me não longe de Assunção, depois de três meses sobre a mágoa terrível que me fora assacada, quando vim a saber que Júlio fora igual­mente escarnecido por ela. Certo dia, de volta ao lar, encontrou-a nos braços de Armando, o outro amigo que parecia consagrar-nos estima fraternal. Menos forte que eu mesmo, Júlio esqueceu-se do revés com que me dilacerara, semanas antes, e, cego de absorvente afeição, ingeriu grande dose de corrosivo... Socorrido a tempo, na caserna, con­seguiu sobreviver, mas, incapaz de suportar os ma­les corpóreos decorrentes da intoxicação, depois de alguns dias embebedou-se deliberadamente e arro­jou-se às águas do Paraguai, aniquilando-se, en­fim... Depois disso, nada mais soube. A morte aguardava-me em Piraju... O destino marcara-me, impiedoso...

Mário fixou desagradável carantonha e acen­tuou:

— Sou um poço de fel. Não posso modificar-me... Haverá paz sem justiça e haverá justiça sem vingança?

Nosso orientador ergueu a voz calmante e con­siderou, generoso:

— É necessário esquecer o mal, meu amigo. Sem aquela atitude de perdão, recomendada pelo Cristo, seremos viajores perdidos no cipoal das tre­vas de nós mesmos. Sem amor no coração, não teremos olhos para a luz.

Silva dispunha-se a responder, entretanto, Ama­ro fizera ligeiro movimento e mostrou-se-nos singu­larmente renovado. Seu veículo espiritual parecia haver regredido no tempo. Revelava-se mais leve e mais ágil e sua face impressionava pelos traços juvenis.

Buscou aproximar-se do enfermeiro num gesto natural de cordialidade, todavia, em lhe observando o rosto metamorfoseado, o antagonista bradou en­tre o ódio e a angústia:

— Armando! Armando! ... Pois és tu? O Ama­ro que hoje detesto é o mesmo Armando de ontem? onde me encontro? enlouqueci, porventura?...

Instruindo-nos, cuidadoso, Clarêncio falou, rápido:

— Não precisei despender grande esforço para que a memória de Amaro tornasse ao pretérito. O sofrimento reparador conferiu-lhe à mente e à sensibilidade recursos novos. Bastou-me tocá-lo de leve, para que aproveitasse a digressão do antigo companheiro, recuperando as recordações da época em estudo...

O esposo de Zulmira procurava estender braços amigos ao adversário que o contemplava, galvani­zado de assombro, contudo, recuando, de repente, como animal ferido, Mário gritou em desespero:

— Não, não! não te acerques de mim! não me provoques, não me provoques!...

O Ministro, no entanto, situando-se entre os dois, pediu, comovidamente:

— Tenhamos calma! Respeitemo-nos uns aos outros!

E, dirigindo-se particularmente ao enfermeiro, determinou, sem afetação:

— Agora, é o momento de nosso amigo. Co­mentaste o pretérito à vontade. É indispensável que Amaro fale por sua vez. A justiça, em qual­quer solução, deve apreciar todas as partes inte­ressadas.

Contido pela força moral da advertência, Má­rio calou-se e, voltados então para o ferroviário, que se fizera mais simpático pela serenidade de que se investira, continuamos à escuta.




Do livro "ENTRE A TERRA E O CÉU", pelo espírito André Luiz - psicografia de Chico Xavier.


domingo, 26 de janeiro de 2014

SE EU MORRER ANTES DE VOCÊ

Se eu morrer antes de você, faça-me um favor: Chore o quanto quiser, mas não brigue com Deus por Ele haver me levado. Se não quiser chorar, não chore. Se não conseguir chorar, não se preocupe. Se tiver vontade de rir, ria. Se alguns amigos contarem algum fato a meu respeito, ouça e acrescente sua versão. Se me elogiarem demais, corrija o exagero. Se me criticarem demais, defenda-me. Se me quiserem fazer um santo, só porque morri, mostre que eu tinha um pouco de santo, mas estava longe de ser o santo que me pintam. Se me quiserem fazer um demônio, mostre que eu talvez tivesse um pouco de demônio, mas que a vida inteira eu tentei ser bom e amigo. Espero estar com Ele o suficiente para continuar sendo útil a você, lá onde estiver. E se tiver vontade de escrever alguma coisa sobre mim, diga apenas uma frase: "Foi meu amigo, acreditou em mim e me quis mais perto de Deus!" Aí, então derrame uma lágrima. Eu não estarei presente para enxugá-la, mas não faz mal. Outros amigos farão isso no meu lugar. E, vendo-me bem substituído, irei cuidar de minha nova tarefa no céu. Mas, de vez em quando, dê uma espiadinha na direção de Deus. Você não me verá, mas eu ficaria muito feliz vendo você olhar para Ele. E, quando chegar a sua vez de ir para o Pai, aí, sem nenhum véu a separar a gente,vamos viver, em Deus, a amizade que aqui nos preparou para Ele. Você acredita nessas coisas? Então ore para que nós vivamos como quem sabe que vai morrer um dia, e que morramos como quem soube viver direito. Amizade só faz sentido se traz o céu para mais perto da gente, e se inaugura aqui mesmo o seu começo. Mas, se eu morrer antes de você, acho que não vou estranhar o céu.. Ser seu amigo... já é um pedaço dele..."


Chico Xavier

NOVAS EXPERIÊNCIAS

Noite fechada e alta, tornamos ao domicílio do enfermeiro, seguidos de Clarêncio, que funcionava, como sempre, junto de nós, por mentor diligente e amigo.

Mário Silva, estirado nos lençóis, debalde pro­curava dormir.

O sonho da véspera castigava-lhe o pensamento.

Ruminando as impressões da manhã, refletia de si para consigo: — seria realmente Amaro, o rival, quem lhe surgira na forma de um criminoso? e aquela mulher chorosa e acabrunhada seria, por­ventura, Zulmira, a companheira de infância, que ainda lhe feria as recordações? onde o motivo de semelhante reencontro? Teimava em afastar para longe as reminiscências da mocidade... por isso mesmo, não acreditava estivesse nele próprio a cau­sa do estranho pesadelo... Permanecia convicto de que alguém o chamara, nitidamente, pronunciando palavras que o constrangiam a atender... Estaria Zulmira em apuros? E esta, acaso se recordaria dele? E se as suas conjecturas expressassem a ver­dade, teria o direito de reaproximar-se? Não ima­ginava isso possível... A chaga do brio retalhado ainda lhe sangrava no coração. Não seria justo acudi-la, nem mesmo a pretexto de socorrer. Co­nhecia-lhe o esposo de relance, mas o suficiente para detestá-lo, com todas as reservas de ódio de que se sentia capaz. Ainda mesmo que a mulher, outrora querida, lhe suplicasse assistência, cabia-lhe ser surdo aos seus rogos...

Hipóteses inquietantes e perguntas sem respos­ta lhe assediavam o cérebro toldado de apreensão e rancor.

A antiga aversão pelo rival preponderava, do­minando-o.

Porque não voltar ao sonho da noite anterior, de modo a tentar uma solução?

A figura de Amaro crescia-lhe no campo mental.

«Se as almas podiam efetivamente reencon­trar-se, fora do corpo — prosseguia divagando —, decerto conseguiria rever o adversário e revidar... Se fora invocado em sonho, era lícito invocar quem quisesse... Chamaria o renegado esposo de Zul­mira a explicar-se. Concentraria nele o poder do pensamento. Buscá-lo-ia onde estivesse. »

O Ministro contemplava-o, compadecido.

Valendo-se dos minutos para ensinar-nos algo proveitoso, observou:

— A paixão cega sempre. Nossa vida mental é a nossa vida verdadeira e, por isso, quando a pai­xão nos ocupa a fortaleza íntima, nada vemos e nada registramos senão a própria perturbação.

Em seguida, aplicou passes balsamizantes so­bre o rapaz, que se virava, desajustado, no leito - Mário, qual se houvera sorvido brando anes­tésico, relaxou os nervos e descansou o comboio físico, mas, ressurgindo em nosso plano, começou a extravasar os sentimentos que lhe senhoreavam o espírito.

Não nos assinalava a presença, continuando, porém, sob a nossa observação, em seus mínimos movimentos.

Espantadiço e tateante, vagueou pelos ângulos do quarto no veículo perispirítico, extremamente condensado.

Todavia, pouco a pouco, esgazearam-se-lhe os olhos, dando-nos a idéia de quem se detinha em aflitivos quadros íntimos.

Anotando-nos o assombro silencioso, o instru­tor socorreu-nos, explicando:

— Qual acontece ao nosso amigo Leonardo, o novo companheiro padece angustioso complexo de fixação. Embora tenha o seu caso particular, algo suavizado pelas lutas da carne, que, por vezes, cons­tituem abençoado entretenimento, não consegue di­luir a obcecante recordação do inimigo. A mágoa é-lhe inquietante ferida mental. Enquanto se dis­trai nas tarefas comuns, alheia-se, de alguma sor­te, ao tormento oculto que transporta consigo, mas, em se vendo espiritualmente a sós, dá curso ao ódio coagulado, desde muito, no coração. Obser­vemo-lo!

Mário desceu para a rua, à maneira de louco, e, inalando o ar refrescante da noite, forneceu a impressão de quem se revigorava, de súbito, pas­sando a gritar, com voz estridente:

- Amaro, ladrão! Amaro, usurpador! apare­ce! Se tens dignidade, afronta-me a vingança!... Não tremerei!... Onde ocultaste a mulher que eu amo? Responde, responde!...

Silva caminhava semi-ébrio, sem direção, con­tudo, arremessava as palavras no ar, com veemên­cia e segurança.

Havíamos dobrado esquinas diversas e eis que, quando menos esperávamos, surge alguém ao en­contro dele, em plena via pública.

Copiando o impulso do ferro atraído pelo ímã, o esposo de Zulmira, em seu corpo sutil, corres­pondia ao chamado estranho do inimigo, desligado parcialmente da carne.

Defrontaram-se, a princípio, altivamente, en­tretanto, logo após, com as maneiras do homem mais educado, Amaro esboçou delicado recuo, re­velando-se preocupado em evitar conflitos e abor­recimentos.

O enfermeiro, porém, de ânimo revel, bradou, desconcertante:
— Não te acovardes, bandido! Não fujas!... Temos contas a ajustar!...

O ferroviário, contudo, afastava-se, rápido.

O adversário, no entanto, sem arrefecer no ímpeto, seguia-o, inflexível, longe de renunciar ao escuro propósito de agressão.

Acompanhávamos ambos, quarteirão a quar­teirão, até que esbarramos à entrada do abrigo doméstico que já conhecíamos, onde Amaro dispôs-se ao ajuste pacífico.

Demonstrando-se interessado em defender a tranquilidade familiar, o dono da casa estacou à porta, aguardando o provocador.

— Então — bradou Silva, exasperado —, é aqui o ninho das serpentes?

Levantando os punhos contra o rival humil­de, prosseguiu, rixento:

— Pagar-me-ás muito caro a intromissão! In­fame enganador, onde puseste a mulher que era minha felicidade e minha vida? Quebraste-me os sonhos, aniquilaste-me os ideais!... Homem terrí­vel, que fizeste de mim? Sou apenas máquina de trabalho, sem fé e sem esperança!...

— Eu não sabia, não sabia!... — alegou Ama­ro, desapontado — nunca tive a intenção de ofen­der-te!

— Maldito! como sabes dissimular! onde está Zulmira? devo exterminar-te para restituir-me a independência?

E afrontado pela serenidade do outro, o enfer­meiro acentuou:

— Não me reconheces, acaso?

— Sim, reconheço-te — falou o interlocutor num suspiro —, és Mário Silva, pessoa a quem devoto consideração e respeito.

— Consideração e respeito? que deslavado fin­gimento! onde a prova de apreço, se me arrancaste a noiva, engodando-a com mentirosas promessas?

— Somente soube de tua velha afeição por ela quando meus compromissos no matrimônio não admitiam qualquer recuo. Se alguém, todavia, me houvesse comunicado lealmente quanto se desen­rolava, em torno de minha preferência, teria renun­ciado em teu favor. Desejaria realmente servir-te, entretanto, agora...

— Hipócrita! — tornou Mário, enfurecido —não creio em tua palavra de lobo disfarçado. Rou­baste-me a única felicidade que eu esperava do mundo! a única felicidade que era minha!...

Amaro fixou triste sorriso e obtemperou:

— E acreditas que eu seja feliz? Admites no casamento apenas a exaltação dos sentidos inferio­res? Crês que o homem consorciado deva encon­trar na mulher simplesmente uma escrava?

Anuo em Zulmira a companheira e a irmã que me cabe proteger. Nem ela e nem eu encontramos na expe­riência conjugal a ventura das afeições cor-de-rosa, em que o desejo contentado é como a flor que mor­re num dia... Temos padecido muito, Mário. Não ignoras que me casei em segundas núpcias. Zul­mira, por isso mesmo, não terá recolhido em mim a perfeita alegria que lhe seria lícito esperar. Nos­sa aproximação começou por uma série de desajus­tes, que culminaram com a morte do meu caçula, num terrível desastre... Desde então, nossa casa é um espinheiro de sofrimento... Minha esposa adoeceu gravemente e eu mesmo, até agora, con­tinuo agoniado e desfalecente... Saberias, porven­tura, o que seja a desdita de um pai que chora sem lágrimas, mortalmente ferido? Se dívidas pos­suo para com a Divina Providência, podes acredi­tar que não tenho amargado pouco, a fim de ressarci-las... A morte para mim não passaria de bênção libertadora. Como podes observar, não me vejo em condições de aceitar-te o desafio! Estou dilacerado e, mais que dilacerado, vencido...

Com enternecedora inflexão de súplica, acen­tuou:

— Se ainda consagras amor à criatura que desposei, ajuda-nos com a tua compreensão!... Se te fiz algum mal, inconscientemente, perdoa-me! Perdoa-me pelas angústias da minha existência de condenado a horríveis provas morais!...

Mário Silva, com espanto nosso, retribuiu com escandalosa gargalhada.

— Desculpar? Nunca! — exclamou jactancio­so. — Pelo tom da conversa, concluo que a justiça começou a expressar-se, devidamente, mas abreviá­-la-ei com as minhas próprias mãos... Meu des­forço é certo, meu ódio é inexorável!...

Amaro não mais respondeu.

Vimo-lo curvar a cabeça em oração fervorosa. Suaves irradiações de esmeraldina luz escapavam-lhe da fronte. As palavras inarticuladas de que se servia, para implorar socorro, alcançavam-nos o espírito, qual se fossem ondas caloríferas e harmo­niosas de humildade e confiança.

Silva, incapaz de sensibilizar-se, ante a rendi­ção comovente, prosseguia gritando:

— Porque silencias, covarde? Fala, fala! Ex­plica-te!... Reage! Dominaste Zulmira, mas não me dobrarás um milímetro!... Criminosos de tua laia não merecem compaixão!...

Nessa altura do diálogo, Clarêncio convocou-nos, paternal:

— Respondamos à prece de Amaro, com o auxílio fraterno.

Arrastados pela simpatia e pela emoção, acom­panhamos o nosso orientador, sem hesitar.



Do livro "ENTRE A TERRA E O CÉU", pelo espírito André Luiz - psicografia de Chico Xavier.

sábado, 25 de janeiro de 2014

NOSSOS PIORES INIMIGOS



Jesus havia proferido o maravilhoso Sermão da Montanha há apenas um dia. As frases ecoavam no ar, e aqueles que O ouviram ainda vivenciavam as vibrações especiais daquele momento.

Em Cafarnaum, um homem nobre, chamado Bartolomeu acercou-se de Jesus. As belas palavras proferidas significaram para ele um verdadeiro estatuto de conduta, e ele buscou o Mestre com uma grande dúvida.

Queria saber quais os piores adversários do ser humano. Perguntou quando se travaria a batalha contra esses inimigos e quais as armas a serem usadas.

Jesus, cheio de compaixão, respondeu: Eu te direi que esses inimigos se encontram dentro de cada um, e ali trabalham pela infelicidade do ser.

Todos os indivíduos apontam esses inimigos fora deles mesmos, supondo que as aflições vêm de fora, de outras pessoas, e então, tornam-se rebeldes e vingativos.

O mais impiedoso de todos os inimigos é o egoísmo, devorador de alegrias alheias. Há também a avareza, a inveja, a maledicência, o ódio, o ciúme, a ambição desmedida, o ressentimento.

E concluiu: A luta para vencer esses inimigos deve ser travada no campo da consciência, transformando as tendências inferiores, adotando uma conduta rica em misericórdia , compaixão, fraternidade e caridade.

Nada mais precisava ser dito. Bartolomeu entendeu quais eram os grandes adversários do ser humano, e como poderiam ser combatidos.

* * *

Passados mais de dois mil anos, as palavras do Mestre continuam tão atuais como outrora.

Muitos de nós ainda têm o hábito de responsabilizar o mundo externo por grande parte do que acontece de errado, consigo ou com outros, sem parar para analisar as reais causas.

Julgamos os conflitos armados sob a ótica que nos parece mais adequada, tomando este ou aquele partido.

No entanto, quase nunca paramos para pensar que o mesmo ódio, a mesma ganância, o mesmo ressentimento que originou esse conflito, muitas vezes vive em nós, com diferentes causas e consequências, mas com a mesma paixão.

Falamos sobre a violência urbana, e sempre temos uma solução para ela. Mas esquecemos que nossa indiferença gera a necessidade, e até o ódio daquele que rouba.

Falamos sobre a corrupção, como se ela fosse exclusiva daqueles que detêm o poder. Mas esquecemos que a ambição desmedida que a gera, muitas vezes vive dentro de nós, mesmo que em menores proporções.

Comentamos sobre famílias desfeitas por egoísmo, e achamos que o nosso próprio egoísmo é justificável pois, afinal, temos as nossas necessidades.

Adiamos, quase sempre, o início de um trabalho voluntário, com a desculpa de não termos tempo, e nos esquecemos de desenvolver em nós a caridade, a fraternidade, a compaixão, o real amor ao próximo.

Nossos piores inimigos estão em nós mesmos, como disse Jesus, e já é tempo de os reconhecermos. Somente assim poderemos travar nossa batalha pessoal contra eles, na qual a principal arma é o amor.

O Sermão da Montanha é um verdadeiro chamamento feito por Jesus que, desde então, espera pacientemente que O escutemos.

E você? Já O escutou de verdade? Já leu com atenção aquelas belas palavras? Já abriu os ouvidos e o coração em busca da única vitória que realmente interessa: a vitória sobre nós mesmos e nossas imperfeições morais?

Pense nisso.




Redação do Momento Espírita com base no cap. 6, do livro A mensagem do Amor Imortal, pelo Espírito Amélia Rodrigues, psicografia de Divaldo Pereira Franco, ed. Leal.

ALÉM DO SONO

Tornando à Esteves, Clarêncio ofereceu-lhe o braço amigo, mas o moço prorrompeu em súplica:

— Não me prendam! não me prendam! Sou a vítima!...

O Ministro absteve-se de continuar em sua afe­tiva manifestação.

No passo vagaroso de quem carrega um fardo de aflição, o inimigo de Leonardo retirou-se para a via pública, regressando ao aconchego doméstico.

Seguimo-lo a pequena distância.

Renovava-se o dia.

Pedestres marchavam diligentes, na direção do trabalho.

Bondes rangiam, sonolentos, e os autos, aqui e ali, começavam a transitar pelas ruas.

Em breve tempo, o rapaz, seguido de nosso grupo, estacionou à frente de vasto conjunto residencial.

Grande relógio próximo exibia o mostrador.

Cinco horas e trinta minutos.

Embatucado, o moço voltou-se para nós, e, em seguida, desapareceu no interior.

Entramos.

Em momentos rápidos, achavamo-nos diante dele, que se esforçava por reaver o corpo físico.

O Ministro, sem molestá-lo, amparou-o afetuo­samente, e Esteves, pouco a pouco, recuperou a calma natural.

Mantinha-se em suave modorra, quando o des­pertador tilintou, faltando quinze minutos para seis.

O rapaz esfregou os olhos, de carantonha amar­rada, guardando a impressão de mau sonho.

Vestindo-se, apressado, notamos que minúsculo cartão de visita lhe caiu do bolso, ensejando-nos a leitura de um nome: — «Mário Silva, Enfer­meiro».

E o nosso instrutor reafirmou:

— Nosso amigo, ontem Esteves, hoje é Mário Silva, prosseguindo em sua vocação para a enfer­magem. Ouçamo-lo por alguns momentos.

O moço atendeu às obrigações da higiene e, logo após, foi recebido em pequena sala do aparta­mento por simpática velhinha, em cujo olhar adi­vinhamos a ternura de mãe.

Depois de saudação carinhosa, a senhora in­dagou bem humorada:

— Onde esteve esta noite, meu filho? Seu sem­blante carregado não me engana.

— Um sonho horrível, mamãe.

E fixando gestos expressivos, entre os goles do café notificou:

— Sonhei que alguém me chamava, a distân­cia, em voz alta, e, acreditando tratar-se de algum doente em estado grave, não vacilei. Corri ao ape­lo, mas, ao invés de topar um quarto de enfer­mo, vi-me, de imediato, numa cela mal iluminada e úmida...

E, com os recursos de imaginação de que dis­punha para corresponder às requisições da mente, o rapaz continuou:

- Era um perfeito cubículo de prisão, onde me surpreendi encarcerado, de repente, junto de um criminoso de mau aspecto e de infortunada mu­lher em pranto... Senti tanta simpatia pela moça desventurada, quanta aversão pelo réu de medonha catadura. Tive, porém, a impressão nítida de que nos conhecíamos. Um misto de ódio e sofrimen­to me tomou de assalto, junto deles, principalmen­te ao lado do infeliz, cujo olhar se me afigurava cruel... Perguntava, a mim mesmo, Porque me não retirava de tão detestável presença, mas, enquanto o homem me repelía, a mulher me provocava o maior enternecimento... Por mais estranho que pareça, experimentava o desejo de agredí-lo e de acariciá-la, ao mesmo tempo. Achava-me em expec­tativa, quando o criminoso avançou para mim, com o propósito evidente de liquidar-me, ao passo que a pobrezinha procurava defender-me. Estava atô­nito, ignorando se o condenado pretendia assassínar-me ali mesmo quando tentei uma reação à altura! Cego de incompreensível rancor, ia preci­pitar-me sobre ele, quando, rápido, apareceu um delegado policial, seguido de dois guardas que en­traram na contenda, impedindo-nos o mau impulso. O chefe, segundo percebi, de um só golpe conte­ve o meu agressor, obrigando-o a sentar-se, vencido, conquistando-me um respeito tão grande que, real­mente, apesar do desejo de ouvir a mulher ajoe­lhada, em soluços não arredei pé do lugar em que me apoiava. Depois de palavras enérgicas e rápi­das, o delegado trouxe, então, à cela outros aju­dantes que arrastaram meu adversário para fora... Logo após, acomodando-me numa velha cadeira, reconduziu a jovem para o interior do cárcere...

Estampou na fisionomia a expressão de quem se propunha inütilmente lembrar-se e, decorridos longos instantes de reticência, rematou:

— Depois... depois, não consigo precisar as recordações .. Sei apenas que me pus a correr, em fuga para nossa casa, de vez que os policiais se mostravam igualmente dispostos a recolher-me. Temendo o xadrez, acordei estremunhado e abatido...

A velhinha que escutava atenciosa, comentou calma:

— Há Sonhos que valem por terríveis pesa­delos...

— É o que senti — concordou Mário, preo­cupado.

A mãezinha contemplou-o, bondosa, e acres­centou:

— Meu filho, o sonho terá alguma relação com a nossa Zulmira? A mulher com quem simpatizou não seria, acaso, nossa velha amiga, e o homem que lhe inspirou tanta repugnância não poderia ser interpretado como sendo o esposo dela?

O rapaz cobriu-se de leve palidez, mostrou-se mais taciturno e falou, triste:

— Quem sabe?

— Você nunca mais teve notícia de nossa an­tiga companheira?

— Não. Tenho apenas a informação de que mora aqui mesmo, onde o marido é ferroviário de importância.

— Nunca pude entender-lhe a atitude. Tantos anos de convivência, tantos projetos de felicidade!... Trocar tudo, assim, por um viúvo, acompanhado de dois filhos!...

O moço fixou um gesto de amargura e ob­servou:

— Ora, mamãe, evitemos recordações sem pro­veito. Zulmira não deve reaparecer em minha me­mória e esse Amaro que ela desposou é um ponto negro em meu coração. Creio que o melhor senti­mento para eles dois em minha vida íntima é o ódio com que os reúno em minha lembrança.

Não desejo revê-los e, francamente, se eu soubesse que residiam aqui, em nossa vizinhança, decidiria nos­sa transferência para outro rumo...

E, transcorridos alguns instantes, ajuntou:

— Meu sonho foi um simples pesadelo. Algu­ma preocupação imprecisa ou alguma intoxicação alimentar...

A senhora sorriu, desapontada, e aduziu:

— Cá por mim, estou certa de que, à noite, reencontramos as pessoas que amamos ou detesta­mos. Nosso Espírito, no sono, procura os afetos ou os desafetos do caminho para acertar as próprias contas. Disso, não tenho qualquer dúvida.

O filho, indiscutivelmente enfadado, reergueu-se, abraçou a genitora, osculou-lhe a cabeça bran­ca e concluiu:

O relógio é inflexível. O sonho passou e, agora, é a realidade que me espera. Devo cooperar no serviço operatório de duas crianças, às oito em ponto. Não me posso demorar. O hospital não cogita de pesadelos.

Mostrou um sorriso forçado e despediu-se.

A mãezinha acompanhou-o carinhosamente até à porta, retomando os serviços caseiros, pensativa...

Preparando-nos para a retirada, trazia o meu cérebro castigado por obsidiantes interrogações.

Encontráramos um novo capítulo na história da oração de Evelina?

Amaro e Zulmira, mencionados pelo enfermei­ro, seriam as mesmas personagens que havíamos visitado anteriormente?

Dispunha-me à inquirição, quando o olhar de Clarêncio cruzou com o meu. Registrando-me a es­tranheza, informou:

— Já sei o teor de tuas interrogações. Real­mente, o nosso novo amigo foi noivo de Zulmira, a senhora obsidiada que conhecemos. Pretendia desposá-la, mas foi preterido no coração dela por Amaro, que lhe deve assistência e carinho. O pas­sado fala no presente. Acham-se enredados numa teia de compromissos que lhes reclamam resgate.

— E reencontrar-se-ão para o desdobramento das lutas redentoras em que se envolvem? — per­guntou Hilário, admirado.

— Inevitávelmente — acentuou o instrutor com voz segura.

A dona da casa, mãe devotada e sensível, me­ditando no sonho do filho, embora movimentando automáticamente a vassoura, orava por ele, rogan­do a Jesus o abençoasse.

Anotávamos-lhe as reflexões na mente preo­cupada. Sabia quanto custara ao moço renunciar à mulher escolhida. Conhecia-lhe o temperamento enigmático e receava tornar a vê-lo atormentado e vencido...

O pensamento em prece escapava-lhe da ca­beça, como tênue esguicho de luz.

Clarêncio abeirou-se dela e transmitiu-lhe for­ças calmantes, que lhe sossegaram o coração.

Em seguida, o orientador no-la apresentou, generoso:

— Nossa irmã Minervina é velha conhecida. Recebeu nos braços meia dúzia de filhos que tem sabido conduzir, admiràvelmente. Coração abnega­do, alma rica de fé.

Abraçamo-la, carinhosamente, às despedidas. De regresso, reparando que estávamos desejosos de seguir Mário Silva para obter maiores in­formes, no desenvolvimento de nossa história que começava a ser fascinante, o Ministro recomendou:

— Não convém incomodar nossos amigos no curso das obrigações diuturnas, provocando eluci­dações que seriam desagradáveis e fora de ocasião. Aguardemos a noite, porque enquanto o corpo fí­sico se refaz a alma invariavelmente procura o lu­gar ou o objeto a que imanta o coração.

Ouvimos o orientador e aquietamo-nos.

Cabia-nos aguardar a noite, quando se esten­deriam as nossas experiências.



Do livro "ENTRE A TERRA E O CÉU", pelo espírito André Luiz - psicografia de Chico Xavier.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

CHAVES LIBERTADORAS - REEQUILÍBRIO

DESGOSTO 
Qualquer contratempo aborrece. No entanto, sem desgosto, a conquista de experiência é impraticável... 
OBSTÁCULO 
Todo empeço atrapalha. Sem obstáculo, porém, nenhum de nós consegue efetuar a superação das próprias deficiências. DECEPÇÃO. 
Qualquer desilusão incomoda. Todavia, sem decepção, não chegamos a discernir o certo do errado.
ENFERMIDADE 
Toda doença embaraça. Sem a enfermidade, entretanto, é muito difícil consolidar a preservação consciente da própria saúde. TENTAÇÃO 
Qualquer desafio conturba. Mas, sem tentação, nunca se mede a própria resistência. PREJUÍZO 
Todo o golpe fere. Sem prejuízo, porém, é quase impossível construir segurança nas relações uns com os outros. 
INGRATIDÃO 
Qualquer insulto à confiança estraga a vida espiritual. No entanto, sem o concurso da ingratidão que nos visite, não saberemos formular equações verdadeiras nas contas de nosso tesouro afetivo. 
DESENCARNAÇÃO 
Toda morte traz dor. Sem a desencarnação, porém, não atingiríamos a renovação precisa, largando processos menos felizes de vivência ou livrando-nos da caducidade no terreno das formas. Compreendamos, à face disso, que não podemos louvar as dificuldades que nos rodeiam, mas é imperioso reconhecer que, sem elas, eternizaríamos paixões, enganos, desequilíbrios e desacertos, motivo pelo qual será justo interpretá-las por chaves libertadoras, que funcionam em nosso espírito, a fim de que nosso espírito se mude para o que deve ser, mudando em si e fora de si tudo aquilo que lhe compete mudar.

Do livro "Paz e Renovação", pelo Espírito André Luiz, Francisco C. Xavier